Curiosidades

Centenário de Vivian Maier consolida revolução na fotografia e valoriza arquivos esquecidos

Descoberta em 2007, após décadas de anonimato, obra da fotógrafa americana ganha exposições em Portugal e na China

Agência O Globo - 21/06/2026
Centenário de Vivian Maier consolida revolução na fotografia e valoriza arquivos esquecidos
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

O centenário de nascimento de Vivian Maier celebra não apenas um dos maiores artistas do século XX, mas também um verdadeiro abalo no mundo da fotografia. Durante toda a vida, a americana produziu no mais absoluto anonimato. Trabalhando como babá para se sustentar, nunca expôs nem publicou suas imagens, que capturavam, com sensibilidade rara, o cotidiano urbano de cidades como Chicago e Nova York.

Memória reencontrada

Foi necessário um desses golpes do acaso para que esse legado viesse à tona. Em 2007, dois anos antes da morte do artista, milhares de negativos e fotografias guardadas em um depósito inadimplente foram vendidas em um leilão de bairro em Chicago. Entre os compradores estava o colecionador John Maloof, que recebeu imediatamente o valor desse acervo.

Da noite para o dia, Vivian passou da invisibilidade ao panteão da chamada fotografia de rua, ao lado de nomes como Robert Doisneau e Henri Cartier-Bresson. Pela qualidade estética e pelo caráter enigmático, sua obra continua fascinando o público, como comprovam as diversas mostras realizadas em torno da efeméride.

Diretora da diChroma Photography, a francesa Anne Morin assina a curadoria de duas exposições atualmente em cartaz: “Unseen Work” , na galeria Fotografiska Shanghai, na China; e “Vivian Maier — Antologia” , no Centro Português de Fotografia, no Porto, em Portugal. A primeira reúne imagens raras; a segunda apresenta alguns de seus trabalhos mais conhecidos e produções menos difundidas, como sua fase em núcleos.

— A aparência de Vivian Maier foi uma revolução — afirma Morin, em entrevista por telefone. — Não existem muitos fotógrafos amadores que tenham entrado para a história dessa forma. Com isso, ela reacendeu o sonho de numerosos fotógrafos e criadores anônimos.

Morin foi fundamental na organização do acervo da americana desde seu primeiro contato com a obra, em 2010. Ela lembra que as contribuições de um legado são tão recentes e inesperadas envolvendo desafios. Primeiro, foi preciso comprovar a modesta descoberta, que parecia boa demais para ser verdade. Depois, superou a romantização excessiva do público e da crítica, que muitas vezes ocupava mais espaço do que o talento do artista.

— Vivian pode ser considerada “amadora” apenas no sentido formal da palavra, porque tinha todas as qualidades de uma fotografia profissional — observa Morin. — Suas primeiras fotografias já são tão fortes quanto as que produziram décadas depois. Desde o início, ela tinha um olhar muito bem construído. Não foi uma fotografia que aprendeu fazendo.

Vivian chega ao centenário sem precisar de “nenhuma lenda para ser validada”, como ressalta Morin. Ainda assim, é difícil dissociar o artista do mistério que está por perto. Nascida em Nova York, ela dividiu a infância entre os Estados Unidos e a França antes de se estabelecer definitivamente em Chicago, onde trabalhou durante décadas como babá. Nos últimos anos de vida, enfrentamos dificuldades financeiras, parou de revelar os próprios filmes.

Precursora do 'selfie'

Com uma Rolleiflex — e, mais tarde, uma Leica — suspensa no pescoço, Vivian caminhava pelas ruas encontrando magia e ironia nos acontecimentos mais banais: brincadeiras de crianças, ternuras de casais, esforço de trabalhadores. Seus autores retratados em espelhos, vitrines e sombras, hoje entre suas imagens mais famosas, misturam-se à paisagem urbana e antecipam uma era obcecada pela autoimagem.

— Muitos jovens veem nela uma espécie de precursora da cultura do selfie — diz Morin. — Mas sua principal contribuição foi outra: ela nos ensinou que a beleza não é cotidiana. Durante décadas, a fotografia valorizou a ideia de viajar para lugares distantes em busca do extraordinário. Vivian Maier mostrou que o extraordinário pode estar na esquina. Ela nos ensinou o olhar melhor para aquilo que está diante dos nossos olhos.

