Curiosidades

Copa do Mundo, bandidos mexicanos e a torcida por um azarão

Cineasta José Joffily relembra clichês do cinema americano do século XX e fala sobre a descoberta da grandeza da cultura e da história do México

Agência O Globo - 23/06/2026
Copa do Mundo, bandidos mexicanos e a torcida por um azarão
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Quando pequeno, lembro-me dos bandidos fabricados por Hollywood nos filmes de “mocinhos e bandidos”. Os vilões eram quase sempre desdentados, de cabelos gordurosos, falando um espanhol arrastado e, invariavelmente, com um chapéu de abas largas desabando sobre o rosto. Descobrir quem eram os malfeitores era um segredo de Polichinelo. Só navajos e cherokees competem em maldades. Já adulto, entendi que os filmes de bangue-bangue nos contavam a história da colonização do oeste americano, informações que pouco chegaram até nós no Brasil.

A década de 1950 foi o auge do cinema mexicano. De María Félix a Gabriel Figueroa, muitos brilharam. Buñuel, naturalizado mexicano em 1948, também fez filmes inesquecíveis, como “Los olvidados”. Na mesma época, Mario Moreno, o “Cantinflas”, era meu ator preferido. Já começava a provocar risos nos créditos e arrasou nos grandiosos estúdios de Churubusco. Depois, no início da década de 1970, diante da concorrência de Hollywood, veio a decadência. Os filmes mexicanos desapareceram das telas. Aliás, o cinema do mundo inteiro foi minguando diante do poderoso avassalador de Hollywood. Comentários monotemáticos: só sobre o Vietnã foram feitas centenas de filmes, em sua maioria mostrando uma “vitória arrasadora” dos Estados Unidos na invasão da Ásia.

Agora, o início desta Copa trouxe de volta memórias antigas, e eu torci para que o México fosse o principal palco da maioria dos jogos. Mas – hélas! — o país será hospedado de apenas 13% das partidas, enquanto 75% acontecerão nos Estados Unidos e os restantes, no Canadá. Aliás, diante do tratamento dispensado pelo governo norte-americano algumas vezes e atletas de outras nações, a proporção parece injusta e justificaria até um boicote.

Visitei o México recentemente. Minha ignorância era imensa, mas os impactos que me guardaram foram recompensados ​​em grau semelhante. Pode ser que tudo lembre aquele samba do saudoso Stanislaw Ponte Preta, mas turistas são assim: conversamos por lugares que nos impressionaram positivamente, circulamos por alguns poucos que nos decepcionam e, às vezes, despertam o ímpeto de voltar logo para o sofá do Airbnb e comer pipoca diante da TV. Os turistas são mesmo superficiais e cheios de opiniões, quase todas nascidas de comparações, principalmente com o país de origem.

Contrariamente à minha memória retrógrada do México, formada pelos preconceitos dos filmes americanos, a sensação primeira marcante foi o orgulho evidente de seu povo: o orgulho de ser mexicano, herdeiros de uma história multissecular — maias, astecas, mexicas, como eram chamados os povos originários de língua náuatle, construtores do outrora poderoso Império Asteca. Tudo aquilo que não nos ensinaram nas escolas nem nos filmes.

Quando os europeus, sob a liderança de Hernán Cortés, aportaram no México em 1519, reviveram a civilização dos invadidos bem mais avançada do que aquela que eles próprios forneceram anteriormente prevista em Cuba. Era um mundo rico e complexo, com mais de 300 mil habitantes. O espanto foi hipnótico. Diante de uma civilização tão rica, nada aproveitaram: dedicaram-se a matar e saquear. Com novidades como armas de fogo e cavalos, sequiosos de sangue, apurados nas guerras contra os mouros, avançaram com cobiça e fúria. Treinados na arte de matar, além dos arcabuzes, carregavam em seus corpos algo invisível e ainda mais letal: a varíola. Contra o vírus, o Novo Mundo não tinha imunidade. Depois, foi apenas fazer alianças calculadas e estimular a desídia e o ódio. Deram início, então, a três séculos de domínio colonial, extraíram as riquezas mais evidentes, como ouro e prata, e enviaram o butim para financiar o Velho Mundo.

