Não gostou do SUS? Pague”. A frase que desmascarou o desprezo
Há frases que não são apenas infelizes. São reveladoras. Escancaram caráter, visão de mundo e, sobretudo, o abismo que separa certos políticos da vida real. Quando o ex-prefeito Júlio César disse, em rede social, que quem não estivesse satisfeito com o Sistema Único de Saúde deveria “fazer um plano de saúde”, ele não cometeu um deslize. Ele confessou.
Confessou que não entende - ou finge não entender - para quem existe o SUS.
Confessou que governa (ou governou) olhando para cima, nunca para a fila.
Confessou que perdeu a medida do bom senso, da humildade e da sanidade política.
Em Palmeira dos Índios, onde a maioria da população depende exclusivamente do SUS, a frase soou como tapa no rosto. Não foi orientação. Foi afronta. Não foi análise comparativa com Europa ou Estados Unidos — foi desprezo pela realidade de quem não consegue pagar um plano, nem hoje, nem amanhã, nem nunca.
Dizer “faça um plano de saúde” a quem espera horas numa UPA superlotada é como dizer “compre um carro” a quem anda a pé porque o transporte público não passa. É terceirizar a responsabilidade do Estado para o bolso do cidadão. É admitir, sem rubor, que o poder público falhou - e que não pretende consertar.
O mais grave é o contexto. A fala veio no meio de denúncias de caos no atendimento, relatos de superlotação, dificuldades na UPA, sofrimento de usuários e de profissionais. Em vez de cobrar providências da gestão municipal - hoje comandada por sua tia, Luísa Júlia — o ex-prefeito preferiu atacar críticos, chamar de oportunismo aquilo que é dor real e empurrar a solução para o mercado privado.
Defender profissionais de saúde é justo. Minimizar o sofrimento do paciente, não. Uma coisa não exclui a outra. O SUS não é favor. É direito constitucional. É financiado por impostos pagos inclusive por quem recebe a resposta cínica de que “procure um plano”.
Comparar o SUS a sistemas estrangeiros para justificar sua precariedade local é truque retórico velho. O SUS, com todos os seus problemas, é uma das maiores políticas públicas do mundo. O que o adoece não é sua existência - é a má gestão, o improviso, o desinteresse político. Dizer o contrário é culpar a ferramenta para absolver quem a usa mal.
A frase também revela algo mais profundo: a naturalização da exclusão. Se não funciona para todos, que funcione para quem pode pagar. O resto que se vire. É a lógica perversa de quem transforma direito em mercadoria e sofrimento em estatística.
Júlio César não falou como cidadão comum. Falou como político experiente, hoje secretário estadual, figura influente, conhecedor do peso das palavras. Por isso, a gravidade é maior. Não foi ignorância. Foi escolha.
Quando um político manda o povo “comprar um plano”, ele abdica de governar.
Quando ele minimiza a dor, ele rompe o pacto social.
Quando ele ironiza a miséria, ele se desqualifica para o serviço público.
Palmeira dos Índios vive uma crise de saúde. Vive, também, uma crise de sensibilidade no poder. A frase não é apenas ofensiva. Ela é sintoma de um projeto que desistiu do público e se acomodou ao privado.
O SUS não é o problema.
O problema é quem trata o SUS - e o povo - como descartáveis.
E isso, a população entendeu. Porque há limites. E eles foram ultrapassados.
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