Cidades
Cem anos de “uma chusma de calamidades”: Lampião, a Coluna Prestes e o assassinato do prefeito de Palmeira dos Índios (1926)
Neste mês, Palmeira dos Índios chega ao centenário de um dos períodos mais turbulentos de sua história. O fevereiro de 1926 não foi apenas um marco local, mas um ponto de condensação das tensões que atravessavam o Brasil da República Velha: o coronelismo como forma cotidiana de exercício do poder, as disputas políticas resolvidas à bala, o medo difuso da Coluna Prestes percorrendo o imaginário do interior e a presença concreta do cangaço nos arredores do município.
Em poucas semanas, a cidade viveu boatos de guerra, requisições forçadas, intrigas políticas, circulação de tropas e a passagem de Lampião pelas imediações. Como Graciliano Ramos confidenciou a um amigo, em carta datada daquele ano, “Por aqui, uma chusma de calamidades: crises, revoltosos, bandos de criminosos pela vizinhança, praticando horrores, suicídios, assassinatos, o diabo”. No centro desse cenário instável, o assassinato do prefeito Lauro de Almeida Lima (hoje lembrado como nome de Praça e como nome oficial da antiga “Rua da Mangueira”, no centro da cidade), em pleno exercício do cargo, rompeu qualquer aparência de normalidade institucional.
Da crise profunda que se seguiu – marcada por violência, vingança e intervenção política – emergiria um desfecho inesperado e histórico: a eleição extraordinária de Graciliano para a prefeitura de Palmeira dos Índios, episódio que transformaria para sempre a memória política e cultural da cidade.
Um prefeito entre obras, confrontos e rupturas
O coronel Lauro de Almeida Lima ocupava, em meados da década de 1920, uma posição central na engrenagem política de Palmeira dos Índios. Comerciante próspero, iniciara a vida econômica com uma loja de tecidos – mais tarde transferida ao seu auxiliar Manoel Sampaio Luz (Juca Sampaio) – antes de consolidar-se como dono de um armazém de cereais. Primeiro palmeirense a possuir um automóvel, da marca Ford, conta-se que ele era uma espécie de “playboy”, que gostava de desfilar pela cidade com o carro cheio de jovens mulheres.
A prosperidade material converteu-se em capital político. Em seu primeiro mandato como prefeito (1919-1921), Lauro imprimiu à cidade um ritmo de obras pouco comum para os padrões do interior alagoano da época: construiu, num terreno doado pelo coronel Sebastião Ramos, pai de Graciliano Ramos, o Paço da Intendência – cuja fachada foi desenhada pelo futuro escritor Adalberon Cavalcanti Lins, então com 14 anos de idade – que até hoje abriga o poder executivo municipal; ergueu duas escolas e um açougue público; promoveu a urbanização da Praça Moreno Brandão, conhecida como Praça do Açude; realizou a pavimentação, em lajes, da antiga Rua de Baixo (hoje Rua Major Cícero de Góes Monteiro / “Rua da Caixa”); inaugurou o primeiro serviço de abastecimento de água potável da cidade; e ainda incentivou a vida cultural e associativa com a criação da Filarmônica 16 de Setembro e da Cooperativa do Banco Popular e Agrícola de Palmeira dos Índios.
O serviço de abastecimento de água, em especial, tornou-se uma das marcas simbólicas de sua administração. A obra foi executada por Idalino Araújo, responsável pela construção de uma barragem na Mata da Cafurna, destinada a represar as águas de uma das vertentes do Rio Bálsamo. A partir dali, a água seguia por caneletas de bambu até um chafariz localizado atrás da Igreja do Rosário – edifício que hoje abriga o Museu Xucurus. Daquele ponto, a água era transportada em potes de barro, colocados em lombos de burros, e vendida à população de casa em casa por aguadeiros, numa cadeia de abastecimento que, embora rudimentar, representava um avanço significativo para a vida urbana da época.
