Curiosidades

'Me senti usadíssima', diz Regina Casé sobre nudez em filme

Atriz fala de protagonismo em clássico da pornochanchada brasileira, 'época em que todo mundo ficava pelado em filme', e desconforto por não ter sido avisada sobre 'cenas que iam acontecendo'

Agência O Globo - 08/06/2026
'Me senti usadíssima', diz Regina Casé sobre nudez em filme
Regina Casé - Foto: Reprodução

'Me senti usadadíssima', lembra sobre filme que rodou nos anos 1970, época das pornochanchadas brasileiras. Estrela de outro clássico do gênero, "Os sete gatinhos", dirigido por Neville D'Almeida, a atriz revelação, em entrevista ao videocast '', no ar no Youtube e no Spotify, desconforto com cenas de nudez protagonizadas na década de 1970, quando ninguém imaginava que existia a profissão de 'coordenador de intimidação'. Leia o trecho:

Você fez um clássico da pornochancada, "Os sete gatinhos" (de Neville D'Almeida) gênero que objetificou a mulher, mas que também trazia certa liberdade sexual feminina. Como enxergar a evolução da representação da mulher no audiovisual?

Está em movimento. Sofri com aquilo. "Os sete gatinhos" foi um momento legal, livre. Todo mundo diz "ah, anos 1970, aquela época em que todo mundo ficou pelado em filme... Regina, você parecia uma índia". Mas outras vezes, me senti usado. Tem um filme em que me sinto usadadíssima. Estou fazendo, rodando, as coisas estou acontecendo e ninguém avisava. Era uma época que não se pensava nisso, nem tinha coordenador de intimidação. Foi difícil.

Qual era o filme?

Melhor não dizer. Mas acho que ainda está confuso a relação de saúde e estética. Primeiro, um padrão muito magro; depois: "você pode ter o peso que quiser". Não sinto que procuremos um lugar confortável e sereno para as mulheres. As que estão se expondo fora do padrão, por mais que digam "me aceito, sou assim mesmo"... isso ainda gera sofrimento para elas.

Você foi testemunha e agente da mudança de representação da mulher no humor, que por anos foi "feia" ou a "gostosa". Como o humor deseja sobre o papel da mulher na sociedade?

É vitrine do que está acontecendo. A base era o circo: aí, a mulher barbada ou com nanismo. Era sempre a graça feita em cima do sofrimento de alguém, o que vai dar nesses cuidados, que parecem exagerados, do politicamente correto. Eu não acho. Para fazer essa transição, tem que passar por esse lugar. Esse cuidado e essa percepção de "olha o que todo mundo está fazendo".... Porque, depois, vai no bullying, nos suicídios nas escolas. É a mesma coisa sem humor. Vai entrar só uma boazuda no filme, no programa de humor. Ou uma mulher considerada horrorosa, que vai ser zoada o tempo todo. Isso se expande para várias outras coisas, para música e tal. Então, acho que tive que ter um rigor mesmo.

Nair Belo, Dercy Gonçalves... Há atrizes maravilhosas que, por não se enquadrarem no papel de mocinha, só encontraram lugar no humor...

Todo mundo que não encontra lugar em outro lugar vai parar no humor. Vê Chico Anysio, Tom Cavalcante, Renato Aragão. Só o fato de ser nordestino parecia uma piada, aquele sotaque. Aquilo é identificado, primeiro, com uma pessoa que é pobre; depois, caricata. Como se não pudesse ser nordestino e fazer o papel que quisesse. A gente começou a quebrar essa barreira com "A máquina" (espetáculo com Wagner Moura, Lázaro Ramos e Vladimir Brichta nos anos 2000). Começou a coisa do sotaque e do cara poder ser galã. Wagner Moura, que deu no que deu. Mas ele também ficou um tempo ali sem humor.

Já se incomodou em ser colocado em estereótipo ou se sentiu cobrado por não cumprir o padrão estético que a sociedade nos impõe?

Nunca pude ser a mocinha da novela, mas já pude ser a mãezona da novela quando eu fiquei mais velho. Tina Pepper (personagem de Regina na novela 'Cambalacho') era engraçada, caricata, mas era gostosa. E pegava a galã. O que era meio parecido comigo. Eu era engraçado, inteligente, a que não era bonitinha. Mas eu era a gostosa e passando o rodo. Não namorei o Michael Jordan, que gostaria de ter namorado. Fiquei numa dúvida interna se eu queria ser o Michael Jordan ou dar para o Michael Jordan (risos). Era louca por ele. Ia ver o jogo, saía gritando e as seguranças me tiravam. Sabe aqueles filmes dos Beatles?

Por que não poderia ser uma mocinha?

Porque não estava nesse padrão. Eu tinha cara de nordestina. Quais programas fizeram quando entrei? Renato Aragão e Chico Anysio... Depois, 'TV Pirata', onde fez papel de homem o tempo todo. Conforme fui amadurecendo, pude fazer uma mãe bonita. Porque a idade já não exige tanto que tenha aquele padrão de cara, de corpo. Ao mesmo tempo, como muitas atrizes estavam muito botocadas e preenchidas, não poderiam fazer uma cortadora de cana ou a Dona Lurdes. Não vou combinar. E isso foi bom porque veio muito papel para mim.