Curiosidades
‘Tratam-me na internet como se eu tivesse cometido um crime’, diz Rafa Kalimann
Em entrevista ao videocast ‘Conversa vai, conversa vem’, influenciadora fala sobre maternidade real, ataques nas redes, intolerância religiosa e a decisão de expor vulnerabilidades com propósito
Rafa Kalimann refletiu sobre os impactos da exposição pública, os ataques que recebe nas redes sociais e a experiência de dividir momentos íntimos da maternidade em uma série disponível no Globoplay. No programa, a influenciadora mostra, sem filtro, dores, descobertas e contradições do puerpério, em um processo que ela define como “fisicamente tranquilo e uma luta emocionalmente”.
Conhecida nacionalmente após participar do BBB, Rafa também construiu trajetória como apresentadora de programas de TV, entre eles Circuito Sertanejo, e estreia como atriz no filme inédito Minha querida Alice, do qual também assina a produção. Ela participou do videocast Conversa vai, conversa vem, exibido no YouTube e no Spotify. Leia trechos da entrevista:
O que te motivou a dividir momentos tão íntimos como o puerpério?
Me vi completamente perdida numa realidade muito diferente da que eu idealizava, de propaganda de margarina. Fui conversar, trocar, ler, aprofundar e pensei: ‘Tenho um portal com 40 milhões de pessoas, mulheres que vão passar ou passaram por isso e se sentem sozinhas. É um poder gigante e não vou fazer nada?’. Tinha sede de ser útil, encontrei um propósito.
Qual é o impacto de mostrar tanta vulnerabilidade?
Não estamos preparados para tirar a romantização da gestação. É difícil encarar que a maternidade não é só esse lugar de puro amor e luz. Queria mostrar a realidade. Nas redes sociais, a gente seleciona muito, e as pessoas não estão dispostas a ver tanta verdade.
Qual a importância de desconstruir a ideia de que damos conta de tudo?
Mais do que mostrar às pessoas, é fazer a gente mesma aceitar. Me cobrei muito. Sempre dei conta, não aprendi a pedir ajuda. Saí de casa com 14 anos para ser modelo, morei em república com 18 meninas, cada uma no seu corre. Zuza me ensinou que eu não preciso fazer tudo sozinha.
Antes de você dar certo, deu muito errado. Em São Paulo, trabalhou por um prato de comida?
Só trabalhava por um prato de comida. Achava que seria glamour puro em São Paulo, capa de revista, grandes campanhas e... cadê? Fazia evento, fui monitora no Playcenter só para lanchar. Tinha café da manhã, almoço e lanche da tarde. Ganhava R$ 40 no dia, mas estava comendo. Até que falei: ‘Preciso voltar para casa, me alimentar bem’.
Na série, você falou sobre a solidão mesmo ao lado do seu marido, o cantor sertanejo Nattan. O puerpério não é um momento de aprendizado tardio para o homem, certo?
Não é. A gente conversou muito. A decisão de colocar isso no documentário vem da sensação de que ninguém fala sobre o assunto. É uma realidade comum em pais de primeira viagem. As consequências foram drásticas na internet, sabíamos que isso podia acontecer. Mas ele falou: ‘Entendo que precisava ter visto outro pai passar por isso para conseguir ser quem eu precisava ser’. Ele não sabia, como muitos não sabem. Por falta de referência, de diálogo, de informação. Concordamos que seria um serviço para outros entenderem que não se vira pai só quando o filho nasce, mas quando o positivo chega.
É perverso porque a mulher chega a pensar: ‘Será que estou chata demais?’
Me perguntei isso muitas vezes. Nossos acordos não podiam ser os mesmos porque eu não era mais a mesma. Demorou para alinhar os pontos. Mas isso foi gravado seis meses atrás, e houve uma mudança significativa.
Você lidou com traições em outros relacionamentos. O amor com Nattan ajuda a curar feridas?
Ele acolhe meus traumas. Ainda não tinha encontrado um parceiro com escuta, capaz de olhar e falar: ‘Entendo, estou aqui para te ajudar’. Tem conflito, tem questões a serem conversadas. O segredo é a disposição de mudar, de se reajustar pelo outro. O amor tranquilo parte daí, e não da falta de conflito.
Após uma brincadeira de Nattan nas redes, foi você quem sofreu hate. Com sua filha na barriga, chegaram a dizer que você não deveria ser mãe. Como se sentiu?
Sempre acham um jeito de levar para a mulher. Sempre dizem que consigo fazer meus projetos porque um homem me deu oportunidade, que sou amante de não sei quem ou que sei o segredo de um poderoso da Globo. Sou disciplinada, faço meu trabalho com determinação. Esse é o segredo que eu sei.