Essa face modernizadora, contudo, coexistia com um temperamento político marcado pelo confronto. Lauro de Almeida governava como coronel típico de seu tempo: centralizador, orgulhoso de sua autoridade e pouco disposto a recuos diante de adversários. As principais fontes (Luiz B. Torres, Luiz Byron Passos Torres e Ivan Barros) concordam em defini-lo como “homem de inimigos mortais na política”.
O conflito fazia parte de seu cotidiano muito antes de 1926. Em 1919, já havia escapado de um atentado à bala na Serra do Muro, quando seguia a cavalo para Quebrangulo a fim de tomar o trem rumo à capital. O cavalo disparou ao primeiro estampido, e o prefeito sobreviveu, ferido na perna – um aviso precoce de que sua trajetória política seria inseparável da violência.
Nos anos seguintes, os choques se multiplicaram. Um episódio simbólico desse clima ocorreu durante o carnaval, envolvendo o promotor Olival Lins. Um desentendimento em um baile – rapidamente transformado em fuxico político, “por causa de uma mulher”, segundo os comentários que correram a cidade – expôs publicamente a rivalidade entre autoridades locais e aprofundou divisões já existentes. O caso extrapolou o ambiente festivo e ganhou contornos institucionais, alimentando ressentimentos, intrigas e disputas de bastidores.
A tensão se refletiu também no campo da imprensa. O jornal O Índio, que circulava na cidade até o fim de 1925, foi empastelado por ordem do próprio promotor Olival Lins, que se sentiu ofendido por causa de um suposto artigo embaraçoso que mencionaria seu nome – embora isso jamais tivesse ocorrido. Para evitar o aprofundamento das divisões entre as famílias católicas da cidade, o pároco padre Macedo decidiu abafar o episódio, encerrando definitivamente a circulação do periódico. O empastelamento de O Índio não foi um fato isolado, mas parte de um ambiente em que divergências políticas eram resolvidas pela intimidação, pela força e pela supressão do contraditório.
Assim, o prefeito que pavimentava ruas, implantava serviços públicos e incentivava iniciativas culturais era o mesmo que governava em meio a intrigas, vinganças e enfrentamentos diretos. Na Palmeira dos Índios dos anos 1920, progresso urbano e violência política não se excluíam: avançavam lado a lado.
O estopim fiscal
O conflito que desembocaria na tragédia de fevereiro de 1926 ganhou forma definida no segundo mandato de Lauro de Almeida Lima, quando a esfera administrativa passou a ser atravessada por uma disputa direta de autoridade entre o poder municipal e a representação fiscal do Estado. Em 1925, o governo estadual nomeou para a coletoria de Palmeira dos Índios João Ferreira de Gusmão e Melo, apadrinhado político do coronel Aureliano Vargas Wanderley, adversário do prefeito no xadrez oligárquico alagoano. A nomeação não foi um gesto neutro: significava introduzir, no coração da vida econômica local, um agente alinhado a forças externas e disposto a exercer o cargo sem mediações.
Ao contrário de seu antecessor, o fiscal Manoel Rocha, lembrado como mais conciliador, Gusmão adotou uma postura rígida, formalista e ostensiva, rapidamente transformando a rotina fiscal em instrumento de confronto. Sua atuação atingiu sobretudo os feirantes, em especial os ambulantes e vendedores de rapadura (consta que Palmeira contava com dois engenhos), figuras centrais da economia popular da cidade e dependentes de uma lógica de tolerância informal para garantir a sobrevivência. Multas, apreensões e abordagens públicas passaram a ser frequentes, gerando um clima de hostilidade aberta. As queixas se multiplicaram e encontraram eco direto no gabinete do prefeito, a quem os feirantes recorriam como instância última de proteção e arbitragem.
