Curiosidades
Projeto de € 54,5 milhões marca nova fase do Festival de Annecy, referência mundial em animação
Evento inaugura o La Cité, espaço permanente dedicado ao cinema de animação, em meio a debates sobre os desafios do setor
Localizada próxima à fronteira com a Suíça, Annecy é conhecida por sua herança pré-medieval, pelos numerosos canais, pelo lago de águas cristalinas que leva o mesmo nome da cidade e, há mais de seis décadas, por sediar o Festival Internacional de Cinema de Animação de Annecy, o maior evento do gênero no mundo.
Todos os anos, no mês de junho, a pequena cidade francesa, com cerca de 53 mil habitantes, transforma-se na capital mundial da animação. Durante uma semana, recebe profissionais, artistas e estudantes de diferentes países para celebrar, exibir e discutir a arte da imagem em movimento. Com a apresentação, na última sexta-feira, da Cidade Internacional do Cinema de Animação, o festival passa a contar com um espaço permanente, com atrações durante todo o ano.
O La Cité, como o complexo é chamado, ocupa os 2,7 hectares do antigo haras da cidade, patrimônio histórico construído na segunda metade do século XIX, no coração de Annecy. O projeto de ocupação e adaptação custou € 54,5 milhões e inclui área de 800 m² para exposições temporárias e permanentes, salas para oficinas de animação, museu, residência artística e uma sala de projeção dedicada à exibição de clássicas, retrospectivas e novas produções.
O charmoso cinema, com 322 assentos, foi inaugurado com uma sessão de "Kirikou e a feiticeira" (1998), primeiro longa do veterano animador francês Michel Ocelot, conhecido também por obras como "As aventuras de Azur e Asmar" (2006). A sessão foi voltada para uma plateia formada por crianças.
— Queríamos dar a esta forma de arte um lar permanente, um lugar aberto ao público ou ano todo, onde se pudesse descobrir obras, compreender técnicas, conhecer artistas, transmitir conhecimento às gerações mais jovens e receber profissionais de todo o mundo. Uma capital da animação não pode prosperar com uma atividade que dura apenas uma semana por ano — afirma Mickaël Marin, diretor-geral do Festival de Annecy.
A 68ª edição do festival foi aberta oficialmente no último domingo, com a estreia mundial de “Minions & monstros” , de Pierre Coffin, que estreia no circuito brasileiro em 1º de julho.
— Espero que várias gerações cresçam com o La Cité. Gostaria que ele se tornasse uma referência global, um lugar onde os profissionais venham não apenas para celebrar obras e artistas, mas também para refletir sobre o futuro do cinema de animação e apoiar novos talentos — acrescenta Marin.
Museu permanente
O complexo é administrado pela Citia, a Cidade das Imagens em Movimento de Annecy, instituição pública francesa de apoio às indústrias criativas, responsável também pela administração do festival e de seu mercado, a Mifa.
No centro do projeto é um museu permanente de 450 m² dedicado à história e às técnicas de animação. Em seu ano inaugural, o La Cité apresenta duas grandes exposições dedicadas aos estúdios considerados fundamentais para a linguagem: "Ankama, do esboço à obra épica, 25 anos de criações" , que revisita a trajetória do estúdio francês, e uma mostra do americano Laika, com previsão de seu próximo lançamento, "O bosque selvagem" , longa-metragem de Travis Knight.
Knight participa de eventos do Festival de Annecy, cuja programação também inclui o novo desenho animado do brasileiro Otto Guerra, "O filho da puta" , codirigido por Tania Anaya, Erica Maradona e Sávio Leite.
— Essas duas exposições são um exemplo do diálogo que existe entre o La Cité e o festival de animação. Elas destacam universos diferentes e técnicas de animação únicas. Foi importante acolher essa diversidade no nosso evento de apresentação — diz Peggy Zeigman-Lecarme, diretora de cultura da Cidade e curadora das atividades da cidade da animação.
Peggy Zeigman-Lecarme detalhou o projeto, comentou a proposta de residência artística e afirmou ser admiradora do trabalho do animador brasileiro Alê Abreu.
Por que Michel Ocelot foi escolhido para abrir o cinema do La Cité?
Foi algo que decidimos em conjunto com Michaël Marin, que também é diretor executivo da Citia. Precisávamos de um símbolo poderoso para essa apresentação, e ter a presença de Ocelot com um filme como "Kirikou e a feiticeira" , uma maravilhosa fábula de fraternidade, humanismo e paz, para uma plateia formada por crianças, era exatamente o que gostava de compartilhar como missão do La Cité: destacar a animação como arte e abrir a diferentes públicos. Abrir um espaço cultural neste momento não é algo fácil, especialmente um lugar onde se pode fazer perguntas, mas também descansar, desligar-se e se reconectar com as artes.
O La Cité dedicou as duas primeiras visitas aos estúdios com filmes no festival. Esse diálogo será permanente?
Como o La Cité se baseia no mesmo DNA do festival, é natural que haja esse diálogo, mas tentamos montar nossa programação de forma independente. Até porque o festival dura apenas uma semana, e precisamos manter uma agenda para o ano inteiro. Além disso, o festival é dedicado a estudantes e profissionais da indústria de animação. Sim, há ecos entre uma atividade e outra, mas temos consciência de que precisamos desenvolver ações para um público diferente, mais abrangente e atraente a todos os tipos de pessoas. O Museu do Cinema de Animação pode ganhar algumas peças inéditas, mas é uma exposição permanente.
E a artística?
Nossa ideia é convidar até quatro artistas ao mesmo tempo para ocupar uma vila dentro do parque do La Cité, o que nos permite desenvolver diferentes tipos de residência. No ano passado, o próprio Michaël Marin anunciou uma residência voltada para diretoras femininas, como forma de ajudar-las a romper barreiras que ainda enfrentam. Estamos procurando parceiros para os diferentes modelos de residência e esperamos que a primeira aconteça em 2027.
Uma de suas funções é acompanhar a situação da animação no mundo. Como está o momento atual?
Os últimos três anos foram muito difíceis para a animação em geral, especialmente em termos de financiamento de projetos. Mas o que posso dizer é que, apesar de todas as dificuldades, ainda há muita criatividade, muitos artistas com algo a dizer e muitos filmes maravilhosos. Temos até dificuldade para escolher os filmes da programação do festival.
Estamos falando, novamente, de economia da arte, mas o que fazemos tem significado também em termos de responsabilidade. Por isso nosso cuidado com o trabalho de educação sobre filmes, porque há uma crise da imagem em geral. Desde a invenção do cinema, em 1895, até alguns anos atrás, o cinema era uma linguagem poderosa. Agora vemos uma queda de qualidade e importância, com muitas imagens sem significado, que não acompanham algo bonito. Sim, há uma crise na indústria, basicamente financeira, em particular no setor de animação, mas não há uma crise de artistas.
O que você sabe sobre a animação brasileira?
Não sou uma grande conhecedora da produção de animação brasileira. Mas sou fã do trabalho de Alê Abreu, autor de "O menino e o mundo" , que concorreu ao Oscar da categoria em 2016. Sei que ele está ocupado com um novo projeto, e mal posso esperar para reconhecê-lo. Isso mostra o quanto ainda tenho a aprender sobre o que vocês fazem em termos de animação.
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