A festa continua, a cidade também

12/02/2026

Quinta-feira de Carnaval.


A música sobe, os blocos se organizam, o comércio vende fantasia, o povo se colore. A cidade ganha ritmo, sorriso, suor e tamborim. Por algumas horas, parece que tudo melhora. Parece.

Mas a verdade é que, enquanto a festa corre pelas ruas, os problemas continuam exatamente onde estavam. O buraco não fecha porque passou trio. A falta d’água não se resolve com serpentina. A saúde não melhora ao som da marchinha.

O povo brinca — e faz bem. Ninguém é de ferro. A alegria é direito legítimo. Mas, por trás do riso, permanece a pergunta silenciosa: e depois?

Porque a cidade não entra em recesso.

Em Palmeira dos Índios, os desafios seguem firmes: infraestrutura frágil, gestão questionada, promessas acumuladas. A sensação é de que o Carnaval funciona como pausa emocional, mas não como solução estrutural. É descanso da alma, não conserto da máquina pública.

E talvez o mais duro seja isso: a ausência de perspectiva.

O cidadão dança hoje, mas não enxerga obra amanhã.
Brinca agora, mas não vê plano futuro.
Sorri na avenida, mas volta para casa com a mesma dúvida: a cidade vai melhorar?

Carnaval é movimento. Gestão precisa ser também. A diferença é que a folia termina na Quarta-feira de Cinzas. A administração não pode terminar no calendário.

Há uma maturidade coletiva que começa a surgir. O povo sabe separar festa de governo. Sabe que alegria não substitui política pública. Sabe que glitter não tapa rachadura.

O problema não é brincar.
O problema é brincar porque não há muito mais o que esperar.

A cidade precisa de mais que trio elétrico. Precisa de direção. Precisa de planejamento. Precisa de respeito com quem paga imposto o ano inteiro.

Porque quando a música para, a realidade volta.

E ela nunca veio fantasiada.

Vladimir Barros

Vladimir Barros

É advogado militante, formado pela Universidade Federal de Alagoas e pós-graduado em Direito Processual e Docência Superior. Jornalista filiado ao Sindjornal/FENAJ, é membro efetivo da Associação Alagoana de Imprensa (AAI) e da Associação Brasileira de Imprensa; Editor do Jornal Tribuna do Sertão. É também membro da Academia Palmeirense de Letras (Palmeira dos Índios) e fundador da Rádio Cacique FM.