Cidades

Falece Maria Sena de Lira, aos 107, sertaneja foi testemunha da história de Arapiraca centenária

Sertaneja de Major Izidoro chegou a Arapiraca em 1960 e se dedicou com o marido à cultura do fumo

Redação Roberto Gonçalves 09/09/2024
Falece Maria Sena de Lira, aos 107, sertaneja foi testemunha da história de Arapiraca centenária

Faleceu na comunidade Carrasco onde residia com os familiares nesta segunda-feira, (09), dona Maria Sena de Lira, a brava sertaneja era mais velha que a cidade de Arapiraca que completa seu centenário no próximo dia 30 de outubro. Nasceu em Major Izidoro, Sertão de Alagoas no dia 1º de março de 1917.

Ainda criança foi com os pais para a cidade pernambucana de Garanhus com os pais, e na localidade rural de Santa Rosa se dedicou a cultura do café. Conta que trabalhava muito nessa atividade conseguindo sozinha, colher nove latas de 20 litros sozinha.

Casou-se em 1935 aos 18 anos, com João Tavares de Lira, teve 10 filhos e estão vivos, seis. Lembra que quando casou-se estava de luto, vestindo roupa preta em razão do falecimento de Padre Cícero do Juazeiro do Norte, em 1934. Passou alguns anos com os pais em Água Branca, alto Sertão de Alagoas.

Quando residiu em Água Branca ainda criança, lembra da invasão do grupo de Lampião aquela cidade para saquear o casarão da Baronesa de Água Branca, fato ocorrido na manhã do dia 23 de junho de 1922. Contou dona Maria Sena, que naquele dia foi um verdadeiro pesadelo para os habitantes de Água Branca.

A baronesa com 90 anos estava doente, acamada, o grupo de Lampião entrou pelos fundos do casarão adentrou e revirou tudo, levando dinheiro e joias da família Torres bastante influente em todo o Estado principalmente no Sertão de Alagoas. Os Torres eram muito ricos proprietários de muitas terra e gado, detalhou.

Mais velha que a cidade de Arapiraca

Dona Maria Sena de Lira é mais velha que a cidade de Arapiraca que completa o seu primeiro centenário no dia 30 de outubro deste ano. Ela contou que chegou a Arapiraca em 1960. Relata que nessa época, as ruas ainda não eram todas calçadas, a energia era produzida por gerador e funcionava apenas a noite e o apagar das luzes ocorreria as 22 h. Nessa época, existiam várias arvores na cidade e os homes amarravam os cavalos quando vinha para o então povoado fazer compras.

Relembra o sofrimento dos sertanejos e agrestinos na seca de 1970, “foi muito sofrimento, o gado morria de fome e sede, seu marido teve que vender oito cabeças de gado. Uma vaca que dava diariamente um balde de leite morreu de fome e sede, enquanto oito que sobreviveram foram vendidas muito magras, lamentou, Maria Sena em uma reportagem do blog em 2023.

Devota de Padre Cícero e Frei Damião de Bozano, sempre acompanhava e ouvia suas pregações nas missões. Uma das vezes que se confessou com o religioso ele a aconselhou a deixar de fumar. A partir desse dia nunca mais colocou um cigarro na boca” contou emocionada.

Em Arapiraca, se dedicou com o marido a cultura do fumo “Trabalhava por dia e noite destalando fumo nos salões e cantando com as outras mulheres as cantigas das destaladeiras de fumo”.

Relatou que conheceu vários negros que foram escravos e alguns já alforriados pelos senhores feudais da época. Conta que no seu casamento as comidas para os convidados foram feitas por um negra alforriada.

Dona Maria Sena de Lira é uma das raízes de Arapiraca e está imortalizada no Projeto Raízes de Arapiraca, idealizado pelo deputado estadual Ricardo Nezinho para preservar a história e os personagens de Arapiraca, que este ano completa o seu primeiro Centenário.