Curiosidades

Um pé de mulher no budismo

A deusa Tara medita com a perna direita estendida e o pé tocando o chão. Pode se levantar a qualquer hora para proteger alguém

Agência O Globo - 20/05/2026
Um pé de mulher no budismo
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Hoje, visitamos uma exposição sobre budismo no Museu de Arte Moderna, o Lacma. São três salões com 180 estátuas, quadros e objetos ritualísticos. Para quem deseja aproveitar ao máximo, ofereço um breve curso, intitulado "Budismo em um parágrafo":

Sidarta era um príncipe protegido das mazelas do mundo pelas muralhas do palácio. Aos 29 anos, sai de casa pela primeira vez e se depara com a realidade: miséria, doença, velhice e morte por todos os lados. Chocado, abdica do trono, deixa esposa e filhos e parte em busca de respostas sobre o sofrimento. Após seis anos de jornada, medita sob uma figueira e, por meio da meditação, atinge a consciência elevada do Nirvana, libertando-se do sofrimento. Torna-se o Buda e compartilha seus ensinamentos até sua morte, aos 80 anos. Segundo o budismo, com disciplina e prática, qualquer pessoa pode alcançar o Nirvana.

A religião se espalhou pela Ásia através da tradição oral, mas também por templos, monastérios, músicas, cantos, rituais, quadros e estátuas — elementos que revelam mais sobre os homens do que sobre o próprio Buda. Somos criaturas imperfeitas, que dependem do hábito e da repetição para se orientar, aprendendo sobre si e o mundo por meio de símbolos e metáforas. Uma imagem religiosa existe porque ver ajuda a crer.

Com essas informações, você já pode me acompanhar pelo tour da exposição. A especialista explica: este é um Buda tailandês, ali um indiano, aquele de madeira, outro de pedra, cobre, do século II, III e assim por diante.

Entre influências da Grécia e do Egito, surge a estátua de uma mulher: a deusa Tara. Sua origem traz o mesmo desconforto que senti durante o tour: por que, em séculos de história budista, quase não há Budas mulheres? Por que as mulheres eram vistas apenas como mães de filhos com mais chances de alcançar o Nirvana, enquanto as filhas perpetuavam esse ciclo? Tara pensou da mesma forma. Foi princesa e, ao atingir o Nirvana, percebeu a escassez de mulheres iluminadas. Decide, então, continuar reencarnando sempre como mulher, tornando-se referência feminina e auxiliando outras pessoas em sua iluminação. No budismo, ultrapassar a libertação pessoal é ajudar os outros a se libertarem — e essa capacidade é simbolizada por Tara, uma entidade maior que o próprio Buda, a deusa mulher.

Se você chegou até aqui, merece uma estrelinha: budismo é realmente complexo. Agora, vamos à melhor parte: o pé. O Buda tradicionalmente medita na posição de lótus, com as pernas cruzadas e costas eretas. Já Tara medita com a perna direita estendida e o pé tocando o chão — pronta para se levantar a qualquer momento e proteger alguém.

O feminino é representado por seios, cinturas, nádegas, cabelos longos, coxas fartas ou longilíneas. Após conhecer Tara, percebi um novo símbolo: o pé. Mulheres estão em constante vigília, com o pé pronto para agir. Não se atreva a subestimar esse gesto: elas se levantam, tornam-se guerreiras, e não há Buda capaz de detê-las.