Curiosidades
Escafandristas celebram Chico Buarque em álbum de 15 faixas com novos arranjos
Quarteto formado por Alice Passos, Luisa Lacerda, Renato Frazão e Thiago Amud se apresenta nesta quinta-feira (18), véspera dos 82 anos do compositor
Alice Passos tinha 9 anos quando ouviu, pela primeira vez, “Choro bandido”, canção de Edu Lobo e Chico Buarque.
— Eu me lembro de ter ficado chocada com o verso “Saiba que os poetas podem ver na escuridão”. Pensei: “Uooou!”. Daí foi Chico Buarque para sempre — conta ela, hoje com 35 anos.
Em 2024, com a proximidade do aniversário de Chico — que completa 82 anos nesta sexta-feira (19) —, Alice decidiu homenageá-lo. Reservou duas datas na Casa do Choro, no Rio de Janeiro, em outubro, e convidou três artistas que admira para pensar em um show: Luisa Lacerda, Renato Frazão e Thiago Amud. Por sugestão de Amud, o quarteto adotou o nome Escafandristas, palavra retirada da letra de “Futuros amantes”.
A experiência resultou no álbum “Escafandristas cantam Buarque” (Biscoito Fino), que chega às plataformas nesta quinta-feira (18), data em que o grupo se apresenta no Teatro TotalEnergies, na Glória, Zona Sul do Rio, às 20h — com ingressos esgotados — e às 22h.
O trabalho reúne 15 músicas, além de algumas citações, em versões que se distanciam dos registros mais conhecidos. A instrumentação inclui violões, baixo, flauta em três faixas e percussões sutis. Alice resume a proposta:
— Nenhum de nós queria reproduzir o que já foi feito.
Luisa, de 34 anos, diz que ouve Chico Buarque desde criança, mas que a relação se tornou mais intensa aos 11 anos, quando levou o CD “Construção” para escutar no quarto. “Chico Buarque é o cara”, pensou. A devoção permanece, mas com liberdades que, em sua avaliação, dão originalidade ao projeto dos Escafandristas.
— Não temos muito medo de mexer na obra do Chico. Acho que ele já foi tão bem gravado por tanta gente, por ele e por outros artistas, que tentamos fugir um pouco dos arranjos que já foram feitos. A gente se permite trazer um pouco das nossas referências para além do Chico, para criar uma sonoridade que também seja a nossa cara — afirma a cantora e violonista.
A relação de Amud, de 46 anos, com Chico começou antes mesmo de ele nascer. O pai lhe contou que, certa vez, foi acordado pela mãe, avó de Amud, com a frase: “Vem ver a coisa mais linda: um menino lindo cantando uma música linda”. Era Chico Buarque interpretando “A banda” no Festival da Record de 1966.
— Chico faz um arco amplo, que vai desde a música de banda até investigações harmônicas e poéticas das mais avançadas de que se tem notícia na canção. Dentro do limite de uma música tonal, vai até o limite — exalta o cantor, compositor e violonista, que assina a direção musical dos Escafandristas.
Amud concorda com Luisa ao destacar que promoveu mudanças no ritmo e na harmonia das canções, mas preservou as melodias. Entre os recursos usados, estão entradas vocais que se sucedem palavra por palavra — e, em alguns momentos, sílaba por sílaba.
— Ser um pouco infiel ao fonograma original talvez seja a forma ideal de ser fiel à canção. O fonograma já gerou o nosso campo imaginário. Para chegar ao cerne da canção, é preciso trair um pouco esse fonograma. Nada mais difícil do que fazer um arranjo para “Construção”. O arranjo do Rogério Duprat, de 1971, é quase uma parceria. Era preciso se desvencilhar da angústia da influência — afirma Amud, que contou com a participação de Chico em seu último álbum solo, lançado em 2025.
Frazão, de 43 anos, define a obra de Chico como uma “memória antiga”. Em sua família, as canções do compositor eram ouvidas com frequência, a ponto de o passarinho da casa se chamar Chico. Para ele, o ídolo sempre foi “um grande modelo de compositor, de artista, de postura”.
O cantor, compositor e violonista — que no grupo assumiu o baixo — destaca como ponto positivo o fato de o repertório do show e do álbum não ter partido de um recorte temático fechado.
— Não havia essa ideia de eleger o repertório a partir de um conceito. Não é o repertório ideal para nenhum dos quatro. Esse é o mérito. Ele foi o resultado da soma das vontades — diz Frazão.
Os quatro selecionaram cerca de 80 músicas e reduziram a lista até chegar a 15. Entraram canções dos anos 1960, como “Morena dos olhos d’água”, aos anos 1990, como “Sonhos sonhos são”; faixas mais conhecidas, como “Cotidiano”, e outras menos lembradas, como “Frevo diabo”, parceria com Edu Lobo; composições de teor social, como “Brejo da Cruz”, com participação do cantor Giuliano Eriston; e temas líricos, como “Futuros amantes”. Em “O que será (À flor da terra)”, Ruy Guerra lê versos de “Fado tropical”, parceria dele com Chico.
Também estão no repertório “Corrente”, “Morro Dois Irmãos”, “A ostra e o vento”, “Assentamento” e “Tempo e artista”.
Participação de Chico
Alice não queria incomodar o compositor, sabendo que ele não costuma se sentir à vontade em tributos. Ainda assim, desejava tê-lo por perto de alguma maneira. Chico acabou convencido a participar de “A volta do malandro”, estimulado pelo fato de que, no coro, estavam uma irmã, Ana de Holanda, além de filhas e netos.
— Chamar o Chico, para mim, é uma validação do trabalho. Se o artista homenageado topa participar, é o seguinte: isso foi bem feito — acredita Alice.
Foi na casa de Luisa, filha mais nova de Chico, que os Escafandristas fizeram uma apresentação para ele e a família, incluindo sua ex-mulher, Marieta Severo. Chico ficou visivelmente emocionado e disse a Alice: “Sabia que ia ser bom, mas não sabia que seria tão bom”.
Ele se emocionou ainda mais, em outro momento, ao ouvir a versão de “As minhas meninas” cantada por cinco de suas netas: Cecília, Clara, Irene, Lia e Teresa.
— Como sei que ele é muito arredio, a única coisa que pensei como homenagem seria algo afetivo, e nada mais afetivo do que família — observa Alice.
Após as apresentações desta quinta-feira, o grupo tem novos shows marcados: no Clube do Choro, em Brasília, em 9 de julho; no Acaso Cultural, em Botafogo, no Rio, em 31 de julho e 1º de agosto; e na Casa Natura Musical, em São Paulo, em 14 de agosto. A expectativa é levar o projeto a outras cidades do Brasil e também ao exterior, conciliando a agenda do quarteto com as carreiras solo de seus integrantes.
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