Graciliano ainda incomoda
Há homens que morrem.
E há homens que continuam vivos - não no corpo, mas naquilo que representam.
Graciliano Ramos morreu em 20 de março de 1953.
Mas, em Palmeira dos Índios, ele nunca foi embora.
Permanece.
E talvez permaneça justamente porque ainda incomoda.
Incomoda porque foi tudo aquilo que a política moderna desaprendeu a ser.
Foi escritor de verdade, desses que não escrevem para agradar, mas para expor. Não para enfeitar a realidade, mas para arrancar dela o que há de mais duro, mais cru, mais verdadeiro.
E foi gestor público de um tipo raro.
Um tipo que hoje quase parece ficção.
Graciliano foi prefeito de Palmeira dos Índios.
E governou como escreveu: sem maquiagem.
Não roubou.
E, mais do que isso - não deixou roubar.
Essa frase, por si só, deveria ser apenas o mínimo.
Mas virou exceção.
Virou símbolo.
Virou referência.
Virou incômodo.
Porque quando a honestidade se transforma em algo extraordinário, é sinal de que muita coisa saiu do lugar.
Graciliano não governava para agradar.
Não governava para fazer média.
Não governava para construir palanque.
Governava para resolver.
Era duro.
Seco.
Direto.
Como seus textos.
Não tinha paciência para bajulação.
Não tinha tolerância com desperdício.
Não tinha compromisso com interesses pequenos.
Tinha compromisso com a cidade.
E só.
Os relatórios que deixou, até hoje estudados, não são apenas documentos administrativos. São peças de caráter. São retratos de uma forma de governar que parece distante, mas que um dia existiu - e funcionou.
Ali não havia floreio.
Havia verdade.
Havia cobrança.
Havia responsabilidade.
E havia, sobretudo, uma coisa que hoje faz falta: respeito pelo dinheiro público.
Graciliano tratava o erário como algo sagrado.
Não como oportunidade.
Não como moeda de troca.
Não como instrumento de poder.
Mas como obrigação.
Talvez seja por isso que, tantos anos depois, seu nome ainda pesa.
Porque ele se tornou medida.
E quando existe medida, fica mais fácil perceber o desvio.
Fica mais fácil perceber quando a política se apequena.
Quando se perde em vaidades.
Quando se transforma em disputa mesquinha.
Quando abandona a função pública para servir a interesses privados.
Graciliano não aceitaria isso.
Não aceitaria perseguições.
Não aceitaria jogos de bastidores.
Não aceitaria o uso da máquina pública para controlar pessoas.
Não aceitaria a política pequena.
E não aceitaria, sobretudo, a normalização do erro.
Ele escreveu sobre a miséria humana, sobre a seca, sobre o sofrimento, sobre a dureza da vida no sertão.
Mas talvez nunca tenha imaginado que, décadas depois, o que mais faltaria não seria chuva.
Seria caráter.
Porque é disso que se trata.
Não é sobre passado.
Não é sobre nostalgia.
É sobre referência.
Uma cidade que teve um prefeito como Graciliano Ramos não pode se contentar com pouco.
Não pode achar normal o que é errado.
Não pode aceitar que a política se torne menor do que a sua própria história.
Palmeira dos Índios produziu um dos maiores escritores do Brasil.
Mas produziu também um exemplo de gestor público que continua atual.
Talvez mais atual do que nunca.
Porque, em tempos de confusão, de discursos vazios e de práticas questionáveis, lembrar de Graciliano é lembrar que existe outro caminho.
Mais difícil.
Mais duro.
Menos popular, talvez.
Mas infinitamente mais digno.
Graciliano não está nas ruas.
Não está nos gabinetes.
Não está nas decisões de hoje.
Mas está na memória.
E memória, quando bem usada, não serve apenas para lembrar.
Serve para cobrar.
Serve para comparar.
Serve para dizer, com todas as letras, que já foi melhor.
E que pode ser melhor de novo.
Porque homens como Graciliano não são apenas personagens da história.
São lembretes.
Lembretes de que é possível fazer política sem se perder.
De que é possível governar sem se vender.
De que é possível ocupar o poder sem se corromper.
E talvez seja exatamente por isso que, mesmo depois de morto há mais de sete décadas, ele ainda incomoda tanto.
Porque sua existência prova que não há desculpa.
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