Curiosidades

Bad Bunny no Super Bowl: entenda todas as referências do show histórico que exaltou a cultura latina

Porto-riquenho foi o primeiro artista a fazer uma apresentação inteiramente em espanhol no intervalo

Agência O Globo - 09/02/2026
Bad Bunny no Super Bowl: entenda todas as referências do show histórico que exaltou a cultura latina
Bad Bunny no Super Bowl: entenda todas as referências do show histórico que exaltou a cultura latina - Foto: Reprodução

Na noite de 8 de fevereiro de 2026, o artista porto-riquenho Bad Bunny transformou o show do intervalo do Super Bowl LX em algo maior que um momento de entretenimento. O espetáculo, realizado no Levi’s Stadium, em Santa Clara (Califórnia), foi quase inteiramente em espanhol e repleto de símbolos culturais, políticos e artísticos que transcenderam o futebol americano e acenderam debates globais sobre identidade, território e pertencimento.

Cada detalhe da apresentação foi pensado para exaltar a cultura latina, especialmente a porto-riquenha, país de origem de Benito, e a multiplicidade étnica presente nos Estados Unidos. O momento não poderia ser mais propício: enquanto o presidente americano Donald Trump endurece as políticas anti-imigratórias no país, o artista convidado propõe uma mensagem de união e tolerância ao citar, nominalmente, todos os países das Américas.

Uma celebração da cultura porto-riquenha

Nos primeiros segundos da apresentação, o público percebe imediatamente que o Super Bowl LX teria um show diferente de tudo o que já foi visto no intervalo dos jogos. Os espectadores são convidados a participarem do "Super Tazón" (Super Tigela), mostrando que até o nome do evento, traduzido em espanhol, estava mais latino do que nunca.

O cenário do show foi uma ode à vida e às tradições de Porto Rico, com referências visuais às paisagens rurais da ilha — incluindo campos de cana-de-açúcar, homens mais velhos jogando dominó e barracas de “piragua” (raspadinha típica) — que visavam transportar o público para uma atmosfera de festa e comunidade. A utilização de elementos da figura do jíbaro porto-riquenho, como o chapéu tradicional pava, remete à classe trabalhadora rural.

Como é costumeiro em sua turnê, Bad Bunny se apresenta sobre uma “casita”, casa tradicional inspirada na sua própria residência em Porto Rico, resgatando um sentimento de lar e pertencimento cultural em um dos palcos mais vistos do mundo.

Música e símbolos de resistência

O repertório incorporou alguns dos momentos mais emblemáticos da carreira do artista, incluindo performances de faixas como "Yo Perreo Sola" e "Tití Me Preguntó", que figuram entre os primeiros sucessos de Benito no reggaeton.

Um dos pontos altos foi a participação de Ricky Martin interpretando "Lo Que Le Pasó a Hawaii", canção do álbum "Debí Tirar Más Fotos" (2025), em que Bad Bunny compara a história de Porto Rico com a do Havaí, sob uma metáfora para os riscos de marginalização cultural sob ocupação externa, reforçando frases como “não deixem soltar a bandeira”, que apareceu na mão do cantor, como convite à preservação da identidade cultural.

Durante a performance de "El Apagón", o artista trouxe uma referência explícita à crise de energia enfrentada por Porto Rico após desastres naturais. A produção incluiu imagens de postes eletrificados, simbolizando esforços de reconstrução e resistência diante de adversidades históricas. É pendurado a um desses postes que Bad Bunny canta os emblemáticos versos "ahora todos quieren ser latino', pero les falta sazón, batería y reggaetón" (agora todos querem ser latinos, mas falta tempero, batuque e reggaeton).

O significado político na moda e no palco

Bad Bunny começou o show vestindo um uniforme branco monocromático com seu sobrenome “Ocasio” e o número “64”. A escolha do número não ficou clara, mas diversas teorias foram levantadas por veículos internacionais. Segundo análise do "The New York Times", as teorias vão desde uma possível referência ao ano de nascimento de sua mãe até uma alusão ao álbum "El Último Tour del Mundo', que em 2020 se tornou o primeiro disco em espanhol a liderar a Billboard 200 após um intervalo de 64 anos.

Há ainda uma leitura mais solene, associando o número ao total inicial de mortes divulgado oficialmente após o furacão Maria, em Porto Rico — dado que depois seria amplamente contestado e revisado. Após o fim da apresentação, no entanto, a revista "Complex" informou que o 64 fazia referência direta a um tio falecido do cantor, que usava esse número quando atuava como jogador de futebol americano, acrescentando uma camada pessoal e afetiva ao símbolo exibido no palco do Super Bowl.

União continental e mensagem final

O ponto culminante do show foi Bad Bunny segurando uma bola de futebol americano com a frase “Together, We Are America” (Juntos, somos América), em meio a bandeiras dos países das Américas sendo exibidas ao fundo. Nos momentos finais, ele declarou “God Bless America” e enumerou, um a um os países que compõem as Américas, citando, inclusive, o Brasil.

A mensagem de união entre as nações foi corroborada pelas participações de Lady Gaga — que fez uma versão salsa do seu hit "Die With a Smile" e de Ricky Martin, além de uma verdadeira festa com muitos convidados: o show teve ainda uma cerimônia de casamento real que aconteceu ao vivo no palco, convidando uma dupla que havia enviado convites ao artista para fazê-los parte do show, e celebridades como Cardi B, Karol G, Young Miko, Pedro Pascal e Jessica Alba, que dançavam no meio da comemoração da boda.

Repercussão: da aclamação à controvérsia

Embora amplamente celebrado por fãs e artistas como um marco de representatividade latino-americana, o show também gerou críticas de setores conservadores — entre eles o ex-presidente dos EUA, Donald Trump, que classificou a apresentação como “absolutamente terrível” e argumentou que cantar em espanhol seria “uma afronta” ao país.

A reação polarizada já estava presente antes mesmo do início da música, uma vez que a escolha do artista não agradou aos mais conservadores e nacionalistas, que estranharam a ideia de um show em um idioma que não fosse o inglês. No entanto, momentos antes de subir ao palco, Bad Bunny avisou: "as pessoas só precisam se preocupar em dançar. Elas nem precisam aprender espanhol. É melhor que aprendam a dançar. Não existe dança melhor do que aquela que vem do coração“.