Curiosidades

Claudia Raia às vésperas dos 60: 'Estou começando meu segundo ato, ainda tenho um grand finale'

Prestes a estrear com musical, série, filme e reality, atriz, que vive expansão da carreira e se tornou símbolo da nova maturidade feminina, fala de projetos, filhos, amores e política em entrevista ao videocast 'Conversa vai, conversa vem'

Agência O Globo - 23/06/2026
Claudia Raia às vésperas dos 60: 'Estou começando meu segundo ato, ainda tenho um grand finale'
Claudia Raia

Claudia Raia chega aos 60 anos, em dezembro, como representante de uma geração que vem mudando a cara do envelhecimento feminino no Brasil. E como alguém que pratica o discurso de que uma mulher 50+ pode tudo.

A atriz, bailarina, produtora, empresária está no auge da vida produtiva, gerou um filho aos 55 anos, segue sendo aquele avião que a gente conhece e sonhando sempre. É ele, o sonho — e muita malhação, diga-se — que a faz sentir-se com “mentalidade de 15 e físico de 35”.

Nesse espírito que volta aos palcos com o musical “Tarsila: a brasileira” no Theatro Municipal do Rio, de 31 de julho a 2 de agosto, encarna uma agiota na série “Fúria” (29 de julho) e apresenta o reality “Sua mãe você conhece?” (sem previsão de dados), ambos na Netflix.

Ainda vai rodar filme produzido pelo filho Enzo. Claudia participou do videocast “”, que vai ao ar hoje, 18h, no Youtube e no Spotify. A seguir, um trecho da entrevista.

Já se sente com 60 anos?

Jamais! Tenho 15 de mentalidade e 35 fisicamente. Vou fazer 60 anos, e está tudo bem. Só que o que acontece dentro de mim é um turbilhão de coisas maravilhosas. Estou preocupado. Sonho a longo prazo. Embutem na nossa cabeça que acolhe ter sonhos micha, que não dá mais tempo, que a roupa não é mais adequada pra a idade. Quem falou? Tô começando o meu segundo ato, ainda tenho um grand finale. Quero morrer no palco, representando. Espetáculo de morte!

Em vez de desacelerar, segue em expansão profissional e experimentando...

É tão boa essa inquietação, mas agora ela é madura. Não quero mais ser multi, mas inteira no que faço. Esse é um momento único na minha vida, de maior criatividade. Tenho um espetáculo que amo e é difícil para mim como atriz, uma turnê por seis capitais, 74 pessoas, um Cadilac em cena, um absurdo de produção!

'É difícil ser mãe de adulto. Eles querem a tua opinião, mas ela já não vale tanto'

O que aprendeu fazendo a realidade sobre maternidade?"

Sai transformado. Fui vendo relações adoecidas, simbióticas se transformarem na minha cara. São mães observando os filhos sem eles saberem. A gente não conhece os filhos. Isso me pegou. Vão se transformar em outra pessoa sem que você perceba. Sai direto para uma conversa com meus filhos para rever coisas. Percebi que poderia melhorar na escuta. É difícil ser mãe de adulto. Eles querem a tua opinião, mas ela já não vale tanto. Estou em fase de aperfeiçoamento. Acreditei a vida inteira na perfeição absoluta, sou bailarina, fui criada com disciplina absurda. Minha mãe taurina...

Ela foi muito dura com você?

Muito! Não podia um fio de cabelo fora do lugar, uma meia desfiada. Vim nessa perfeição e me frustrando. Esse sarrafo nunca será realizado. Quando a maturidade chegou, eu disse: “Calma”. Não tenho preguiça de melhorar. Vou fazer 60 e estou borbulhante de desejos. Já combinei com Deus: quero chegar aos 120 anos. O Luca (caçula de seus três filhos) está com 3 anos.

Débora Colker.

Luana Piovani. '

Qual foi o maior ensino da sua mãe?

