Curiosidades
Bienal de Veneza abre 61ª edição ao público entre protestos e ecos do passado colonial
Grupos se manifestaram contra as representações de Rússia e Israel, durante a pré-abertura à imprensa; os brasileiros Ayrson Heráclito, Eustáquio Neves e Dan Lie estão entre os 111 nomes da mostra principal
Antes mesmo de abrir ao público, neste sábado (9), a 61ª edição da Bienal de Veneza ganhou destaque na imprensa mundial devido às questões sociais e políticas, não necessariamente as representadas nas obras dos 111 artistas e coletivos selecionados para o coletivo principal ou dos pavilhões nacionais. Já no dia 30 de maio, o júri responsável por conceder os Leões de Ouro, presidido pela brasileira Solange Farkas, apresentou uma renúncia coletiva após reações à declaração que pretendia excluir artistas de países com líderes acusados de crimes contra a Humanidade, caso de Rússia e Israel.
Ana Maria Maiolino:
'Eu chorei rios':
Desde anteontem, dados da pré-abertura do evento à imprensa e convidados, . Na quarta-feira, o coletivo feminista ucraniano Femen e o grupo punk russo Pussy Riot fecharam o acesso à representação da Rússia, na volta do país ao evento desde 2022, após uma invasão à Ucrânia. Já diante do pavilhão israelense, o protesto foi comandado pelo coletivo Art Not Genocide Alliance (Anga). Trabalhadores da cultura também se mobilizam aproveitando a visibilidade do maior evento de arte do circuito mundial.
A coletiva, que conta com representações expressivas de países do continente africano, asiático e da América do Sul, reflete a visão da , a poucos dias do anúncio do tema da exposição principal, com o título de “In minor keys” (“Em tons menores”, em tradução direta). Juntos de nomes como o americano Nick Cave, o nigeriano Otobong Nkanga, o haitiano Edouard Duval-Carrié, a colombiana Carolina Caycedo, o chileno Alfredo Jaar e o porto-riquenho Daniel Lind-Ramos, estão os .
De volta a Veneza após a edição de 2017, agora com obras da série “Juntó”, Heráclito vê a proposta de Koyo, mantido pela equipe curatorial, como parte de uma conquista de espaço de artistas e pesquisadores do Sul Global, a exemplo também do camaronês Bonaventure Ndikung, curador-geral da 36ª Bienal de São Paulo.
— Estive com a Koyo três meses antes (de sua morte), em Chicago, quando oficializou o convite a mim e a Eustáquio, que também estava presente. Ela era uma pessoa fascinante, de quem tinha o privilégio de ter sido amigo. Foi um grande baque — conta o artista baiano. — E, ao mesmo tempo, na Bienal vemos o pensamento dela sobre essa geopolítica devastada pela brutalidade da guerra, do imperialismo. É uma bienal muito madura, sem os estigmas dados à arte não ocidental, contra os quais lutamos tanto.
O mineiro Eustáquio Neves levou à mostra italiana imagens de duas séries, “Arturos” e “Cartas ao mar”, criadas a partir de um processo de manipulação química de registros fotográficos.
— Vejo muitos países que nunca serviram numa Bienal e estão representados aqui. Entendi o conceito quando a Koyo me falou, mas vendo agora percebi essa ligação — comente Neves. — São pessoas com origens completamente diferentes da minha, mas o diálogo está ali, pela ancestralidade, e outras conexões.
Além dos três brasileiros na mostra principal, o pavilhão do país, com curadoria de Diane Lima, foi ocupado pelas obras de Rosana Paulino e Adriana Varejão. O título, “Comigo ninguém pode”, emprestado de uma obra de Rosana, faz referência a diferentes simbologias atribuídas à planta do mesmo nome, a partir de temas trabalhados ao longo das carreiras de mais três décadas das duas, como o tema colonial, fissuras históricas, acessórios e a relação com a natureza.
— O pavilhão traz uma série de questões que desafiam essa ideia de representação da arte brasileira. É a primeira vez de uma curaria negra, são três mulheres, sendo uma artista negra — comenta Diane. — E, ao mesmo tempo, está em consonância com o que o mundo espera de um país que é o grande laboratório racial, que produziu uma série de violências contínuas, e encontrou tecnologias e estratégias para lidar com elas.
O pavilhão traz obras de dois artistas em diferentes formatos, e orientações na arquitetura do espaço, recentemente reformado.
— Eu sempre lidei muito com o barroco, que não é um estilo ligado à natureza, é a teatralidade. Então usei a metáfora do teatro, da representação, para simular ruínas, deixando vestígios nas paredes — explica Adriana. — Até hoje, só tinha feito ruínas de carne, mas agora elas também se metamorfoseavam na terra, em vegetal, criando uma ligação com a obra de Rosana.
Para Rosana Paulino, apesar de muitas das obras abordarem a memória, as questões levantadas por elas não ficam presas ao passado:
— Para a filosofia africana, não existe começo, meio e fim. Falamos do que aconteceu com a escravidão, mas vemos os barcos interceptados hoje antes de chegarem à Europa, cada vez mais fechados à imigração. Estamos abordando o passado e o presente ao mesmo tempo.
A mostra conta ainda com a presença de mais um profissional brasileiro, o carioca Raphael Fonseca (), que assina o Pavilhão de Taiwan (“Screen melancholy”), com obras do artista Yi-Fan Li.
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