O episódio decisivo ocorreu em um sábado de feira, dia em que a cidade se concentrava no comércio e na circulação de gente e mercadorias. Alguns vendedores, acuados pela ação do coletor, refugiaram-se no armazém do próprio prefeito, espaço que funcionava, naquele contexto, como extensão simbólica de sua autoridade. Ao ordenar a prisão desses feirantes dentro do armazém, que funcionava na esquina entre as ruas Correia Paes e Floriano Peixoto (onde hoje é uma farmácia), Gusmão ultrapassou uma linha sensível: afrontou trabalhadores populares e desafiou diretamente o poder municipal e a figura do prefeito. O gesto foi interpretado como provocação deliberada e tornou público um conflito que até então se mantinha nos bastidores.
Lauro de Almeida reagiu de imediato, recorrendo aos canais institucionais disponíveis. Dirigiu-se ao governador Costa Rego, solicitando a remoção de Gusmão da coletoria de Palmeira dos Índios. O pedido, porém, foi ignorado. A decisão do governo estadual de manter o coletor no cargo sinalizou, de forma inequívoca, que o embate não seria resolvido pela via administrativa. Amparado politicamente, Gusmão permaneceu na cidade e passou a intervir de maneira cada vez mais direta na esfera de atuação fiscal da prefeitura, tensionando os limites entre as competências do Estado e a autonomia do poder local.
A escalada do conflito atingiu um novo patamar quando Gusmão tentou, pela primeira vez, atentar contra a vida do prefeito. O episódio ocorreu no Cine Theatro Palmeirense, espaço público de sociabilidade e lazer pertencente a Philadelpho Wanderley e dirigido por Marçal Oliveira. A tentativa de crime, realizada em local aberto e frequentado por populares, revela o grau de deterioração das relações políticas naquele momento. A execução não se consumou apenas pela intervenção do delegado Américo dos Santos, que impediu o ataque.
A partir desse episódio, o confronto deixou de ser apenas administrativo ou político: tornou-se uma disputa pessoal, armada e irreversível. O estopim fiscal havia sido acionado. O que se seguiria, poucos meses depois, já não poderia ser contido por ofícios, telegramas ou apelos à legalidade.
O medo da Coluna Prestes

Comando da Coluna Prestes, em foto de 1924. Luís Carlos Prestes é o terceiro sentado, da esquerda para a direita.
Enquanto os conflitos locais se agravavam e a autoridade municipal era corroída por disputas internas, o país vivia um ambiente de instabilidade política permanente. A Coluna Prestes, em marcha pelo interior do Brasil, funcionava como catalisador desse alvoroço generalizado: sua simples menção era suficiente para acionar rumores, temores e expectativas em cidades que ela sequer pisaria. Em Palmeira dos Índios, não foi diferente. Espalhou-se rapidamente o alvoroço com a notícia de que o movimento político-militar – insurgente contra a República Velha e identificado com bandeiras como o voto secreto e a ampliação do ensino público – poderia atravessar a região. O medo não se alimentava apenas da política, mas da memória recente de guerras sertanejas, requisições forçadas e violências praticadas por forças armadas irregulares.
Esse temor ganhou densidade poucos dias antes dos acontecimentos que abalariam Palmeira dos Índios. No dia nove de fevereiro de 1926, ocorreu um confronto decisivo entre os tenentistas da Coluna Prestes e uma tropa formada por policiais e cangaceiros, na Vila de Piancó, no sertão da Paraíba. Relata-se que o deputado estadual e padre Aristides Ferreira da Cruz, líder político local, foi ao encontro dos revolucionários afirmando ser parente de Siqueira Campos, propondo-lhes uma negociação. Tratava-se de uma cilada. O encontro terminou em combate aberto: a Coluna venceu a batalha que se seguiu, a tropa legalista bateu em retirada e alguns dos que ficaram para trás foram mortos – entre eles, o próprio padre Aristides. O episódio consolidou a fama da Coluna como força militar efetiva e sangrenta, desfazendo a ideia de que se tratava apenas de um agrupamento errante de jovens oficiais idealistas.
