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O sucesso do astro
Uma multidão aguardava ansiosa a apresentação do famosíssimo cantor, que pela primeira vez iria se apresentar naquela pequena cidade.
Astro da música sertaneja universitária, o cantor degustava suas uvas brancas com champanhe francês no camarim cinco estrelas.
Cercado por uma tropa de assessores, empregados e puxa-sacos, o artista reclamava da situação:
— Isso é o cúmulo! Já estou num patamar onde não deveria me apresentar nessas cidadezinhas furrecas! Meu lugar é em Barretos, Jaguariúna ou nas grandes casas de São Paulo!
Um dos assessores tenta explicar ao astro soberbo:
— Está em seu contrato. Esse show está marcado desde o ano passado quando você ainda não tinha estourado no TikTok.
— Não aguento mais esses showzinhos em festas de quinta categoria. Esse povo feio, essas cidades feias!
Outro assessor avisa que alguns jornalistas da cidade e região esperavam por uma entrevista antes da apresentação. O astro milionário fez cara feia, mas decide atender a imprensa.
— Você esperava esse sucesso todo? – Pergunta o repórter da rádio local.
O cantor com um sorriso falso, responde olhando todos os repórteres como se fossem velhos conhecidos:
— Claro. Investi muito em minha carreira e agora estou colhendo os frutos de meu talento.
— E os fãs, você agradece a eles?
— Agradeço. Graças aos fãs que lotam meus shows e baixam minhas músicas, hoje estou no topo.
— E é legal ouvir o público cantando suas músicas?
— Todos sabem minhas canções. Minhas músicas são sucesso em todo Brasil e também na América Latina. Agora, estou começando a fazer sucesso também na Europa. Podemos dizer que minha música é a melhor do mundo!
— E a nossa cidade? O que achou das pessoas?
— Com a cara mais falsa ainda, o cantor responde:
— Não conhecia a cidade ainda, mas é linda. O público é mais lindo!
Após a entrevista, o cantor acompanhado de seus assessores volta ao camarim para esperar o início do show.
— Não aguento mais esses reporterzinhos de nada, se fossem de um grande portal ou da rede Globo!
Realmente o astro estava estressado e reclamava, enquanto recebia uma relaxante massagem de uma assessora.
O público estava eufórico, o show marcado para as 22 horas estava três horas atrasado, mas a multidão não arredava o pé. A toda hora gritavam o nome do cantor. Algumas tietes histéricas choravam, outras não desgrudavam os olhos do palco na expectativa de verem o astro do momento.
Finalmente, as luzes se apagam. Um silêncio medonho toma conta do local. A música de abertura é tocada e um show pirotécnico causa medo nos desavisados. Entram as dançarinas com a barriga e as coxas de fora, para delírio dos marmanjos. A banda começa uma apresentação instrumental e a abertura chega ao ápice quando o famosíssimo cantor entra no palco para delírio, histeria, desmaios e loucuras do público.
A banda para, e o cantor com o microfone em punho com um de seus sorrisos falsos grita:
— E aí pessoal! Vocês terão um show que jamais esquecerão!
A plateia fica em silêncio para ouvir o astro que levanta o braço, aponta o dedo para a plateia e pergunta:
— Que sucesso vocês querem ouvir?
E uma voz entoa no meio da multidão, quebrando o misterioso silêncio daquele momento:
— Toca Raul!!!
RODRIGO ALVES DE CARVALHO nasceu em Jacutinga (MG). Jornalista, escritor e poeta, possui diversos prêmios em vários estados e participação em importantes coletâneas de poesia, contos e crônicas promovidas por editoras e órgãos literários. Atualmente colabora com suas crônicas em conceituados jornais brasileiros e Blogs dedicados à literatura.
Em 2018, lançou seu primeiro livro intitulado “Contos Colhidos”, pela editora Clube de Autores. Trata-se de uma coletânea com contos e crônicas ficcionais, repleto de realismo fantástico e humor. Também pela editora Clube de Autores, em 2024, publicou o segundo livro: “Jacutinga em versos e lembranças” - coletânea de poemas que remetem à infância e juventude em Jacutinga, sua cidade natal, localizada no sul de Minas Gerais. Em 2025, publicou o terceiro livro “A saga de Picolândia” - série de relatos sociopolíticos acontecidos em Picolândia – uma pequena cidade do interior, cuja sua principal fonte de renda é a produção de sorvetes. Com um tom humorístico e irônico, com uma pitada de realismo fantástico, a obra reúne diversas crônicas engraçadas narradas por um morador desta cidade.
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