Curiosidades

Livros da semana reúnem cultura carioca, Kafka e crítica a Oksana Zabuzhko

Flor Castilhos analisa 'Pesquisa de campo sobre o sexo ucraniano', obra atual e ousada da escritora ucraniana

Agência O Globo - 23/06/2026
Livros da semana reúnem cultura carioca, Kafka e crítica a Oksana Zabuzhko
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Olá, queridos visitantes!

Entre os destaques literários desta semana estão um ensaio sobre as marcas que a literatura deixa na vida, uma coletânea de poemas construídos a partir de comentários retirados da internet, crônicas que percorrem o samba, o futebol e a história do Rio de Janeiro, além de uma nova edição de “A metamorfose” , de Franz Kafka, e mais uma investigação do inspetor Sopa pelos cenários cariocas.

Na crítica da jornalista Flor Castilhos , o livro “Pesquisa de campo sobre o sexo ucraniano” encontra equilíbrio entre os temas densos que abordam e uma escrita leve, atravessada por um toque de comicidade. Embora tenha sido lançado no Brasil em 2023, Castilhos define a obra como “atual e ousada” .

Boa leitura!

CRÍTICA: “Pesquisa de campo sobre o sexo ucraniano”, de Oksana Zabuzhko

Editora: Carambaia. Páginas: 176. Preço: R$ 99,90. | Cotação: Ótimo.

Em uma pesquisa tradicional, de caráter científico, o pesquisador busca certo distanciamento ao analisar aspectos, culturas e comportamentos de determinados locais. Não é o que acontece em “Pesquisa de campo sobre o sexo ucraniano” , romance de estreia de Oksana Zabuzhko. O livro parte da experiência íntima de uma relação conjugal para tratar de temas coletivos, como gênero, sexualidade e geopolítica. O resultado é um convite a um território peculiar, onde uma poesia invade a prosa, o corpo reflete a história de uma nação e a pesquisadora se funda ao objeto de pesquisa.

A obra é transgressora ao mostrar como a sexualidade, o desejo e as desigualdades entre homens e mulheres têm relação direta não apenas com o cenário político, artístico e cultural de um país, mas também com sintomas físicos e psicológicos na saúde de seus cidadãos.

A trama se inicia com um fluxo de pensamentos da narradora-personagem Oksana, após o término de um relacionamento conturbado de nove meses com o escultor Mikola. Ambos são ucranianos e vivem nos Estados Unidos. A escolha de um personagem homônimo sugere uma jornada de autoficção, uma vez que um autor — assim como um personagem — deixou a Ucrânia por um período para atuar como bolsista e escritora residente nas universidades de Penn State, Harvard e Pittsburgh.

Oksana se revela uma personagem carismática ao expor fragilidades, ressentimentos e controvérsias de forma sarcástica e radicalmente humana. Ela é longa da heroína feminina padronizada comumente escrita por homens. Por isso, conquistou uma legião de fãs que, segundo relatos da autora em epílogo escrito para esta edição brasileira, sentiram-se vistas, reconhecidas e até mesmo salvas pela leitura do livro.

Alternância de vozes

O texto é ácido, irônico e ininterrupto — não há separação em capítulos. A linguagem leve e simples contrasta com a dureza dos fatos apresentados, oferecendo uma comicidade indigesta a uma narrativa que, a depender do momento, se assemelha a um monólogo teatral, a uma sessão de análise ou a uma palestra no estilo TED Talk.

Outro aspecto relevante é a alternância de vozes narrativas. A personagem fala de si em primeira e terceira pessoa, intercala relatos com poemas e frequentemente dialoga com um suposto público, ao qual se refere como "senhoras e senhores" .

A conservação de muitos termos em seus idiomas originais no corpo do texto, com tradução em nota de rodapé, também se mostra uma escolha interessante, uma vez que a paixão pela linguagem e as diferenças culturais entre os países são pontos nevrálgicos do romance.

Não à toa, o elo com Mikola é tão importante. Poeta, escritora e apaixonada pelas palavras, Oksana sente falta da sonoridade de sua língua nativa e acaba embarcando em um relacionamento que transcende a identidade individual e se transforma em uma experiência nacional compartilhada. O trauma da separação de Mikola também expõe os traumas de estar distante de seu país — experiência igualmente violenta e dolorosa, mas que, ainda assim, carrega amor.

“(...) a pátria não é simplesmente onde você nasceu, a pátria de verdade é a terra que consegue matar você — mesmo à distância, tal qual uma mãe, que lenta e inexoravelmente mata o filho adulto com sua presença coercitiva, mantendo-o sempre ao seu lado, cerceando qualquer iniciativa ou plano da sua parte.”

Lançado na Ucrânia em 1996, o romance impulsionou mundialmente a carreira de Zabuzhko, eleita uma das cem mulheres mais importantes do mundo pela BBC em 2023. Ainda atual e ousado, não apenas na Ucrânia, mas também nos mais de 20 países em que foi publicado, tornou-se uma obra de referência, sobretudo entre mulheres que, independentemente de seu lugar de origem, lutam diariamente contra a colonização de seus corpos e pesquisam novas formas de resistência e autonomia.