Prosseguindo a marcha rumo ao sul, a Coluna atravessou Pernambuco e Bahia, dirigindo-se para o norte de Minas Gerais. Encontrando vigorosa reação legalista e precisando se remuniciar, o comando decidiu interromper o avanço meridional e executar a manobra conhecida como “laço húngaro”, retornando ao Nordeste através da Bahia. O movimento prosseguiu pelo Piauí, alcançou Goiás e, finalmente, chegou de volta a Mato Grosso em outubro de 1926, encerrando uma das mais longas e desgastantes marchas armadas da história republicana brasileira.
A reação popular diante da Coluna, contudo, foi marcada por ambiguidade e estranhamento, como registrou com rara precisão Graciliano Ramos, em texto posteriormente publicado. Longe da imagem de um exército devastador, o que surpreendia os habitantes do interior era justamente a ausência da brutalidade esperada: “Ora, essa gente que saiu de S. Paulo em 1924 constituía tropa, sem dúvida, mas uma tropa que não dava pancada. E isto causava pasmo. Nas feiras da roça uma cavalhada aparecia, espalhava o terror. Em seguida tudo se acalmava: os recém-chegados eram criaturas inofensivas, barbudas e cabeludas, que se manifestava em discursos difíceis. Tipos malucos, provavelmente. Mas como, sendo numerosos e vestindo uniforme, não matavam nem incendiavam, o matuto, sem entendê-los, gostava deles e ficava grato”.
O trecho expõe o descompasso entre o imaginário sertanejo – acostumado a associar tropas à violência imediata – e um movimento que, embora armado, se apresentava por meio da palavra, do discurso político e da recusa ao saque sistemático. A Coluna, assim, produzia perplexidade: era tropa, mas não se comportava como tal; inspirava medo, mas também curiosidade e até simpatia.
Esse temor difuso, entretanto, logo se mostraria deslocado no caso específico de Palmeira dos Índios. A ameaça que efetivamente rondaria o município naquele período não viria do campo das revoltas tenentistas, nem dos “discursos difíceis” dos insurgentes. Viria de outra parte, mais conhecida e mais temida no sertão: o cangaço, que se aproximava da cidade não como boato, mas como presença concreta.
A presença real do cangaço

Lampião em Juazeiro do Norte, foto de Lauro Cabral de Oliveira, 1926.
Se a Coluna Prestes existia, para Palmeira dos Índios, sobretudo como rumor e inquietação difusa, a ameaça concreta vinha de outra direção. Quem de fato passou pelos arredores do município naquele período foi o bando de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, figura já então cercada de fama, temor e fascínio no sertão nordestino. A aproximação do cangaceiro não se deu de modo episódico ou fugaz, mas como uma presença calculada, observadora, que rondou a cidade sem jamais nela ingressar formalmente. Essa movimentação se inscreve num momento mais amplo de rearranjos entre cangaço, poder político e autoridades religiosas, marcado pela tentativa de instrumentalização dos bandos armados no combate às forças tenentistas da Coluna Prestes.
Não por acaso, Lampião esteve apenas uma vez em Juazeiro do Norte (CE), entre 4 e 7 de março de 1926, atendendo ao chamado do padre Cícero Romão Batista para integrar o Batalhão Patriótico, organizado por Floro Bartolomeu, descrito como “chefe cearense, meio deputado, meio cangaceiro”. O objetivo declarado era combater a Coluna Prestes; a contrapartida oferecida ao cangaceiro era o perdão dos pecados cometidos. Foi nesse contexto que Lampião recebeu o pseudo-título de “Capitão do Batalhão Patriótico”, que passaria a ostentar até o fim da vida, em 1938. A experiência, breve e excepcional, evidencia como o cangaço era, naquele momento, simultaneamente combatido e cooptado pelo poder constituído – e ajuda a compreender a liberdade de movimentos do bando pelos sertões do Nordeste.
