Cidades
Mão grande na orla? Escultura divulgada por João Caldas, pai de JHC ao lado de figuras da extrema direita acende polêmica em movimentos sociais
A nova escultura instalada no passeio da orla do Porto, entre o Porto e a Praia da Avenida, foi apresentada nas redes sociais por João Caldas, pai do prefeito João Henrique Caldas (JHC).
Oficialmente batizada pela gestão como “Mão de Deus”, a obra já circula nas redes e nas ruas com outro nome: “mão grande”.
O que ampliou a controvérsia não foi apenas o tamanho do monumento — que segue a linha de outras intervenções grandiosas da gestão, como a cadeira gigante da Ponta Verde e a roda-gigante da Pajuçara — mas o modo como a divulgação foi feita.
Montagem política ao lado da escultura
Ao apresentar o projeto, João Caldas, pai de JHC, publicou imagens associando a escultura a figuras ligadas à direita e à extrema-direita nacional e internacional. Nas postagens aparecem o Presidente dos Estados Unidos Donald Trump, o jogador Neymar, o ex-presidente Jair Bolsonaro e o deputado federal Nikolas Ferreira — conhecido por apoiadores e críticos pelo apelido “Chupetinha”.

A associação dessas figuras à imagem do monumento, que a gestão chama de “Mão de Deus”, foi interpretada por críticos como tentativa de reforçar um alinhamento ideológico e simbólico. A repercussão foi imediata: internautas passaram a ironizar a escultura, consolidando o apelido de “mão grande”.
Memória do território e protesto social
O debate ganhou novo contorno porque o monumento foi erguido em área onde existiu a tradicional Vila dos Pescadores, comunidade que marcou a história da orla do Porto antes de ser removida em processos de reordenamento urbano voltados ao turismo.
Movimentos sociais negros e coletivos comunitários organizaram manifestação repudiando a obra. Para esses grupos, a escultura ignora a memória do território e reforça um modelo de cidade que privilegia o espetáculo visual em detrimento da história popular.
Em texto divulgado nas redes, o Movimento Negro afirmou:
“O prefeito apresentou o novo monumento do passeio da orla do Porto, chamado de ‘Mão de Deus’. Uma obra grandiosa na forma, mas vazia de sentido quando ignora a história real daquele território.
Nesta mesma orla, onde existiu a Vila dos Pescadores, uma comunidade tradicional, com modos de vida, trabalho e memória coletiva, violentamente retirada da orla em nome do turismo, do lucro e do que é ‘instagramável’. No lugar da vida, da história e do povo, ergue-se um monumento que não dialoga com a cidade, nem repara as violências cometidas.
Maceió não precisa de símbolos que apagam seu passado. Precisa de políticas que reconheçam a memória popular, respeitem as comunidades tradicionais e construam uma cidade para quem vive nela — não apenas para quem a consome como cenário.
Sem memória, não há futuro. Sem povo, não há cidade.”
Entre o marketing e a política
A polêmica revela dois níveis de debate. O primeiro é urbano: qual modelo de cidade está sendo construído? Um modelo pautado por estruturas monumentais e forte apelo “instagramável” ou um modelo centrado em memória e inclusão?
O segundo é político: ao associar a imagem da escultura a nomes como Trump, Bolsonaro e Nikolas Ferreira, João Caldas ampliou o alcance ideológico da obra, deslocando-a do campo simbólico religioso para o campo da narrativa política.

Enquanto a gestão sustenta o discurso de fé e acolhimento sob o nome “Mão de Deus”, cresce nas redes o apelido popular de “mão grande”. A escultura já se tornou ponto de fotografia na orla. Agora também virou ponto de tensão no debate político e social da capital alagoana.

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