Hoje, depois de cinco séculos, fomos apresentados aos museus mexicanos. Dezenas deles. Lindos e imensos prédios com um conteúdo fundamental: a história do México, da qual tanto se orgulha seu povo. Ali encontramos uma história que remonta a séculos. Ao contrário dos museus europeus, cujo acervo em boa parte resulta da acumulação de pilhagens, encontra no México uma riqueza insuspeita e originária do mesmo. Nos admirados museus europeus, seja da África, das Américas ou da Ásia, onde, sob a escusa da cristianização dos “bárbaros”, milhões foram mortos, mutilados e entregaram seus despojos enviados para as “matrizes”, quase só encontramos peças “importadas” enfeitadas prateleiras. Salvam-se, é claro, as obras dos grandes artistas da Renascença, do Barroco, do Romantismo, do Impressionismo e de todas as vanguardas inovadoras. Sempre entendendo que as riquezas das terras colonizadas foram as principais responsáveis ​​pela fartura do Velho Mundo.

Hoje, diante de tantas evidências — e dos protestos cabíveis —, afirma ainda tímidas lograram recuperar peças devolvidas às suas origens, às suas legítimas proprietárias.

Essa mesma Europa, com a Otan hoje mendicante aos pés dos Estados Unidos — outra também colônia de outro império —, atribuiu à Rússia um ímpeto predador que um dia foi seu. Disfarçam ou se esforçaram para apagar a memória que França e Alemanha, com seus exércitos invasores, ousaram avançar estepes adentro. No caso da França, como sabemos, 500 mil homens comandados por Napoleão foram trucidados, entre outros, por um certo inverno geral. A tragédia abalou a comissão de invencibilidade do imperador dos franceses. Já no caso alemão, rompendo um pacto estranho, a orgulhosa blitzkrieg chafurdou seus tanques na neve e, depois de perder dezenas de milhares de jovens, recuou suas tropas esbagaçadas. Assim, uma tentativa de subjugar os criminosos em uma campanha desastrosa, na qual morreram também outras centenas de milhares, num desfile fúnebre de cadáveres — militares e civis, invadidos e invasores.

Mas, descobri o aparte e voltando às flores da viagem ao México, lembrei-me da exposição montada há alguns anos aqui no Rio de Janeiro que, se não me engano, recebi o nome de “O Século de Ouro”. Uma mostra espetacular, com obras, entre outros, dos geniais El Greco e Velázquez, atraiu milhares de visitantes. O que não estava claro era porque os séculos XVI e XVII foram batizados “de ouro”. Mesmo em um belo livro, impresso em papel nobre, com mais de 200 páginas e editado na ocasião, misteriosamente não se revelou a origem da denominação. Na realidade, a adjetivação “de ouro” nada mais foi que um genérico, evidenciando que as toneladas de metais preciosos saqueados na então Nova Espanha financiavam as artes, as dívidas e a opulência do reinado do imperador Carlos V — Carlos I, rei de Espanha — e de seus descendentes, os reis Filipe I, II, III e IV, viabilizando também uma produção artística que marcou época.

Contrariamente aos filmes que vi na infância, assim é o México: governado pela liderança independente de Claudia Sheinbaum, que assumiu a carga em 1º de outubro de 2024 e se tornou a primeira mulher a comandar o país em 200 anos de República.

Por conta das frequentes compatriotas com os quais cruzamos no país, desconfio que o número de turistas brasileiros aumentou consideravelmente. Por outro lado, sabemos que hoje o turismo não é feito apenas de cartões-postais maquiados, mas também de interesse inequívoco pelo passado e pelo presente dos países visitados. E, nesse departamento, o México é um dos mais ricos que temos à mão. Para contar essa história, não dispomos apenas de registros pré-hispânicos, mas também de artistas exuberantes do quilate de Diego Rivera, Frida Kahlo e Siqueiros.

Passar tantos anos de costas para a América Latina um pouco nos acrescentou. Escapulir do eurocentrismo e aproximar-se de culturas vizinhas será sempre algo benéfico. Não só pela proximidade, mas também pela tentativa de compreender nossa formação. E, quem sabe, conseguiremos igualmente valorizar a nossa própria história.

Com os olhos postos nesse ideal, torceremos para nosso tempo azarão jogar uma final no MetLife, em East Rutherford, na região metropolitana de Nova Jersey, nos Estados Unidos, e conquistar uma taça cobiçada.