A passagem de Lampião por território palmeirense foi registrada em crônicas e memórias, inclusive por Graciliano Ramos, que deixou descrições minuciosas do episódio. Segundo um desses registros, o cangaceiro esteve aboletado na localidade de Canafístula, de onde acompanhava os movimentos da cidade e avaliava suas condições de defesa. A cena é reveladora de um cangaço estratégico, atento ao terreno e às forças disponíveis: “passou algum tempo divertindo-se e mandando espiões examinar a defesa da rua. Descontente com as observações, retirou-se e foi pedir a bênção do padre Cícero”.
A decisão de recuar, longe de indicar fragilidade, sugere prudência. Palmeira dos Índios era, à época, um importante entreposto comercial e administrativo do sertão alagoano, dotado de destacamento policial e vigilância reforçada – circunstâncias que ajudaram a manter o bando do lado de fora, ainda que suficientemente próximo para fazer-se sentir.
Em outro registro, Graciliano Ramos detalha a permanência do grupo em território palmeirense, revelando a convivência tensa e ambígua entre cangaceiros, fazendeiros e população local: “Em 1926, penetrando em Alagoas, Lampião demorou-se uma semana no município de Palmeira dos Índios, fronteira do sertão. Pernoitou em casa dum fazendeiro e, camarada, para não comprometê-lo com a polícia, quebrou duas cadeiras e matou uma novilha. Ao retirar-se, o proprietário deu-lhe por guia um vaqueiro que teve a má sorte de passar naquele momento diante da casa. Metido no bando, esse pobre-diabo encontrou nele alguns conhecidos da vizinhança, que lhe pediram notícias de amigos e parentes, mandaram recados e dinheiro para as famílias, ali residentes”. O trecho expõe a lógica paradoxal do cangaço: violência calculada, gestos de “camaradagem” forçada, redes de sociabilidade que ligavam o bando às populações sertanejas e uma circulação constante de informações, recados e favores, à margem – mas não fora – da ordem social.
Noutra crônica, o tom é ainda mais visual e cinematográfico, compondo uma imagem poderosa do bando em deslocamento ostensivo, sem a necessidade de se ocultar: “Quando Lampião esteve no município de Palmeira dos Índios, onde se demorou alguns dias mandando bilhetes para a cidade e sem poder entrar nela, trazia mais de cem homens que não se escondiam na capoeira nem transitavam em veredas. Corriam pela estrada real, bem montados, espalhafatosos, pimpões, chapéus de couro enfeitados de argolas e moedas, cartucheiras enormes, alpercatas que eram uma complicação de correias, ilhós e fivelas, rifles em bandoleira, lixados, azeitados alumiando”.
A descrição graciliânica reforça o caráter performático do cangaço: mais do que banditismo furtivo, tratava-se de uma exibição de força, visível e intimidante, que se impunha pela presença e pelo espetáculo das armas. Em fevereiro de 1926, enquanto Palmeira dos Índios lidava com crises políticas internas, rumores tenentistas e rearranjos de poder que iam do sertão alagoano a Juazeiro do Norte, Lampião e seu bando convertiam os arredores da cidade em palco de uma violência anunciada – real, concreta e impossível de ignorar.
Fevereiro sangrento
É nesse ambiente saturado de boatos, deslocamentos de tropas, presença cangaceira nos arredores e intrigas políticas persistentes que fevereiro de 1926 chega ao seu ponto de ruptura em Palmeira dos Índios. Por volta das onze horas do dia 19, o major José Lucena de Albuquerque Maranhão, responsável pela morte do pai de Lampião, entrou na cidade para incorporar o destacamento palmeirense à volante que seguiria para o sertão, para enfrentar a Coluna Prestes. A operação exigia meios de transporte imediatos. Diante da urgência, o prefeito Lauro de Almeida Lima ordenou que cavalos e burros dos feirantes fossem requisitados para servir de montaria à tropa. Muitos comerciantes tiveram seus animais subtraídos à revelia, o que aprofundou o ressentimento popular e acirrou ânimos já inflamados.