Que o sucesso não existe. O que faz carreira é o trabalho. Isso ficou tão em mim que quase não curtia, não comemorou o sucesso. No início da carreira, um dia fui à banca de jornal e era capa de todas as revistas. Minha mãe: “Isso não tem a menor importância, vamos trabalhar”. Ela me deixou com os pés no chão. Fiz sucesso cedo, o caldo poderia ter sido desandado. Só não desandou porque tive essa mãe.

Mas você mesmo eleva o sarrafo. A gente te olha e pensa: ela não para, é mãe de três, gata. É bom também não romantizar tanto trabalho, né? É uma luta dizer a si mesma que, às vezes, não damos conta e tudo bem?

A maturidade me deu isso, mas foi meia hora atrás (risos). Eu entendo que não quero um esgotamento. Como produtora, construída doida. Falava: “Por que isso não deu?”. Agora, é “o que deu”. Acho que sou uma mulher de vanguarda. Trouxe os musicais, estávamos criando público, formando equipe, falo da menopausa há 15 anos, quando ninguém tocava no assunto.

'Foi Jarbas quem descobriu que eu estava na menopausa'

Até transformou o tema em peça com seu marido, Jarbas Homem de Mello, trazendo homens para o debate...

Foi ele quem descobriu que eu estava na menopausa. Ele falou: "Amor, você não é essa pessoa triste, sem paciência. Será que pode ser a menopausa?". Meus filhos pediram a ele: “Faz alguma coisa que ninguém aguenta mais ela”. São muitos lutos. Você fala: acabou para mim. Mas não. Sou embaixadora do Instituto Menopausa Feliz, e estamos lutando para fazer a reposição hormonal no SUS. Não é possível viver sem isso.

Você virou farol de um novo envelhecimento feminino...

Sim! Trouxe a mulher Nolt (New Older Living Trend), que não está fora do jogo, mas no game e na sua melhor versão. O patriarcado nos embutiu na cabeça que, depois dos 40, a gente não valia mais nada, não servia. Acbou uma fase reprodutiva, mas não produtiva? Essa é uma diferença. Ninguém está querendo ter 20 ou 30? Sou uma mulher de 59 feliz com o meu corpo, minha saúde. Tive gravidez tardia. Foi difícil voltar. Mas fui gentil comigo.

Bruno Gagliasso.

Do arrependimento por apoiar Collor ao voto em Lula: 'Sou esquerda'

Enfrentou preconceitos. Como as crises de pânico na gravidez vieram daí?

Em parte, sim, foram críticas, inclusive, de mulheres com mais de 50 anos. Culminaram num pequeno desequilíbrio meu. Mas já estava na menopausa, e um dos sintomas é o pânico. Não sou de uma geração que fica olhando comentários. E não acho que foi um desserviço às mulheres e, sim, uma libertação.

Que faz comparação sobre rede de apoio e nível de paciência na maternidade em diferentes momentos. Repetiu quase nada com Luca do que fez com Sofia e Enzo?

Não. Sou uma mãe muito diferente, num casamento diferente. Sinto-me quente. Mais que tudo, sou inconsequente (risos). E celebro minha inconsequência porque ela me leva para a frente. Gosto de ser insana, me dá ousadia. Minha inconsequência me deu minha carreira, o Luca e saúde mental, porque penso como uma adolescente. Sonho, planejo, compro. Gasto um dinheiro que talvez não precise gastar? É verdade! Mas fiz. E fazer para mim tem muito valor.

São 43 anos de uma trajetória encorpada e que teve uma virada com o “TV Pirata”, né?

Completamente. Saí do “Viva o gordo” para “Roque Santeiro” após uma decisão. Era a gostosa andando pra lá e pra cá de biquíni porque era assim que funcionava um programa de humor. Chegava antes para ver os comediantes, queria aprender. Aí, pensei: “Quero ser uma atriz representando até os 100 anos ou um sex symbol que acaba aos 30?”. E decidi ir usando a beleza e o sexappeal até mostrar que poderia ser uma atriz. E que um comediante não precisa ser feia. Porque tinha isso: ser bonita, engraçada e inteligente era demais...