Ter feito detox virtual no fim da gravidez foi libertador? Se uma influenciadora identifica nas redes um gatilho para a depressão, temos um problema, não?
Foi uma libertação gigante. Voltei sabendo o que quero consumir, nada supérfluo. E coloquei tempo de uso. A dificuldade era até onde eu deixaria que distorcessem as coisas, a necessidade de assumir a narrativa da minha vida. Não me reconheço na Rafaela que criaram na mídia. Soltam algo mentiroso, isso é replicado e vira verdade. Se você se defende, é pior, vira bola de neve. Até onde preciso me provar? A internet estava me machucando aí. O documentário veio nesse sentido de me expor, mas com propósito. Não estou mais disposta a estar tão aberta nas redes para falarem o que bem entendem.
O fato de ter sido cancelada várias vezes amortizou a dor dos ataques ou você sente da mesma forma?
Sinto da mesma forma. E também sinto quando vejo alguém sendo atacado. Não dá para medir o caráter de ninguém por um recorte.
Tenho a sensação de que não importa o que você faça, sempre será criticada. De onde vem tanto ódio?
Me faço muito essa pergunta. Não tenho resposta. O que foi que eu fiz? A maneira como me tratam na internet e diante dos projetos que trago é como se eu tivesse cometido um crime. É sem freio, sem pudor. Já tentei entender o motivo pelo qual me atacam. Estou executando o meu trabalho da maneira mais clara e honesta possível. Em algum momento, vou acolher isso e dizer: ‘Essa é a realidade, vamos trabalhar com ela’. Não gosta de mim, não vê verdade no que eu faço? Não me segue, não me vê. Se passar o dedo, o algoritmo não te entrega mais. Não quero e não pretendo agradar todo mundo. Quem sou eu? Nem Jesus fez isso.
Até quando faz trabalho social, ajudando crianças na África, você é atacada...
Quem critica é quem não levanta do sofá para fazer algo. Se fizesse, saberia que não interessa onde, como, quando: o negócio é fazer. Quem faz não vai falar: ‘Ah, ela está fazendo em Moçambique e não aqui’. Vou pela 15ª vez. São nove escolas, mais de 600 crianças. Contam comigo. Já quis parar de mostrar, só que, quando exponho, as doações aumentam. Posto tudo, o sapato que uso. Não vou postar algo que vai fazer diferença na vida de milhares de pessoas? Não quero provar nada nem justificar esse trabalho. Só tenho que continuar.
Para alguém com seu nível de exposição, o que sobra? Tem algo que não posta? Guarda algum segredo?
Com certeza. Isso até gera um conflito interno. Tenho tanta coisa legal para mostrar, para falar. O receio de distorcerem ou me atacarem me amedronta. Acabo me fechando. Na minha vida pessoal, mostro até meu limite, que é intuitivo. Se tenho dúvida, não posto. Mas, de vez em quando, ainda vai alguma coisa que não devia e falo: ‘Ih, devia ter ficado quieta’.
‘No sagrado do outro não se mexe’
Você desmentiu boatos de que teria se negado a falar a palavra ‘desgraça’ na novela Família é tudo e evitado cantar a parte de um samba-enredo que citava divindades africanas. Como a convicção religiosa influencia suas decisões profissionais?
Essa personagem falava muito ‘desgraça’. Estava em todos os diálogos. Não é uma palavra que fico falando em casa. Não gosto. Dentro da minha crença, ela não é bem-vinda. Fiz uma brincadeira nos stories dizendo que, nos ensaios, pulava a palavra, e criaram essa história sensacionalista. Não vejo problema em falar sendo na personagem. A questão da intolerância religiosa me doeu. No sagrado do outro não se mexe, se respeita. Sempre fui cristã e curiosa em aprofundar. Cresci com a vizinha me levando à Seicho-No-Ie, fui para o centro espírita muito nova. E fui ao candomblé, no Gantois. Mãe Carmem me recebeu com o maior amor do mundo. Pedi para ela me explicar o candomblé, para que eu pudesse ter minhas convicções sobre uma religião completamente diferente da minha e que já sofre muito preconceito.
O que sentiu no terreiro?
Muita paz. Mas abrir a internet e ver que, por engajamento, uma jornalista pegou 15 segundos de um vídeo em que eu estava sambando, cantando, sorrindo, posando e que, naturalmente, em algum momento, a gente para para respirar, e dizer que eu não cantei, usando isso como intolerância religiosa, é mexer com um lugar muito perigoso. Fazem isso sem se importar. Foram vários evangélicos e pessoas do candomblé falando sobre mim sem ter noção nenhuma de quem eu era e do que eu pensava. Foi duro.
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