No mesmo dia, o delegado Américo dos Santos foi à casa do prefeito, onde ele fazia um lanche, para comentar o fuxico que se espalhara após os festejos carnavalescos: o entrevero ocorrido entre o coronel Lauro e o promotor Olival Lins. No centro das versões e intrigas que se multiplicaram em torno do episódio surgia o nome de alguém ligado ao coletor estadual João Ferreira de Gusmão e Melo: o dentista Emílio Perdigão, apontado como “leva e traz” das provocações.
Furioso – e a contragosto de sua esposa, Adelaide –, Lauro decidiu prender Perdigão na barbearia de José Mendes Ferreira, nas imediações do prédio do antigo São Bernardo Hotel. Ao conduzi-lo para a detenção, já na Travessa da Cadeia (hoje Rua Tobias Costa / “Rua da Lotérica”), nas proximidades da coletoria, Perdigão gritou: “Socorro, seu Gusmão! O prefeito quer me prender!”. Saindo para a rua, o coletor ordenou que Lauro soltasse seu apadrinhado. Houve reação imediata. Uma cena de faroeste. O prefeito sacou sua pistola Colt, mas, ao tentar disparar, a arma “quebrou coco”. Gusmão foi mais rápido: com um Parabellum, atingiu Lauro com um tiro na cabeça. O prefeito caiu morto, aos quarenta anos de idade, em plena via pública.
O corpo de Lauro de Almeida foi recolhido por Belo Curto, Walfredo Cavalcante e Antônio Maia. Gusmão, após o duelo, fugiu pela Rua dos Italianos (atual Calçadão Fernandes Lima), tomou um cavalo de Nezinho Granja e seguiu para Olho D’Água do Acioli (hoje Igaci). O boticário José Tobias, cunhado do prefeito, telegrafou imediatamente ao governador Costa Rego, comunicando o crime. A resposta foi curta e emblemática: “Garantam o homem”.
A notícia da morte provocou uma reação em cadeia. Laurinho, filho do prefeito, no ímpeto de seus 19 anos, foi à casa de Leobino Soares da Mota para cobrar explicações. Informado do equívoco quanto à identidade do assassino, uniu-se ao delegado Américo dos Santos e a outros palmeirenses na caçada ao coletor. Ao chegarem na atual Igaci, o cavalo de Nezinho Granja, amarrado em frente à casa de Justino Amorim, denunciou o esconderijo. Descido do sótão da casa, Gusmão recebeu dos vingadores de Lauro de Almeida uma saraivada de balas. Cortaram-lhe as orelhas, quebraram-lhe as pernas, tocaram fogo em seu cadáver e enterraram os seus restos mortais em Palmeira dos Índios, encerrando de forma brutal a perseguição.
Dias depois, instaurou-se um inquérito que indiciou diversos envolvidos, entre eles Américo Santos, Domício, Euclides Tavares (que se refugiou na Mata da Cafurna), João Correia, José Francisco, Laurentino (outro filho de Lauro), Manoel Orígenes, Manoel Sobrinho e Terto Valente. Defendidos pelo professor Guedes de Miranda, os réus receberam indulto do governador Costa Rego. Laurinho, condenado pelo juiz Medeiros a oito anos de prisão, teve a pena reduzida para dois e foi igualmente indultado. Na prática, ninguém cumpriu pena pelos crimes.
Assim, fevereiro de 1926 encerrou-se como um mês de ruptura, violência e impunidade. A morte de um prefeito em exercício implodiu a ordem política local e abriu um vazio institucional que exigiria soluções excepcionais, como o desfecho singular que viria nos meses seguintes.
Do crime à eleição de Graciliano Ramos
O crime não apenas interrompeu um mandato em curso, mas desorganizou o eixo do poder local. Coube ao vice-prefeito Manoel Sampaio Luz – conhecido como Juca Sampaio, comerciante e afilhado político do coronel Lauro – assumir a prefeitura para cumprir o restante do mandato. A instabilidade, porém, já estava instalada. Abriu-se uma crise sucessória inédita: à medida que se aproximavam as eleições seguintes, não havia candidatos dispostos a disputar o cargo num cenário ainda marcado pelo medo, pela violência recente e por rivalidades mal resolvidas.
