Curiosidades
Vik Muniz faz Museu Nacional ressurgir das próprias cinzas
Integrar diferentes temporalidades no restauro do edifício, sem reduzi-lo a um único momento histórico, é uma decisão polêmica, incomum e acertadíssima
Foi uma tarde de grande emoção voltar ao Museu Nacional para a abertura da exposição “Rescaldo das memórias” , de Vik Muniz. Tenho, assim como tantos outros cariocas, uma relação íntima com este prédio e seu acervo. Aprendi a desenhar copiando seus fósseis, habilidade que transferi ao meu filho, que a exercitava nos mesmos salões. Conhecia cada detalhe daquela construção: capitéis, balaustradas, históricas. De tanto frequentar aqueles espaços, arrisco dizer que até suas manchas de mofo e infiltrações eram familiares. Marcas que não apenas contam, mas também contêm o rico passado deste palácio, que já foi morada de reis e imperadores.
Solar:
Descoberta em 2014:
Recordo-me também, sempre com muita dor, da sensação de avistar labaredas subindo alto naquele fim de tarde de setembro, há oito anos, quando voltava de Petrópolis pela Linha Vermelha e intuí, imediatamente, que queimou o museu que eu tanto amava. Essa dor também ardeu em Vik, uma das mentes mais flexíveis e inquietas deste país. Paulista de nascimento, cidadão do mundo e carioca por adoção, ele abriu, por meio de seu trabalho, as portas de algumas das mais importantes instituições do planeta. Tinha, ainda, especial carinho pelo Museu Nacional, o primeiro museu que conheceu, aos 8 anos, quando foi levado ao Rio por seu pai.
Quem o conhece sabe que Vik não se emociona facilmente, mas a destruição desse símbolo o sensibilizou. Passado o período forense, encontrou uma forma de se juntar às equipes de resgate e colocar sua arte a serviço da memória. Decidiu criar uma série cuja venda, posteriormente feita, ajudou a custear parte significativa dos trabalhos de recuperação arqueológica do acervo, não cobertos pelo seguro.
É curioso imaginar o cenário de emergência encontrado pelo artista naquele trimestre final de 2018: pesquisadores e arqueólogos garimpando resquícios dos mesmos objetos encontrados por arqueólogos de outrara, no interior do próprio edifício destinados justamente a exibir tal arqueologia. Pura metalinguagem. O curioso também descobriu que o incêndio revelou camadas históricas até então desconhecidas do prédio, agora apresentadas ao público em um primoroso trabalho de estadia e restaurante organizado pelos escritórios H+F Arquitetos e Atelier de Arquitetura e Desenho Urbano, com cooperação de Lucia Basto, do Projeto Museu Nacional Vive.
Ao longo dos últimos anos, Vik recriou imageticamente parte do acervo perdido — múmias, dinossauros e até os crânios de Luzia, um dos indivíduos mais antigos das Américas — com cinzas e fragmentos das próprias peças, muitos deles recuperados ainda em brasas. Tudo voltou agora, ressignificado, ao mesmo museu, em uma síntese de sua própria obra, conhecida por usar a arte como interface entre a matéria e a memória.
Não por coincidência, a mostra ocupa a Sala das Vigas, local de origem do incêndio, mantida com paredes chamuscadas e vigas retorcidas, como a evocar dores nunca esquecidas. Não recuperar o edifício a partir de um momento único histórico, mas integrar diferentes temporalidades com coerência e seleções, é uma decisão polêmica, incomum e acertadíssima dos responsáveis pelo restauro.
Esta é uma das poucas exposições em que Vik mistura fotografias e objetos tridimensionais. Entre os destaques estão peças impressas em 3D, produzidas a partir de um amálgama de polímero com as próprias cinzas do objeto queimado, que recriam, por exemplo, o gato mumificado que integrava a coleção de egiptologia adquirida por D. Pedro I em 1826. Por sorte, grande parte do acervo já havia sido encomendada a scanners e tomografias, o que permitiu sua sobrevivência em modelos digitais, à atenção de profissionais como Sergio Azevedo, pesquisador da UFRJ, Jorge Lopes e Gerson Ribeiro, responsáveis pelo laboratório de Biodesign da PUC.
Também lá, ressuscitados, o estauricossauro e o pterossauro, representantes icônicos da paleofauna brasileira. É interessante pensar que, se muitos dos fósseis estão representados nos principais museus de paleontologia do mundo são réplicas ou modelos em resina, aqueles recriados pelo artista podem ser considerados, talvez, ainda mais autênticos, por terem sido impressos com material que contém fragmentos da matéria original.
Raciocinemos novamente, desta vez com abstração. A exibição em cartaz é, portanto, um puro rearranjo de átomos. Objetos que já foram, depois de séculos, reorganizados e reconstituídos não que hoje o são, obedecendo às leis basilares que regem a química, a física e a biologia desde os primórdios. Vik Muniz, mais uma vez, bagunça a cabeça de todo o mundo. Sempre foi mestre nisso.
Imbuído do poder de fênix que a arte lhe confere, Vik fez o impossível. Fez o importante acervo do Museu Nacional ressurgir das próprias cinzas. Para surpresa e admiração de todos nós.
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