Cidades

Outdoor do “ex-imperador” tenta reescrever a história e se apropriar de obra que não é sua

Redação 06/01/2026
Outdoor do “ex-imperador” tenta reescrever a história e se apropriar de obra que não é sua
Outdoor tenta dar paternidade a quem não é o pai da obra

Um outdoor instalado em Palmeira dos Índios tem causado indignação e risadas entre moradores ao atribuir a Júlio César — ex-prefeito do município e atual secretário de Estado — a entrega do Hospital Regional de Palmeira dos Índios, obra que não foi concebida, executada nem financiada por ele. No material publicitário, o político aparece em destaque celebrando “a maior obra da história” e elencando benefícios da unidade hospitalar, numa tentativa explícita de capitalizar politicamente um empreendimento alheio.

O hospital é uma obra do Governo de Alagoas, planejada e iniciada durante a gestão do então governador Renan Filho e concluída sob a administração do governador Paulo Dantas. Trata-se de um projeto estruturante da política estadual de regionalização da saúde, que independe completamente da atuação de Júlio César enquanto prefeito.

Ainda assim, o outdoor tenta vender à população a narrativa de que a obra seria um feito pessoal do ex-gestor municipal. A estratégia soa como propaganda enganosa e desrespeito à inteligência do cidadão, além de levantar questionamentos sobre o uso político da comunicação visual em espaço público para autopromoção.

A tentativa de reescrever os fatos é ainda mais grave quando se lembra que, durante a gestão municipal de Júlio César, Palmeira dos Índios conviveu com problemas crônicos na saúde básica, dificuldades de acesso a serviços especializados e dependência do próprio Estado para atendimentos de média e alta complexidade. O hospital regional, portanto, não nasce da Prefeitura, mas da decisão estratégica do Executivo estadual de interiorizar a assistência hospitalar.

Ao posar como “pai da criança”, o ex-prefeito repete um comportamento conhecido: apropriar-se de ações do Estado para construir capital político pessoal, sobretudo em ano pré-eleitoral. O título informal de “Imperador”, usado nos bastidores, ganha aqui um contorno ainda mais simbólico — o ex-imperador tenta governar a memória, como se pudesse decretar por outdoor aquilo que os fatos desmentem.

A obra pertence ao povo de Alagoas e à política pública estadual de saúde. Transformá-la em peça de marketing individual desvirtua o sentido da entrega, desrespeita os verdadeiros responsáveis e cria uma falsa narrativa histórica. Em vez de celebrar conquistas coletivas com honestidade, o outdoor opta pela usurpação simbólica.

Num momento em que a sociedade cobra transparência, verdade e responsabilidade, a propaganda escancara o oposto: vaidade política, personalismo e desinformação. A população de Palmeira dos Índios merece o hospital — e merece também que a história seja contada como ela é, não como alguns gostariam que fosse.