A cidade que viu um rio de dinheiro virar poeira
Há cidades que crescem em silêncio, outras que encolhem sem alarde. E há aquelas que, mesmo diante da maior oportunidade de suas histórias, conseguem a proeza de desperdiçar o futuro — como quem joga fora, por descuido ou soberba, a única carta boa que recebeu na vida.
Palmeira dos Índios pertence à terceira categoria. A mais triste.
Porque não é todo dia que cai no colo de um município do interior a quantia de R$ 115 milhões, dinheiro vivo, limpo, imediato, capaz de inaugurar uma era, virar página, abrir horizontes. Não é todo dia que uma cidade pobre recebe, de uma só vez, aquilo que outros lugares levam décadas para juntar em obras, emendas e lutas políticas.
Mas Palmeira recebeu.
E o que fez?
Nada.
Pior que nada: destruiu a oportunidade.
Quando a outorga da água caiu nas mãos do então gestor, era como se a cidade tivesse encontrado um rio subterrâneo, secreto, inesgotável. A população esperava pontes, escolas-modelo, parques, centros culturais, vias urbanizadas, planejamento, ousadia. Havia quem sussurrasse que, enfim, Palmeira entraria no século XXI com os dois pés — sem improvisos, sem remendos, sem tapar buracos com pano velho.
Mas o que veio depois não foi um rio.
Foi um ralo.
E nele sumiu a maior quantia que esta cidade já viu desde a sua fundação, há 136 anos.
O dinheiro que poderia ter erguido um teatro digno do tamanho cultural de Palmeira, virou folha de pagamento.
O dinheiro que poderia ter levantado um centro de convenções que atraísse congressos, eventos, empregos, virou combustível.
O dinheiro que poderia ter revitalizado a cidade, criado ciclovias, parques, equipamentos públicos, virou tarifas bancárias.
O dinheiro que poderia ter mudado a vida de uma geração, virou locação de veículos, gráfica, publicidade, viagens, aluguéis, repasses controversos.
E mais grave: virou duodécimo pago com verba que não podia compor duodécimo, numa manobra que afronta jurisprudência, lógica e decência.
Foi assim que os milhões se dissolveram no cotidiano trivial de uma gestão que tratou o extraordinário como ordinário.
Que queimou o futuro para alimentar o presente.
Que transformou a chance histórica de um salto em nada além de sobrevivência política.
Palmeira perdeu o bonde — e perdeu porque alguém decidiu que o passado valia mais do que o futuro.
Hoje, percorremos as ruas e vemos a cidade do mesmo tamanho de antes. Mesmos problemas. Mesmas carências. Mesma ausência de equipamentos públicos que façam jus ao status de quarta maior cidade de Alagoas. Não temos teatro. Não temos cinema. Não temos centro administrativo. Não temos parque urbano. Não temos ciclovia. Não temos campo de pouso funcional. Não temos nada que reflita a passagem de R$ 115 milhões pelos cofres municipais.
O dinheiro passou.
A cidade ficou.
E ficou como estava.
Mas há algo pior que a ausência de obras: é a ausência de responsabilidade.
Porque dinheiro não evapora — ele é gasto.
E quem gasta, responde.
O ex-gestor que comandou a prefeitura quando os milhões chegaram não pode fingir que não sabe. Não pode fingir que não viu. Não pode fingir que não assinou. Não pode fingir que não escolheu gastar com rotinas aquilo que deveria ser investido em pilares.
O futuro de Palmeira não foi roubado durante a madrugada, nem sequestrado por inimigos, nem perdido por acidente.
Ele foi consumido, dia após dia, em decisões administrativas tomadas de forma consciente — e, acima de tudo, levianas.
E Palmares agora paga o preço: seguimos sem obras históricas, mas com um prejuízo histórico.
Há cidades que renascem das cinzas.
Outras renascem quando assumem suas vergonhas.
Talvez seja esse o caminho: encarar o espelho, admitir o fracasso e apontar, com nome e sobrenome, quem desperdiçou a maior fortuna já entregue a esta terra.
Porque uma cidade só amadurece quando aprende a responsabilizar seus gestores.
Só avança quando exige prestação de contas verdadeira.
E só cresce quando entende que dinheiro público não é favor, é legado.
A outorga da água foi uma oportunidade única — e única, como toda oportunidade única, não volta.
Palmeira dos Índios esperava um futuro.
E recebeu apenas despesas.
Esperava desenvolvimento.
E recebeu apenas custeio.
Esperava obra.
E recebeu nota fiscal.
Se existe um símbolo para esse período, ele é simples:
um ralo.
Por onde escorreu o maior volume de recursos de toda a história da cidade.
Um ralo responsável por transformar a chance de ouro de uma geração em mais um capítulo amargo da nossa crônica municipal — capítulo que, queira ou não o ex-gestor, traz o seu nome escrito em letras indeléveis.
Porque o futuro que ele não construiu, a cidade jamais esquecerá.
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