Cidades

Mão grande na orla? Escultura divulgada por João Caldas, pai de JHC ao lado de figuras da extrema direita acende polêmica em movimentos sociais

Divulgada por João Caldas, escultura ao lado de Trump, Bolsonaro, Neymar e Nikolas Ferreira, escultura batizada enfrenta críticas por associação ideológica à extrema direita e por ignorar a memória da antiga Vila dos Pescadores

Redação 11/02/2026
Mão grande na orla? Escultura divulgada por João Caldas, pai de JHC ao lado de figuras da extrema direita acende polêmica em movimentos sociais

A nova escultura instalada no passeio da orla do Porto, entre o Porto e a Praia da Avenida, foi apresentada nas redes sociais por João Caldas, pai do prefeito João Henrique Caldas (JHC).

Oficialmente batizada pela gestão como “Mão de Deus”, a obra já circula nas redes e nas ruas com outro nome: “mão grande”.

O que ampliou a controvérsia não foi apenas o tamanho do monumento — que segue a linha de outras intervenções grandiosas da gestão, como a cadeira gigante da Ponta Verde e a roda-gigante da Pajuçara — mas o modo como a divulgação foi feita.


Montagem política ao lado da escultura


Ao apresentar o projeto, João Caldas, pai de JHC, publicou imagens associando a escultura a figuras ligadas à direita e à extrema-direita nacional e internacional. Nas postagens aparecem o Presidente dos Estados Unidos Donald Trump, o jogador Neymar, o ex-presidente Jair Bolsonaro e o deputado federal Nikolas Ferreira — conhecido por apoiadores e críticos pelo apelido “Chupetinha”.


A associação dessas figuras à imagem do monumento, que a gestão chama de “Mão de Deus”, foi interpretada por críticos como tentativa de reforçar um alinhamento ideológico e simbólico. A repercussão foi imediata: internautas passaram a ironizar a escultura, consolidando o apelido de “mão grande”.

Memória do território e protesto social

O debate ganhou novo contorno porque o monumento foi erguido em área onde existiu a tradicional Vila dos Pescadores, comunidade que marcou a história da orla do Porto antes de ser removida em processos de reordenamento urbano voltados ao turismo.

Movimentos sociais negros e coletivos comunitários organizaram manifestação repudiando a obra. Para esses grupos, a escultura ignora a memória do território e reforça um modelo de cidade que privilegia o espetáculo visual em detrimento da história popular.

Em texto divulgado nas redes, o Movimento Negro afirmou:

“O prefeito apresentou o novo monumento do passeio da orla do Porto, chamado de ‘Mão de Deus’. Uma obra grandiosa na forma, mas vazia de sentido quando ignora a história real daquele território.



Nesta mesma orla, onde existiu a Vila dos Pescadores, uma comunidade tradicional, com modos de vida, trabalho e memória coletiva, violentamente retirada da orla em nome do turismo, do lucro e do que é ‘instagramável’. No lugar da vida, da história e do povo, ergue-se um monumento que não dialoga com a cidade, nem repara as violências cometidas.

Maceió não precisa de símbolos que apagam seu passado. Precisa de políticas que reconheçam a memória popular, respeitem as comunidades tradicionais e construam uma cidade para quem vive nela — não apenas para quem a consome como cenário.

Sem memória, não há futuro. Sem povo, não há cidade.”

Entre o marketing e a política

A polêmica revela dois níveis de debate. O primeiro é urbano: qual modelo de cidade está sendo construído? Um modelo pautado por estruturas monumentais e forte apelo “instagramável” ou um modelo centrado em memória e inclusão?

O segundo é político: ao associar a imagem da escultura a nomes como Trump, Bolsonaro e Nikolas Ferreira, João Caldas ampliou o alcance ideológico da obra, deslocando-a do campo simbólico religioso para o campo da narrativa política.

Enquanto a gestão sustenta o discurso de fé e acolhimento sob o nome “Mão de Deus”, cresce nas redes o apelido popular de “mão grande”. A escultura já se tornou ponto de fotografia na orla. Agora também virou ponto de tensão no debate político e social da capital alagoana.