Quando a terra cede e quando a cidade afunda sozinha

09/01/2026
Quando a terra cede  e quando a cidade afunda sozinha
Casa destruída no bairro Pinheiro em Maceió - Foto: Reprodução

Maceió aprendeu, da pior forma possível, que o chão também pode trair. Primeiro foram seis bairros - Pinheiro, Mutange, Bebedouro, Bom Parto, Farol e adjacências - engolidos lentamente por um silêncio que rachava paredes e corações. O responsável, hoje reconhecido, foi um crime geológico-industrial que entrou para a história do país: a exploração predatória da Braskem.

Como se não bastasse o trauma coletivo, surge agora um novo alerta. Um aviso que não vem de palanque, nem de boato, mas da técnica, da ciência, do estudo. O engenheiro Marcos Carnauba, ex-presidente do Instituto do Meio Ambiente de Alagoas e ex-coordenador do DNOCS, acendeu a luz vermelha: há risco de afundamento no bairro de Ponta Verde.

O motivo não é mineração, não é sal-gema, não é explosão subterrânea. É algo ainda mais simbólico dos nossos tempos: o peso excessivo das edificações. Estudos de uma universidade alemã, em Potsdam, indicam que o solo pode não suportar a carga vertical imposta por prédios cada vez mais altos, mais pesados, mais concentrados. A terra, exausta, dá sinais de fadiga. E quando o solo avisa, ignorar é sempre um erro caro.

O drama de Maceió, portanto, ganha um novo capítulo. Não basta reconstruir vidas deslocadas, indenizar famílias, apagar cicatrizes urbanas. É preciso aprender. Planejar. Respeitar limites físicos que não se dobram a interesses imobiliários nem a pressões econômicas. A natureza não negocia. Ela reage.

E é aqui que o paralelo com Palmeira dos Índios se impõe - cruel, mas necessário.

Palmeira não precisou de um acidente geológico provocado por indústria alguma. Não precisou de estudos alemães nem de prédios colossais à beira-mar. Lá, o afundamento veio por outro caminho: pela política. Bastou uma gestão desastrada somada a uma concessão caríssima, anunciada em 100 milhões de reais, cujo destino ninguém conseguiu explicar até hoje, para que a cidade começasse a ceder.

Cedeu o asfalto, rasgado pelas obras intermináveis da Águas do Sertão.
Cedeu o abastecimento de água, irregular, ausente, humilhante, imposto pela cessionária.
Cedeu a confiança do povo, que paga caro por um serviço que não funciona.

A concessionária Águas do Sertão não afundou casas por falha do subsolo, mas afundou a rotina da cidade. Afundou o comércio, a paciência, a dignidade cotidiana. Em Palmeira, não foi a terra que cedeu - foi o poder público que ruiu.

Maceió afunda quando ignoram a ciência.
Palmeira afunda quando ignoram a responsabilidade.

Em ambas, o resultado é o mesmo: população em risco, vidas impactadas, cidades desfiguradas. Uma pelo excesso de peso concreto. A outra pelo excesso de improviso, descaso e silêncio.

O alerta de Marcos Carnauba não é apenas técnico. É simbólico. Ele nos lembra que cidades têm limites - físicos, sociais e morais. Quando esses limites são ultrapassados, o chão some. Às vezes sob os pés. Às vezes sob a esperança.

E a pergunta que fica, incômoda como rachadura em parede antiga, é simples: vamos esperar o próximo afundamento para agir?

Vladimir Barros

Vladimir Barros

É advogado militante, formado pela Universidade Federal de Alagoas e pós-graduado em Direito Processual e Docência Superior. Jornalista filiado ao Sindjornal/FENAJ, é membro efetivo da Associação Alagoana de Imprensa (AAI) e da Associação Brasileira de Imprensa; Editor do Jornal Tribuna do Sertão. É também membro da Academia Palmeirense de Letras (Palmeira dos Índios) e fundador da Rádio Cacique FM.