Coordenador de Fotografia do Instituto Moreira Salles (IMS) e cocurador do Portal Brasiliana Fotográfica, Sergio Burgi identifica em Vivian Maier uma conexão com aspectos contemporâneos da fotografia. Hoje, milhões de pessoas têm uma câmera no celular e registram compulsivamente instantes do cotidiano. A construção do olhar, contudo, é o que diferencia cada um desses potenciais artistas, amadores ou não.

— O acervo de Vivian se parece menos com um diário de acontecimentos e mais com um diálogo consigo mesmo — avalia Burgi. — Ela fotografou uma relação com o mundo, mas aquele processo também era uma forma de reflexão pessoal, um grau de experimentação construído ao longo do tempo.

As lacunas deixadas por Vivian Maier inspiraram artistas até mesmo fora do campo da fotografia. Em 2024, um romance neo-noir com protagonista livremente baseada na artista imaginou outras trajetórias possíveis para ela. Mais do que uma fonte de mistérios, Nóbrega enxerga na postura de Vivian uma referência para outros criadores.

— Vivian marca de modo radical as razões de ser da arte e do artista: a curiosidade, a imaginação e a solidariedade — afirma Nóbrega. — Sua busca pelo anonimato e o lento desenvolvimento da sua identidade através do seu olhar são perguntas sem respostas. Quanto mais suas imagens nos tornam íntimos dela, mais inexplicável se torna a distância entre nós.

À margem do circuito

O efeito Vivian Maier ampliou o interesse por arquivos produzidos à margem dos circuitos institucionais. Sua descoberta ajudou a transformar a maneira como curadores, pesquisadores e instituições observam acervos esquecidos. Como lembra Sergio Burgi, conjuntos de negativos, contatos e fotografias não publicadas anteriormente a serem tratadas como potenciais obras autorais, e não apenas como matérias-primas isoladas.

Nas últimas duas décadas, coleções de anônimos negativos, álbuns de família e fotografias vernaculares garimpadas em mercados de pulga passaram a receber uma atenção antes reservada a nomes consagrados da fotografia. Projetos como o Beijing Silvermine, do colecionador francês Thomas Sauvin, fazem sucesso nas redes ao reunir negativos descartados em Pequim.

No Brasil, o pesquisador Cosme desenvolve trabalho semelhante. Investigando fotos e negativos em feiras de rua do Rio de Janeiro, ele encontra olhares surpreendentes — e, por muito tempo, ignorados. Atualmente em cartaz no Teatro Municipal do Rio, a exposição “O Passado é um Ponto de Luz” reúne algumas de suas descobertas mais representativas, em uma viagem pela vida íntima de bairros como Penha, Vaz Lobo e Copacabana.

A coleção revela reuniões familiares, bastidores de trabalho, festas comunitárias, flagrantes de boemia e outras imagens de autoria anônima, que não foram originalmente produzidas para figurar em museus.

— Tenho percebido uma abertura cada vez maior das instituições para esses arquivos, que durante muito tempo permaneceram à margem — diz Cosme. — Existe uma revisão sobre o que pode ser considerado patrimônio visual de uma cidade. Não são apenas imagens produzidas por grandes fotógrafos ou por veículos de imprensa.

Para Cosme, esse movimento ajuda a ampliar a própria compreensão da vida urbana:

— O Rio possui uma iconografia muito forte, construída por paisagens desconhecidas e grandes acontecimentos que se repetem ao longo do tempo. O que esses arquivos fazem é deslocar o olhar, escancarar uma cidade construída sobretudo nos encontros, nas ruas, nos romances, na intimidade e em momentos que normalmente não entram na narrativa oficial.

Anne Morin acredita que o caso Vivian Maier deixou uma lição para pesquisadores, curadores e fotógrafos:

— Tenho certeza de que existem outras Vivian Maiers adoradas nos arquivos da história. Precisamos tratá-las com tempo, paciência e respeito.