Quando o microfone incomoda mais que a verdade
Há vozes que incomodam não pelo tom, mas pelo conteúdo. Vozes que não gritam, mas insistem. Vozes que não se ajoelham diante do poder. Ontem, o radialista Cláudio André trouxe ao público uma denúncia grave e preocupante: estaria sendo alvo de perseguição política em razão do conteúdo crítico do programa que apresenta no rádio.
Segundo o relato feito no ar, o atual secretário de Estado e ex-prefeito de Palmeira dos Índios, Júlio César, estaria procurando comerciantes da cidade para convencê-los - ou constrangê-los - a retirar a publicidade do programa. Não se trata de discordância pública, nem de debate de ideias. Trata-se de algo mais grave: a tentativa de sufocar financeiramente um espaço de comunicação.
Quando o poder tenta calar uma voz pelo bolso, não está defendendo gestão alguma. Está atacando a democracia. A publicidade retirada à força não é escolha comercial; é coerção velada. É censura moderna, feita sem papel, sem carimbo, mas com peso político suficiente para gerar medo.
Esta crônica também vai ao ar no próprio programa de Cláudio André. E isso importa dizer. Porque falar disso no microfone não é vitimização — é coragem. É exercer o direito básico de informar o público sobre o que acontece nos bastidores do poder. O rádio, especialmente no interior, sempre foi mais do que entretenimento. É espaço de denúncia, de escuta popular, de contraditório.
Quem ocupa cargo público precisa entender algo elementar: crítica não é perseguição; perseguição é tentar silenciar a crítica. Não se responde a um programa de rádio com telefonemas a comerciantes. Responde-se com trabalho, transparência e resultado. Quando o argumento acaba, alguns recorrem à intimidação. E isso diz muito.
Palmeira dos Índios já viveu outros tempos de pressão, de tentativas de calar jornalistas e comunicadores. Nenhuma deu certo. Porque a palavra encontra sempre um caminho. Quanto mais se tenta abafá-la, mais ela ecoa.
A denúncia feita por Cláudio André não é um ataque pessoal. É um alerta público. Hoje é um programa de rádio. Amanhã pode ser qualquer outro espaço de opinião. E quando isso acontece, o problema deixa de ser individual e passa a ser coletivo.
Governos passam. Cargos são temporários.
Mas o microfone continua.
E a verdade, quando dita, não aceita mordaça.
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