Com a aproximação do pleito, as forças situacionistas começaram a se reorganizar, conscientes de que era necessário oferecer uma saída política capaz de recompor a autoridade municipal. O comando do processo coube ao grupo liderado por Álvaro Paes, figura influente da política regional, apoiado por Otávio Cavalcanti, então governador de Alagoas, e por Costa Rego, principal representante do poder estadual na região, todos vinculados ao Partido Democrata. Tratava-se de um esforço coordenado para impedir que o vazio institucional se prolongasse e para evitar o retorno aberto das disputas armadas ao campo eleitoral.
As lideranças do Partido Democrata, naquele momento, eram formadas por pessoas com as quais Graciliano Ramos mantinha relações de proximidade intelectual e política. O próprio Álvaro Paes e Otávio Cavalcanti eram jornalistas, como Graciliano, e compartilhavam afinidades com o chamado “sábio sertanejo”. Costa Rego, jornalista do Correio da Manhã desde 1907, havia acompanhado de perto a trajetória de Graciliano na imprensa carioca e dirigira o que chamou de seu “estágio probatório” no jornalismo. Essas conexões ajudaram a pavimentar uma solução considerada, à época, ousada e pouco convencional.
A cúpula partidária acabou selando o compromisso de lançar o nome de Graciliano Ramos – então presidente da Junta Escolar – como candidato à prefeitura, destacando sua reputação de homem culto, íntegro e avesso aos métodos tradicionais da política local. O próprio Graciliano, contudo, resistiu à ideia. “Na vida pública já alcancei o que desejava: sou eleitor e jurado”, declarou, recusando inicialmente a proposta de candidatura. A hesitação prolongou-se até quando os próceres do Partido Conservador começaram a espalhar pela cidade o boato de que ele temia fracassar como administrador público e perder prestígio. Provocado, Graciliano respondeu em tom seco e mordaz ao coronel Chico Cavalcanti: “Apareça o filho da puta que disse que eu não sabia montar em burro bravo”.
Como não houve quem assumisse o desafio, Graciliano acabou sendo o único a candidatar-se ao cargo de prefeito. Não fez campanha, não distribuiu promessas nem participou de articulações tradicionais para compor o Conselho Municipal (Câmara de Vereadores). Ainda assim, foi eleito em 7 de outubro de 1927, com 433 votos. Para o cargo de vice-prefeito, também eleito separadamente, venceu o pecuarista José Alcides de Moraes. Coube aos coronéis Chico Cavalcanti e Álvaro Paes a tarefa de “cabalarem eleitores”, como se dizia à época. Afinal, na República Velha, as eleições eram “a bico de pena”: voto a descoberto, currais eleitorais e apurações conduzidas “a ferro e fogo pela convenção”.
O pleito seria lembrado como o dos desdéns de Graciliano, que mais tarde revelaria os bastidores comuns da política durante a Primeira República. “Assassinaram o antecessor. Escolheram-me por acaso. Fui eleito naquele velho sistema de atas falsas, os defuntos votando”.
Assim, a tragédia de 1926 não apenas ceifou a vida de um prefeito: desestruturou um regime local e, paradoxalmente, abriu caminho para uma solução política singular. Cem anos depois, a memória desses acontecimentos revela como, do colapso do coronelismo armado e da crise institucional, emergiu uma figura que transformaria aquela experiência em literatura, administração pública e testemunho crítico de um tempo em que a política, no sertão alagoano, ainda se resolvia entre balas, boatos e cédulas de papel nas urnas.
(*) Doutor em Letras e Linguística, Mestre em Sociologia, Especialista em História de Alagoas, Graduado em Filosofia e Professor do Instituto Federal de Alagoas – Ifal.
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