Quando a vergonha dói mais que a crítica
Confesso: nos últimos dias tenho sentido algo difícil de explicar. Não é apenas indignação. Não é apenas crítica política. É algo mais profundo.
É vergonha.
Vergonha de ver a cidade que aprendi a amar sendo tratada como se fosse um quintal de interesses. Vergonha de assistir, quase diariamente, ao desgaste moral e administrativo que tomou conta de Palmeira dos Índios. Vergonha de perceber que uma cidade que já foi referência intelectual e política hoje parece caminhar perdida, sem rumo, sem comando, sem dignidade pública.
E talvez a pergunta mais difícil de fazer seja esta:
Você, palmeirense, também se sente assim?
Envergonhado?
Ofendido?
Porque não estamos falando apenas de disputas políticas. Política sempre existiu, sempre existirá, e o debate faz parte da democracia. O que dói não é a divergência. O que dói é a sensação de decadência.
Dói olhar para a cidade e perceber sinais claros de degradação administrativa.
Dói ouvir, em cada esquina, comentários de que quem manda não é quem foi eleito. De que a cidade tem uma prefeita formal, mas que as decisões continuam orbitando em torno de outro centro de poder. De que o comando real não está no gabinete, mas nos bastidores.
E isso fere a dignidade de qualquer município.
Porque uma cidade não pode ser governada por sombras.
Palmeira dos Índios não merece isso.
Estamos falando de uma terra que já produziu luminares nas artes, na literatura, na política, na cultura. Uma cidade que respira história. Uma cidade que já foi sinônimo de inteligência pública e de protagonismo no interior de Alagoas.
Não é qualquer lugar.
É a terra que viu nascer escritores, artistas, pensadores e líderes que marcaram o estado. É uma cidade que ajudou a moldar a identidade cultural de Alagoas.
Por isso a sensação de vergonha dói mais.
Porque sabemos do que Palmeira é capaz.
Sabemos do que já foi.
Sabemos da grandeza que existe em sua história.
E exatamente por isso dói tanto ver o presente.
Dói ver equipamentos públicos abandonados.
Dói ver promessas que não saem do papel.
Dói ver uma cidade que parece administrada sem energia, sem rumo e, sobretudo, sem autoridade clara.
Mais doloroso ainda é perceber que parte da população começa a se acostumar com isso.
Como se fosse normal.
Não é.
Não é normal que uma cidade importante do interior viva sob permanente clima de intriga política.
Não é normal que a administração seja comentada nas ruas mais pelos conflitos internos do que pelas soluções para os problemas da população.
Não é normal que o poder público pareça mais ocupado com disputas de bastidores do que com iluminação pública, infraestrutura, desenvolvimento econômico e qualidade de vida.
E quando isso acontece, a vergonha não é apenas de quem governa.
É coletiva.
Porque uma cidade também é aquilo que seus cidadãos permitem.
E talvez esteja na hora de uma reflexão mais profunda.
Não se trata de atacar pessoas.
Não se trata de promover linchamentos políticos.
Trata-se de recuperar algo que parece ter sido perdido no meio do caminho: o orgulho de ser palmeirense.
Orgulho não nasce de propaganda.
Orgulho nasce de resultados.
Nasce de respeito.
Nasce de liderança.
Nasce de uma gestão que olha para a cidade com senso de responsabilidade histórica.
Quem ocupa o poder público em Palmeira dos Índios precisa entender uma coisa simples: o cargo não pertence à pessoa, pertence à cidade.
E a cidade não pode ser tratada como extensão de projetos pessoais ou familiares.
Palmeira dos Índios não tem dono.
Nunca teve.
E nunca terá.
O dono desta cidade é o povo.
E talvez seja justamente o povo que precise voltar a lembrar isso.
Porque cidades não se perdem apenas por culpa de maus governantes.
Às vezes se perdem pelo silêncio dos seus próprios filhos.
E a pergunta permanece no ar, ecoando pelas ruas, pelas praças, pelas conversas de fim de tarde:
Você também se sente envergonhado pelo que está acontecendo com Palmeira dos Índios?
Se a resposta for sim, talvez ainda haja esperança.
Porque toda mudança começa exatamente assim.
Quando a vergonha se transforma em consciência.
E a consciência se transforma em coragem.
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