Entre o samba e a mordaça: confete, esquecimento e realidade
Já estamos em pleno Carnaval. O som sobe, o tamborim chama, o trio elétrico avança e, por alguns dias, o Brasil aprende a suspender a gravidade. Fantasia, glitter, riso alto. A vida ganha ritmo de marchinha.
E, junto com a música, vem algo antigo: o esquecimento temporário.
O povo, que passa o ano enfrentando falta d’água, salário atrasado, saúde precária, promessas recicladas e escândalos que se acumulam, mergulha na folia como quem busca um intervalo da realidade. Não é alienação pura. É sobrevivência emocional. É o direito legítimo de ser feliz mesmo quando o cenário é duro.
Mas há algo curioso — e político — nesse fenômeno.
Durante o Carnaval, os problemas não desaparecem. Apenas ficam em silêncio. O buraco continua na rua, mas agora tem confete ao redor. A fila do hospital continua existindo, mas o som da bateria é mais alto. O debate público perde intensidade. A crítica perde volume. A indignação vira fantasia.
O festejo funciona como uma anestesia coletiva. Um ópio temporário que alivia, mas não cura.
Não se trata de condenar o Carnaval. A festa é patrimônio cultural, é catarse popular, é resistência social. O erro não está na alegria. Está em quem aposta que ela durará o suficiente para apagar a memória.
Porque a Quarta-feira de Cinzas sempre chega.
E quando chega, o glitter desce pelo ralo e a cidade reaparece exatamente como estava antes da folia. Às vezes, pior. A conta volta. A cobrança retorna. A realidade ocupa novamente o centro da praça.
O povo merece celebrar. Merece dançar. Merece sorrir. Mas também merece lembrar. Porque cidadania não entra em recesso.
Confete é leve.
Problema público é pesado.
E só um deles permanece depois que a música para.
QUANDO O CONFETE NÃO COBRE A CENSURA
E já que falamos de esquecimento e realidade, é impossível ignorar um fato grave que atinge diretamente a liberdade de imprensa.
A Tribuna do Sertão sofreu censura por meio de decisão judicial em Maceió, após ação movida pelo prefeito JHC, que tenta retirar do ar matérias que tratam de seu envolvimento político no caso do Banco Master.
O fato é objetivo: o Instituto de Previdência do Município de Maceió, presidido por pessoa nomeada pelo prefeito, investiu mais de R$ 97 milhões em títulos hoje considerados de altíssimo risco, vinculados ao Banco Master — instituição que se tornou centro de um escândalo nacional.
Diante disso, a imprensa fez o que deve fazer: noticiar, questionar, contextualizar.
A resposta? Uma ação judicial pedindo a retirada das matérias.
Isso não é apenas disputa jurídica. É tentativa de silenciamento. É usar a estrutura do poder para tentar calar a informação. A imprensa não investiu os recursos. Não nomeou dirigentes. Não autorizou aplicações. Apenas informou.
Se há equívoco, que se esclareça com documentos.
Se há contestação, que se debata com argumentos.
Mas retirar reportagem do ar é caminho perigoso.
Censura nunca foi instrumento de transparência.
E confete nenhum cobre a tentativa de mordaça.
Quando a festa passar, a democracia continuará precisando de algo essencial: liberdade para informar. Porque sem imprensa livre, o único som que fica é o do silêncio — e silêncio nunca foi sinal de boa gestão.
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