Economia
PIB: consumo das famílias surpreende e investimento decepciona. Veja a avaliação dos economistas
Mercado de trabalho forte e transferências de renda impulsionaram gastos dos brasileiros. Mas juros altos e incertezas na política fiscal travaram projetos
ABERTURA
O PIB em histórias: veja como a economia afeta famílias e empresas brasileiras
Atividade econômica: PIB freia e cresce apenas 0,1% no terceiro trimestre, mas resultado veio melhor que o esperado
A economia brasileira cresceu 0,1% no terceiro trimestre, o que significa uma pisada no freio em relação ao desempenho de janeiro a julho. Ainda assim, o resultado superou as previsões de especialistas, que esperavam queda de 0,2%. Dois aspectos chamaram a atenção dos economistas: a força do consumo das famílias e a queda dos investimentos.
Para a economista-chefe da Consultoria A.C. Pastore, Paula Magalhães, o consumo das famílias surpreendeu, pois havia expectativa de que fosse desacelerar e aconteceu o contrário, com alta de 1,1% sobre o segundo trimestre, o que mostrou a força do mercado de trabalho.
O que surpreendeu no resultado do PIB?
Estávamos esperando uma queda em linha com o consenso do mercado. Houve revisões fortes desde 2021, mas principalmente este ano. E apesar do endividamento alto, as famílias estão consumindo, com a massa salarial subindo. O mercado de trabalho foi melhorando ao longo do ano e a inflação dos alimentos ajudou a liberar espaço no orçamento.
Esperávamos uma queda no trimestre que sofreria com a máximo potência da política monetária (o movimento dos juros tem efeito defasado). Passamos de prever dois trimestres de queda do PIB (o que caracteriza uma recessão técnica) para não ver nenhuma queda.
Qual efeito na política de juros do Banco Central?
Significa que não vamos ter a desaceleração que estávamos esperando. Portanto, a nossa expectativa de que os juros não devem ficar abaixo de 10,5% (a taxa Selic ditada pelo Banco Central) se mantém.
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Tem a parte externa nessa conta. Há consenso entre agentes de mercado que os EUA não entrarão em recessão, mas os juros devem ficar parados por um longo período ainda. Sem contar a nossa questão fiscal. O arcabouço corre o risco de credibilidade antes de entrar em vigor.
Há um mix de incertezas. O BC deveria desapegar de deixar combinado que vai fazer cortes de 0,5 ponto percentual daqui para frente e ficar vendo o que vai acontecer.
E o consumo das famílias?
Foi o movimento mais interessante. Houve aceleração no consumo das famílias, quando esperávamos uma desaceleração. No trimestre passado já havia crescido 0,9%. Os juros altos tiveram efeito nos investimentos, mas no consumo, não.
O investimento veio bem ruim, com queda de 2,5% no trimestre.
Houve revisões fortes no investimento, principalmente em 2021, com redução de 4 pontos percentuais. A taxa de investimento voltou aos patamares de 2019, depois do surto de investimento em 2020 com a queda dos juros (chegou a 2% ao ano, atualmente está em 12,25%). O que afeta também as importações (caíram 2,1% no trimestre). Investimento e importação no PIB estão interligados.
O que esperar para 2024?
Vamos começar a ver os efeitos da queda dos juros. Já começou o corte na metade do ano, mas tem ficar atento com cenário global muito incerto e política fiscal. Poderia ter um efeito nos investimentos que poderiam voltar a crescer, sem esquecer que os juros devem continuar altos.
Na avaliação do ex-diretor do Banco Central (BC), Tony Volpon, a queda do investimento no Produto Interno Bruto (PIB) no terceiro trimestre solidifica a percepção de que a economia brasileira está desacelerando rapidamente.
