Curiosidades

Vik Muniz expõe no Museu Nacional obras feitas com materiais recuperados do incêndio

Em “Rescaldo das memórias”, artista reúne 11 fotografias e nove esculturas que recriam itens perdidos do acervo na Sala das Vigas, onde o fogo teve início em 2018

Agência O Globo - 30/06/2026

Quando era criança, Vik Muniz saiu de São Paulo com o pai para visitar um tio no Rio de Janeiro e conheceu alguns dos principais pontos turísticos da cidade, como o Pão de Açúcar e o Cristo Redentor. Mas a lembrança que mais marcou o artista, que completa 65 anos em dezembro, foi a visita ao Museu Nacional, em São Cristóvão, na Zona Norte. Com obras em acervos de instituições como o Guggenheim e o Whitney, em Nova York; a Tate Gallery, em Londres; o Centre Georges Pompidou, em Paris; e o Reina Sofía, em Madri, Vik recorda a ida ao antigo Palácio Imperial, na Quinta da Boa Vista, como a primeira vez em que entrou em um museu — uma das razões pelas quais a experiência o impactou tão profundamente.

Ao ver as imagens do incêndio, em 2018, enquanto trabalhava em Zundert, cidade natal de Van Gogh, na Holanda, Vik procurou o Museu Nacional para entender de que forma poderia colaborar com a reconstrução. Da iniciativa nasceu a série “Museu de cinzas” (2019/2026), criada a partir de restos da estrutura queimada e de itens do acervo. O conjunto foi apresentado pela primeira vez em 2019, na galeria Sikkema Jenkins, em Nova York.

Em maio, foram exibidas duas imagens que reproduzem a antiga fachada do museu e o crânio de Luzia, o fóssil humano mais antigo já encontrado no Brasil, além da inédita “Tropeognathus mesembrinus” (2026), escultura em tamanho real de um pterossauro instalada na rotunda. No dia 21, o artista apresentou as obras no próprio Museu Nacional, com a inauguração da mostra “Rescaldo das memórias”, que reúne 11 fotografias e nove esculturas inspiradas em peças emblemáticas do acervo. A exposição ocupa a Sala das Vigas, onde o incêndio teve início, em um espaço cujo projeto de restauro optou por preservar algumas marcas da tragédia.

Em colaboração com as equipes do museu, Vik teve acesso a resíduos do incêndio, utilizados como elementos gráficos nas fotografias e como matéria-prima para esculturas produzidas em impressoras 3D, em parceria com pesquisadores do Laboratório de Processamento de Imagem Digital (Lapid/UFRJ).

— Quando criança, fiquei fascinado com o Museu Nacional, aquela coisa meio gabinete de curiosidades do acervo, algo de que sempre gostei. E museu é aquele lugar de onde você não sai com nada além das memórias. Parece que existe um fio que te conecta, você sabe que ele estará lá quando quiser voltar. Depois entendi por que o incêndio me pegou tão forte, por sentir que não poderia voltar àquele lugar da memória da infância — diz Vik. — Poder voltar ao museu com essa exposição foi uma catarse incrível. Foi bom poder ter as duas mostras, ali e no CCBB, em cartaz ao mesmo tempo. Acho que são complementares.

“Bastidores da ciência”

Além de “Rescaldo das memórias”, o Museu Nacional inaugurou, no dia 21, a exposição “Bastidores da ciência”, que apresenta tanto os processos utilizados na recuperação dos acervos atingidos pelo incêndio quanto técnicas e práticas comuns ao cotidiano da instituição, como modelagem digital, taxidermia e ilustrações científicas. Em celebração aos 208 anos do museu, completados no dia 6, as mostras ficam em cartaz até 30 de agosto e abrem a programação de exposições temporárias de 2026.

Para a museóloga Thaís Mayumi Pinheiro, coordenadora das Novas Exposições para Reconstrução do Museu Nacional/UFRJ, é importante que o público frequente o espaço mesmo antes da reabertura total, prevista para 2029. A visitação, segundo ela, permite acompanhar os processos de restauro e recomposição das coleções, além de compreender a complexidade e a duração de cada etapa.

— Só na abertura, passaram 3.500 visitantes pelo museu. É fundamental as pessoas verem que, mesmo quando estava sob escombros, o trabalho nunca parou. E que ele não termina com as exposições, como em outras instituições. Há toda uma produção científica realizada em paralelo à reconstrução — comenta Thaís. — Tivemos algumas dezenas de milhares de itens e lotes recuperados, dependendo, claro, de sua materialidade. E apresentamos também as doações que vieram de outras coleções e instituições.

Na entrada de “Rescaldo das memórias”, tubos de vidro exibem alguns dos materiais recolhidos após o incêndio e utilizados por Vik Muniz nas obras, com etiquetas que indicam “Fósseis”, “Egito” ou “Luzia”. A identificação, conta Thaís, servidora do Museu Nacional há 11 anos, só foi possível graças ao envolvimento de toda a equipe.

— O trabalho foi liderado pelos arqueólogos e paleontólogos da casa, que são professores aqui. Todo mundo que conhecia o prédio ajudou a fazer o mapeamento do que estaria nos escombros, onde ficavam os fósseis, os arquivos de papel — detalha a museóloga. — Foi um processo doloroso. Tive que lembrar do que estava na área de exposições, na minha sala. Tenho memórias do público aqui antes do incêndio, olho para uma parede chamuscada e sei o que estava ali. Mas é um sentimento agridoce, já que estamos retomando esse contato com os visitantes. Dá muita esperança, é simbólico ter as obras do Vik ocupando este espaço.

O tema do incêndio habita há muito tempo o pensamento de Vik. O artista conta que a abertura no Rio o levou a reler os originais de um livro que escreve há mais de 20 anos, inspirado no dia em que foi visitar a mãe, telefonista da antiga Companhia Telefônica Brasileira, e acabou testemunhando uma das maiores tragédias da cidade de São Paulo.

— Minha mãe trabalhava na sede da CTB, na Rua Sete de Abril, no Centro de São Paulo, e, ao sair, vimos o incêndio do Edifício Andraus, em 24 de fevereiro de 1972 — relata Vik, ao explicar também o critério adotado para escolher o que seria reproduzido. — Quando comecei a série, não queria fazer obras que não tivessem sido perdidas. Por isso não fiz o Bendegó, um dos meus itens preferidos da coleção, junto da múmia do gato e da Luzia. Como elas foram destruídas, fizemos as esculturas. E a exposição ficou em um bom tamanho, com um bom número de trabalhos. A mostra não é só sobre a série, é também sobre aquele espaço, com as marcas do que aconteceu.

O artista afirma que os trabalhos o levam a refletir sobre como um resíduo material pode assumir a forma simbólica daquilo que o objeto foi um dia. Algumas obras, inclusive, incorporam mais elementos originais do que os objetos anteriormente exibidos, como ocorre com o crânio de Luzia. Por questões éticas, já que se tratava dos restos mortais de um ser humano, o museu mostrava ao público uma réplica do fóssil — que também se perdeu no incêndio.

— A escultura tem as cinzas do crânio. É curioso pensar que um pouco da Luzia está, de fato, ali. É importante trazer essa materialidade de volta, ou vestígios dessa materialidade. O museu é o espaço de se reconectar com essa experiência física, presencial. Acho que existe um sentimento renovado disso entre as pessoas, essa vontade de ir além do digital — afirma Vik.