Curiosidades
Em mostra no Rio, Marina Ribas faz do ovo um símbolo para abordar questões pessoais e de expressão do feminino
Em cartaz no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, individual 'Nada é de nOvo' reúne instalações e esculturas em técnica mista, fotos, vídeo e performance
Há cerca de dez anos, após um diagnóstico de endometriose, Marina Ribas trouxe para a arte questões com que se deparava nos consultórios e em seu próprio corpo. Materiais com que trabalhava em suas esculturas, como o mármore e o metal, ganharam a companhia da espuma, madeira e cerâmica fria. Aos poucos, a figura do ovo tornou-se um signo de sua nova produção, em obras que abordam fertilidade (a literal e a criativa), ciclos, ascendência, transformação.
São Paulo, 472 anos:
Do mar ao museu:
Com trabalhos em técnica mista em espuma esculpida e solidificada, instalações de materiais variados ou em ovos modelados em cerâmica fria, Marina reuniu sua produção na individual “Nada é de nOvo”, em 2023, na Z42 Arte, no Cosme Velho, Zona Sul do Rio. Após um convite relâmpago, em dezembro, para inaugurar uma mostra no início do ano no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica (CMAHO), no Centro, a artista decidiu reconfigurar a antiga exposição, trazendo às obras o impacto da perda dos pais, nos últimos meses de 2025. Do luto ao trabalho, a produção se estendeu ao núcleo familiar, como uma tia convocada para ajudar na confecção em tempo recorde dos quase dois mil ovos de cerâmica usados numa instalação com base em espuma alveolada.
— Tive ajuda de mulheres muito importantes na minha vida para colocar essa exposição de pé, diferentemente da rotina artística, que é mais solitária no ateliê — conta Marina. — Em 2016, ao fazer exames, descobri uma endometriose, assim como acontece a outras 20% das mulheres que têm a doença e nem suspeitam. Quis falar desse corpo feminino, por dentro e por fora, pensando em como historicamente ele foi representado pelo olhar masculino. E o ovo virou o símbolo desses atravessamentos que vivi, de questões íntimas e subjetivas, mas que, de alguma maneira, fazem parte desse arquétipo do universo feminino.
As formas e estruturas ovaladas também serviram ao diálogo com a história da arte, por meio de nomes que as utilizaram, como Tarsila do Amaral, Regina Vater, Anna Maria Maiolino, Lygia Pape, só para citar algumas brasileiras. O título da mostra aponta a recorrência do símbolo e de que forma cada produção contribui como uma nova camada de entendimento. A interlocução com a tradição artística é ampliada na série de fotografias e vídeos denominadas “Infiltrações poéticas”, com a inserção de ovos feitos por Marina em esculturas de espaços como o Jardim do Carrossel do Louvre, em Paris, a Bienal de Veneza ou os Museus Capitolinos, em Roma. Nas ações, a artista incorpora um ovo (muitas vez modelado na hora) nas obras e registra a reação de transeuntes e visitantes.
— Levo sempre um pacote da cerâmica na bolsa e faço essas interferências no espaço público, não tem um roteiro definido. E aí registro como as pessoas reagem aos ovos junto às esculturas, como as situações vão se apresentando — explica a artista. — Na Tate Modern (em Londres), deixei um ovo embaixo da “Maman”, da Louise Bourgeois. Já causava uma inquietação um ovo de alguns centímetros embaixo de uma escultura de nove metros, e que fala tanto da maternidade, do feminino. Então uma funcionária da Tate me perguntou o que era aquilo, expliquei meu trabalho, e ela permitiu. Depois outros dois guardas homens me interpelaram, o último mais incomodado, ameaçando me expulsar. E um grupo de estudantes adolescentes também passou a interagir, uns fingiam chutar, outros tocando. Mas não julgo nenhuma reação, só presencio o que acontece.
Diretor artístico do CMAHO, César Oiticica Filho diz que Marina foi uma das artistas que melhor ocupou os 300 metros quadrados do último andar do centro cultural, reformado em 2022 para resolver problemas de vedação do teto e de sua claraboia.
— O espaço ali é muito generoso, mas desafiador para o artista, pelo pé direito alto também. A Marina aproveitou bem a oportunidade, até por saber que sua obra conseguiria ocupá-lo bem — comenta César. — Também foi interessante ela ter trazido uma performance ("Rito", em que ativa uma vestimenta exposta na mostra), é uma mistura de linguagens que casa bem com nosso programa.
Dos materiais usados anteriormente, como em , Marina apresenta uma instalação inédita em mármore, envolto em espuma alveolada.
— É uma dinâmica bem tensa, preciso do equilíbrio entre os materiais. São dez metros de espuma maleável para envolver o mármore, enquanto o peso da pedra sustenta a obra — observa a artista. — Materiais como o mármore demandam espaço e a ajuda de uma equipe por conta do peso. Comecei a trabalhar os ovos na pandemia também por isso. É uma matéria que me permite criar obras na escala da mão, e me dá autonomia para produzir onde eu estiver, mesmo nas viagens.
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