Segundo Volpon, os números do PIB reforçam o argumento de que o BC possui maior liberdade para discutir uma eventual aceleração do ciclo de queda nos juros. Ele ressalta que as condições no cenário externo melhoraram nas últimas semanas, com recuo das curvas de juros longas nos Estados Unidos e com a percepção no mercado de que o Federal Reserve, BC americano, poderá iniciar os cortes nas taxas ante do que se esperava.
Como avalia os resultados do PIB do 3º trimestre?
Do segundo para o terceiro trimestre, tivemos uma queda da participação da agricultura, mas na revisão de dados que ocorreu, a contribuição da agricultura subiu na primeira metade desse ano.
O consumo surpreendeu positivamente e o setor externo também, apesar da queda da agricultura que ocorreu nesse trimestre.
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Negativamente, o investimento está caindo quase 7% no ano sobre ano. A grande questão é o que está por trás dessa queda de investimento em um período onde os resultados têm vindo melhores do que o mercado esperava.
Investimento tende a ser o componente mais volátil do PIB, então, se ele está caindo como está caindo, realmente aponta para uma desaceleração da economia à frente.
A queda do investimento se deve ao aperto monetário do Banco Central ou são outros fatores?
Essa queda de investimentos pode ter relação com as incertezas sobre a questão fiscal e com a política monetária, sendo um efeito já palpável do aperto monetário que está em curso há quase dois anos. Esses dois fatores estão contribuindo para a queda de investimentos e também a incerteza sobre a gestão do setor estatal por parte do governo. O mercado tem ficado muito preocupado com a governança da Petrobras.
O dado solidifica essa visão de que a economia brasileira está desacelerando rapidamente.
O que o governo poderia fazer para mudar esse quadro?
O governo deveria realmente endereçar a questão fiscal de maneira definitiva e não ficar em discussões sobre mudança de meta, e interpretações variadas do que vai ser contingenciado. Isso gera incerteza no mercado, que é sempre muito sensível a notícias fiscais.
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Podemos até discutir se não há certo exagero no pessimismo do mercado sobre a situação fiscal brasileira. Estruturalmente, acredito que sim. Mas impacta a visão do mercado e acaba impactando a economia real.
Como analisa a resiliência do consumo das famílias, em momento de alívio da inflação?
Tivemos um adicional de transferência de renda forte com a vinda desse governo, pela PEC da Transição, e as mudanças que foram feitas no Bolsa Família. Isso explica o desempenho, junto com o ainda forte comportamento do mercado de trabalho.
O consumo é um Titanic. Ele tem um momentum que carrega para frente e ainda deve ser um fator de força para o PIB nos próximos trimestres. Mas o investimento fala muito mais sobre o PIB futuro do que o consumo.
Os dados do PIB, com essa queda de investimentos, podem influenciar no processo de cortes de juros pelo BC?
Vejo esse dado do PIB como abrindo ou reforçando a parte do argumento que diz que o Banco Central deveria acelerar a velocidade do ajuste monetário.
Se uma das razões para não ter esse debate era essa restrição externa, hoje ela é muito menos saliente com uma Treasuries (títulos do Tesouro americano) de 10 anos a 4,20%.
Aquele medo de descontrole das taxas de juros americana já passou. A economia americana teve um surto de crescimento no terceiro trimestre, mas as previsões para o quarto trimestre nos EUA estão em 1,2% na taxa anualizada, enquanto no terceiro foi 5%.
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O mercado já está precificando queda de juros a partir de março do ano que vem. Tivemos uma mudança radical no cenário americano, o que dá liberdade parra o Banco Central rever o ritmo de cortes que ele tem adotado.
Há outros fatores como mercado de trabalho e inflação de serviços que devem ser considerados. Não está tudo indicando para um lado só, mas acredito que esse debate deve ocorrer.
Você pode passar todo o ano de 2024 em território restritivo ou com defasagens restritivas sobre a demanda agregada. Isso me parece um pouco exagerado, quando o mercado está trabalhando com PIB de 1,5%.
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