Brasil
Análise: decisões dos países amazônicos serão frustradas por modelo de desenvolvimento consumista
Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, analista aponta que o consumo ainda é a mola do desenvolvimento, e avalia que, enquanto esse for o modelo vigente, será difícil para países amazônicos da OTCA alcançarem as metas idealizadas para a COP30.
Em meio às investidas dos EUA para desestabilizar países latino-americanos, líderes da região se reuniram na semana passada em Bogotá, na Colômbia, para a V Cúpula dos Chefes de Estado, realizada pela Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA). O encontro reuniu líderes de oito países: Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela.
No encontro, os presidentes assinaram uma declaração na qual consolidaram o caminho iniciado com a Declaração de Belém, em 2023, com a renovação de compromissos com a agenda amazônica, definição de ações estratégicas para a COP30 e o fortalecimento da cooperação regional como base para proteger a Amazônia, garantir o bem-estar de seus povos e projetar a região na agenda global.
Dentre as ações estão o apoio da OCTA para o TFFF (Fundo Florestas Tropicais para Sempre, na sigla em inglês), iniciativa brasileira que será lançada oficialmente durante a COP30 em Belém (PA). O mecanismo propõe recompensar financeiramente os países que conservem suas florestas em vez de desmatá-las.
Outro ponto concordado foi a criação do Mecanismo Amazônico de Povos Indígenas (MAPI), que torna permanente a participação dos povos indígenas dentro da OCTA.
"Esta aliança entre governos e organizações indígenas tem todas as bases para ter sucesso na hora de cumprir um objetivo comum: cuidar da nossa floresta, da nossa casa. O futuro da humanidade passa pela valorização dos nossos territórios e pela transformação da relação entre os seres humanos e a natureza", afirmou a ministra dos Povos Indígenas do Brasil, Sônia Guajajara, que também será a primeira presidente do MAPI.
Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, Charles Pennaforte, coordenador do Laboratório de Geopolítica, Relações Internacionais e Movimentos Antissistêmicos (LabGRIMA) da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e professor da instituição, afirma que a grande desfio da questão "é o descompasso entre o que se pretende fazer e a realidade".
Vivemos em uma sociedade em que a "mola mestra" do desenvolvimento das nações é o consumo de bens, a compra e venda de produtos. Isso que gera uma grande pressão sobre os recursos naturais, diz Pennaforte, mesmo diante de experimentos de sustentabilidade e consumo consciente. Estes, diz o especialista, acabaram esbarrando "na questão fundamental do capitalismo, que é consumir".
"As pessoas têm que consumir. Então, vão fazer um telefone que dure 10 anos? Vão fazer um telefone para durar dois, três anos, no máximo, e você é obrigado a ter essa dinâmica de comprar outro. Tudo isso vai pressionando [o meio-ambiente]. E os países desenvolvidos, eles têm um papel fundamental nesse processo."
"Enquanto a gente tiver um modelo de sociedade global baseada no consumo isso vai ser muito difícil", explica.
Outro ponto de incongruência apontado por Pennaforte é a questão da transição energética, no qual o debate central mira o fim do uso dos combustíveis fósseis. Segundo ele, o grande problema é que estes jamais deixaram de existir por serem centrais à indústria petroquímica.
Nesse contexto, ele afirma que é vendida uma ideia de que "os países vão parar de explorar petróleo e isso vai resolver o problema", o que não condiz com a realidade.
"Grande parte das coisas que nós usamos, plásticos, embalagens, roupas, são derivadas do petróleo. A questão do petróleo não vai sair do debate econômico tão cedo porque praticamente é impossível. Existe toda uma sequência de uma indústria petroquímica que vive em função disso", afirma.
Por fim, Pennaforte afirma que falta uma maior integração aos países que participaram da cúpula para alcançar as metas idealizadas. "São realidades diferentes, níveis de desenvolvimento diferentes", resume.
"Vai passar aí um certo tempo para o pessoal conseguir se articular. Porque as questões internas de cada país pesam muito nesse aspecto. Então, teria que ter, basicamente, uma ideia muito clara do que se quer."
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