Cidades não têm donos
Há uma ilusão antiga na política brasileira, especialmente no interior, que insiste em sobreviver ao tempo, às eleições e até ao bom senso. É a ilusão de que certas cidades têm dono.
Não têm.
Podem até ter quem mande por um tempo. Quem influencie. Quem articule. Quem distribua favores. Quem concentre poder. Quem faça da máquina pública uma extensão da própria vontade. Mas dono, não.
Cidade não é fazenda herdada.
Cidade não é empresa familiar.
Cidade não é capitania privada.
Cidade é patrimônio moral, histórico e humano de um povo inteiro.
E talvez uma das maiores tragédias de alguns municípios brasileiros seja justamente essa: quando parte da classe política passa a se comportar como se a cidade lhe pertencesse, e parte da população, cansada ou acostumada, começa a aceitar essa deformação como se fosse natural.
Não é.
Uma cidade não nasce para servir a projetos pessoais. Uma cidade não existe para alimentar vaidades. Uma cidade não pode ser reduzida à vontade de um grupo, de um sobrenome ou de uma engrenagem montada para se perpetuar no poder.
Mandatos passam.
Influências passam.
Estruturas políticas passam.
Mas a cidade fica.
Ela permanece com suas ruas, seus problemas, suas praças, suas memórias, suas feridas e suas esperanças. Permanece com o povo que acorda cedo, trabalha, paga impostos, enfrenta dificuldades e, no fim das contas, sustenta a vida pública de verdade, mesmo sem receber o reconhecimento devido.
É por isso que toda vez que um político age como se fosse proprietário de uma cidade, comete não apenas um erro administrativo, mas uma ofensa moral.
Ofende a inteligência coletiva.
Ofende a história do município.
Ofende a cidadania.
Porque quem ocupa o poder deve administrar em nome do povo, não em substituição ao povo.
Há cidades que sofrem não apenas com a falta de obras, de planejamento ou de liderança. Sofrem também com uma mentalidade. A mentalidade do mando. A lógica de que uns nasceram para decidir e outros para obedecer. De que uns podem tudo porque chegaram ao topo, e os demais devem apenas assistir, agradecer ou se calar.
Essa mentalidade é pequena.
E nenhuma cidade com história grande merece viver sob a pequenez política.
Palmeira dos Índios, como tantas outras cidades do interior nordestino, carrega em si uma grandeza que não cabe nessa lógica estreita de propriedade política. É terra de memória, de cultura, de inteligência, de nomes que marcaram a literatura, a arte, a vida pública. É chão de gente que pensa, sente, trabalha e sonha.
Uma cidade assim não pode ser tratada como patrimônio de ocasião.
Não pode ser governada como se fosse herança de família.
Não pode viver sob a sombra de interesses que se colocam acima do interesse público.
Porque quando uma cidade passa a girar em torno de vontades pessoais, ela deixa de ser república e começa a parecer corte.
E o problema das cortes é que nelas quase sempre há bajuladores, silenciosos convenientes e uma ideia perigosíssima de poder: a de que contestar é traição.
Não é.
Contestar pode ser, muitas vezes, um gesto de fidelidade à própria cidade.
Quem critica o abuso de poder não ataca o município. Quem denuncia práticas de mando não ofende a terra onde nasceu. Quem se recusa a aplaudir tudo não está sendo inimigo da cidade. Em muitos casos, está sendo justamente o contrário: está tentando salvá-la de se apequenar.
Toda cidade precisa, de tempos em tempos, reaprender essa lição básica: o poder público é transitório; a cidade, não.
Prefeitos passam.
Vice-prefeitos passam.
Secretários passam.
Grupos políticos passam.
Até figuras que pareciam incontornáveis acabam passando.
Mas a cidade continua. E continuará depois de todos eles.
É por isso que o verdadeiro compromisso de quem governa deveria ser com algo maior do que a próxima eleição. Deveria ser com o nome que deixará na história local. Com a marca que imprimirá não em paredes pintadas ou placas inaugurais, mas na dignidade institucional do município.
Governar uma cidade exige mais do que força política. Exige respeito.
Respeito à liturgia do cargo.
Respeito às instituições.
Respeito aos aliados, aos adversários e, sobretudo, à população.
Quando esse respeito se perde, o poder começa a se deformar. E um poder deformado sempre corre o risco de acreditar que pode tudo - inclusive tratar a cidade como se fosse extensão da própria vontade.
Mas não pode.
Porque cidade não tem dono.
Cidade tem povo.
Tem memória.
Tem identidade.
Tem filhos que sentem orgulho quando ela cresce e vergonha quando ela se degrada.
Tem cidadãos que, mesmo em silêncio por algum tempo, acabam despertando para uma verdade que nunca deveria ser esquecida: ninguém recebe procuração eterna para mandar em uma terra que pertence a todos.
Talvez o maior sinal de maturidade de uma população seja exatamente este: quando ela deixa de se comportar como plateia e volta a se comportar como dona legítima da própria história.
Porque o cidadão, este sim, tem uma espécie de propriedade moral sobre a cidade. Não no sentido do mando, mas no sentido do pertencimento. Ele pertence à cidade e a cidade lhe pertence em afeto, em responsabilidade, em direito de cobrar, em dever de participar.
É essa consciência que impede os abusos de prosperarem para sempre.
É essa consciência que recorda aos poderosos uma verdade incômoda: cargos são empréstimos, não títulos de nobreza.
E cidades não precisam de donos.
Precisam de servidores públicos dignos, líderes responsáveis e cidadãos acordados.
No dia em que essa ideia voltar a se enraizar com força no espírito coletivo, muita coisa começará a mudar. Porque toda estrutura de mando excessivo teme, acima de tudo, uma população que se lembra de quem realmente é.
E o povo, quando se lembra disso, deixa de se curvar diante de donos imaginários.
Passa a olhar a cidade de frente.
Passa a defendê-la.
Passa a exigir dela e para ela aquilo que sempre mereceu.
Porque cidades não têm donos.
Têm história.
Têm povo.
E têm dignidade demais para caber no bolso de qualquer um.
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