Eu não sou um macaco
Apesar de geneticamente ser 98,4 % indistinto de um chimpanzé moderno e classificado, junto com os macacos, na superfamília dos macacos, o ser humano não é um macaco. Também é falsa a versão do senso comum que deturpa Darwin dizendo que, conforme a teoria da evolução, o “homem veio do macaco”. O ser humano pertence à família Hominidae, classificação que o agrupa ao conjunto dos hominídeos, isto é, os seres mais próximos de nós do que o chimpanzé moderno. Nós, da espécie Homo sapiens, pertencemos a uma linhagem que começa com o Homo habilis, passando pelo Homo ergaster, Homo neanderthalensis, Homo rudolfensis, Homo heidelbergensis, Homo erectus e Homo antecessor. Já o macaco atual é de outra família: a Pongidae. Portanto, apesar de tantas semelhanças, cada um teve uma linhagem diferente, e a ancestralidade humana não inclui o macaco.
Desde domingo repercute globalmente a atitude racista de um torcedor europeu que jogou uma banana para o jogador brasileiro Daniel Alves, que respondeu dignamente à provocação comendo a banana e cobrando um escanteio que rendeu um gol para o time vitorioso da partida. No entanto, o gesto do torcedor é negativamente simbólico: ao jogar a banana, ele pretendeu chamar o jogador de macaco, não num sentido de recuperar nossa relação com as outras formas de existência: ele quis, tomado pré-noções do senso comum, hierarquizar os seres inferiorizando espécies. E resta claro que, sendo uma atitude racista, a intenção mesma, ao chamar o jogador de “macaco”, era dizer que o jogador era de um “ser inferior”. Negativamente simbólica também foi a manifestação de solidariedade que até então tomou conta das mídias mundo afora, arquitetada pela Loducca, uma das maiores agências de publicidade do país, tendo Neymar como garoto-propaganda. Além do uso da hashtag #SomosTodosMacacos, há um vídeo da agência explicando a campanha e há camisetas com o tema à venda, encontráveis, inclusive, na loja virtual do apresentador global Luciano Huck.
O que há de terrível em se participar dessa campanha é, primeiramente, a tolice de assumir-se exatamente como aquilo que o racista está lhe chamando, independentemente da palavra que utilize para ofendê-lo: inferior, vazio de dignidade humana. Em segundo lugar, não sendo isenta de lucro oportunista, ela explora, mascara e perpetua uma cruel realidade brasileira: a opressão sistemática das minorias; o preconceito, o extermínio, a morte dirigidos a populações específicas.
Reafirmar a dignidade humana diante do racismo não é assumir para si o discurso do racista. Reafirmar a dignidade humana diante do racismo é dizer: “Eu não sou um macaco. Eu sou um ser humano. Me respeite!”.
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