Mas não te quis como o icônico Tonhão, que te mostrou ao público completamente diferente.

Ninguém me queria no “TV Pirata”. Nem eu nem o Ney Latorraca. Porque viemos da dramaturgia e não éramos comediantes. Boni foi lá e disse que queria a gente no elenco. Quando apareceram as presidiárias, pedi ao Guel Arraes: “Quero fazer Tonhão, a sapatona”. E ele: “Mas você é um símbolo sexual”. Justamente por isso! Sempre estive inquieta. De tanto insistir, ele deixou e, aí, foi minha grande virada.

'Vendo de fralda de bebê a fralda geriátrica, de leite de criança a suplemento pra 50+'

No ano passado, assinei 40 contratos de publicidade. Faria propaganda de aposta?

De jeito nenhum! Não acredito em ganhar dinheiro com a desgraça dos outros. Sempre fiz muita publicidade, mas hoje é espetacular. Vendo fralda de bebê a fralda geriátrica, de leite de criança a suplemento pra 50+.

'Sempre fui um pouquinho exagerada na minha libido, sou 'transarina', bailarina que transa'

Um mundo novo... Se antes, a mulher de 60 era senhorinha, hoje está transando....

E muito melhor, num sexo de qualidade, sabendo pedir o que quer. Sempre fui um pouquinho exagerada na minha libido, sou 'transarina', bailarina que transa (risos). Na menopausa, perdi um pouco, então, dei uma equilíbrio. O que foi um impacto enorme, falei: “Quem é essa pessoa?”.

'Votei no Lula, me posiciono. À esquerda. Só não quero fazer da minha vida um palanque'

Tem arrependimento por ter apoiado Collor em 1989?

Ah, tem... Acho que todo mundo tem. Nunca deixei de me posicionar politicamente. Voto, escolho, vou atrás de informações. Mas meu ato político é a minha arte. Meu brilho não tá no palanque. Percebi isso logo que passei pelo que passei com Collor. Mas eu votei no Lula, me posiciono. À esquerda. Só não quero fazer da minha vida um palanque.

"'É verdade que você é HIV positivo?', me perguntou um jornalista"

Foi nessa época que inventaram o terrível barco de você tinha HIV...

Fui capa da “Isto É” com meu exame de HIV na mão provando que não tinha AIDS. Meu teatro ficou vazio porque não queria se aproximar. Minhas contas foram reviradas, meus carros, quebrados. Foram tempos muito difíceis. Não só eu errei, como quase o Brasil inteiro errou. A gente erra. Fazer o quê?

Acredita que essa fake news teve sucesso por causa do seu apoio ao Collor?

Não. Foi por causa de um comentário que o secretário de saúde de São Paulo da época fez sobre a magreza do Collor. Por estar magro, estava com HIV. Como inventaram que eu era amante dele... Cheguei num evento com o Alexandre, a gente estava num 'volta e separa', e o jornalista falou pra mim: “É verdade que você é HIV positivo?”. Quase desmaiei. Fiquei pensando se tinha feito algum exame de sangue na GLOBO e o resultado tinha saído e vazado... Fui pra casa desesperada, liguei para o diretor de um laboratório e disse: “Pelo amor de Deus, preciso que faça um exame em mim, estão dizendo que eu estou doente?”. E eu sem saber de nada que esse secretário tinha falado... Olha, uma loucura!

Vamos terminar com coisa boa: são 16 anos com Jarbas, o amor maduro é um presente?

Total. É leve, fácil, divertido, puro. A gente se livra fantasmas desses todos, ciúmes, isso e aquilo. Passa a entender a essência da vida, que é o verdadeiro amor, que é o que vivo com Jarbas dentro e fora de cena.