Cidades
Esgoto a céu aberto contrasta com discurso turístico e expõe crise na orla de Maceió
Problema histórico das “línguas sujas” persiste há décadas, afeta praias urbanas e compromete a imagem da capital alagoana como destino sustentável
Maceió segue sendo promovida nacional e internacionalmente como um dos destinos turísticos mais desejados do Brasil, destacando praias de águas cristalinas, extensos coqueirais e uma rede hoteleira em constante expansão. À margem desse cartão-postal amplamente divulgado, porém, uma realidade incômoda insiste em se impor: a presença das chamadas “línguas sujas”, pontos de despejo de esgoto a céu aberto que desembocam diretamente no mar e escancaram uma ferida histórica da capital alagoana.
Longe de ser um problema pontual ou recente, a situação atravessa décadas e diferentes gestões públicas. Os impactos ambientais são evidentes, mas o prejuízo à imagem turística da cidade tende a ser ainda mais profundo e duradouro. Para quem visita Maceió pela primeira vez, o contraste entre a paisagem paradisíaca e o contato direto com esgoto in natura gera incredulidade, frustração e sensação de descaso.
O turista mineiro Miguel Cunha, de Belo Horizonte, relata o choque ao se deparar com a situação durante a viagem. “É inimaginável para uma cidade com o potencial de Maceió. Eu só acreditei quando vi. Achei que fosse algo isolado, mas percebi em várias praias da cidade. Isso muda completamente a experiência”, afirmou.
Questionados sobre o problema, os órgãos responsáveis costumam adotar um discurso recorrente, atribuindo os episódios, em sua maioria, ao escoamento de águas pluviais. Em casos de despejo irregular de esgoto, garantem que providências seriam tomadas. Na prática, no entanto, a realidade se repete ano após ano, alimentando uma percepção coletiva de abandono, falta de planejamento e baixa prioridade para o principal ativo econômico da capital: o turismo.
O urbanista e professor doutor da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Dilson Ferreira, classifica o problema como estrutural e amplamente conhecido pelo poder público. Segundo ele, apenas na orla de Maceió existem mais de 16 pontos visíveis de despejo de esgoto. “Esse esgoto na curva da Jatiúca existe há pelo menos 30 anos. Eu morei no bairro, surfava ali e ele já estava lá. Nenhum gestor resolveu”, relata.
Ferreira também aponta que o crescimento acelerado da cidade, impulsionado pela verticalização e pela valorização imobiliária da orla, não foi acompanhado por investimentos compatíveis em drenagem e saneamento básico. “A região cresceu muito, mas a rede de drenagem não acompanhou. O sistema está obsoleto. Quando chove, não dá conta, e o esgoto vai parar na praia. Isso acontece na Pajuçara, Ponta Verde, Jatiúca, Cruz das Almas e Pontal da Barra. Não é um caso isolado, é um sistema em colapso”, alerta.
O resultado é um paradoxo difícil de sustentar: enquanto Maceió se vende ao mundo como destino de mar azul, céu aberto e qualidade de vida, entrega em diversos trechos da orla um cenário incompatível com o discurso de turismo sustentável, seguro e de alto padrão. O impacto ultrapassa a experiência imediata do visitante. Ao retornar às cidades de origem, relatos negativos tendem a se multiplicar, afastando novos turistas e comprometendo o retorno daqueles que se sentiram enganados.
Sem uma solução definitiva à vista, o esgoto continua correndo a céu aberto, corroendo silenciosamente a credibilidade turística da capital alagoana. Mais do que um desafio ambiental ou urbano, a resolução do problema tornou-se uma urgência estratégica para o futuro do turismo em Alagoas.
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