A festa continua, a cidade também
Quinta-feira de Carnaval.
A música sobe, os blocos se organizam, o comércio vende fantasia, o povo se colore. A cidade ganha ritmo, sorriso, suor e tamborim. Por algumas horas, parece que tudo melhora. Parece.
Mas a verdade é que, enquanto a festa corre pelas ruas, os problemas continuam exatamente onde estavam. O buraco não fecha porque passou trio. A falta d’água não se resolve com serpentina. A saúde não melhora ao som da marchinha.
O povo brinca — e faz bem. Ninguém é de ferro. A alegria é direito legítimo. Mas, por trás do riso, permanece a pergunta silenciosa: e depois?
Porque a cidade não entra em recesso.
Em Palmeira dos Índios, os desafios seguem firmes: infraestrutura frágil, gestão questionada, promessas acumuladas. A sensação é de que o Carnaval funciona como pausa emocional, mas não como solução estrutural. É descanso da alma, não conserto da máquina pública.
E talvez o mais duro seja isso: a ausência de perspectiva.
O cidadão dança hoje, mas não enxerga obra amanhã.
Brinca agora, mas não vê plano futuro.
Sorri na avenida, mas volta para casa com a mesma dúvida: a cidade vai melhorar?
Carnaval é movimento. Gestão precisa ser também. A diferença é que a folia termina na Quarta-feira de Cinzas. A administração não pode terminar no calendário.
Há uma maturidade coletiva que começa a surgir. O povo sabe separar festa de governo. Sabe que alegria não substitui política pública. Sabe que glitter não tapa rachadura.
O problema não é brincar.
O problema é brincar porque não há muito mais o que esperar.
A cidade precisa de mais que trio elétrico. Precisa de direção. Precisa de planejamento. Precisa de respeito com quem paga imposto o ano inteiro.
Porque quando a música para, a realidade volta.
E ela nunca veio fantasiada.
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