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O custo emocional do excesso
Durante muitos anos, o mercado corporativo romantizou o excesso. Jornadas intermináveis, pressão constante, hiperdisponibilidade e ambientes emocionalmente desgastantes eram frequentemente confundidos com comprometimento, ambição e alta performance. Havia quase um status em viver cansado. O problema é que a conta começou a chegar e ela veio alta. O Brasil já figura entre os países com maior incidência de burnout e lidera rankings globais relacionados à ansiedade, refletindo um cenário preocupante de adoecimento emocional, relações fragilizadas, perda de sentido e uma geração inteira questionando o modelo de sucesso que aprendeu a admirar.
As pessoas continuam buscando crescimento, carreira, dinheiro e reconhecimento. A diferença é que agora elas querem tudo isso sem destruir completamente a própria saúde mental no processo. Qualidade de vida, equilíbrio emocional, flexibilidade e lideranças mais humanas deixaram de ser benefícios desejáveis para se tornarem critérios reais de permanência e escolha profissional. O que mudou não foi a vontade de crescer, mas a disposição de adoecer para isso.
O mercado começou a perceber que não existe crescimento sustentável em ambientes emocionalmente tóxicos. De pouco adianta investir milhões em inovação, tecnologia e branding enquanto culturas desgastantes corroem engajamento, criatividade e permanência de talentos. Ainda assim, saúde mental não é uma equação de responsabilidade única. Empresas influenciam diretamente a qualidade das relações e do ambiente de trabalho, mas também existe uma dimensão individual ligada ao autoconhecimento, aos limites emocionais e à maneira como cada pessoa aprende a lidar com pressão e frustração.
Nenhuma empresa consegue fazer o trabalho emocional que cabe exclusivamente à própria pessoa. Autoconhecimento, maturidade emocional, inteligência relacional, capacidade de lidar com frustração, pressão, críticas, limites e adversidades continuam sendo responsabilidades individuais. É preciso lembrar que nem todo desconforto é assédio e nem toda cobrança é abuso, assim como nem toda frustração é trauma. O ambiente corporativo continuará exigindo adaptação, convivência com divergências, resiliência e capacidade de sustentar pressão.
O problema é que vivemos em uma sociedade emocionalmente cansada, hiperestimulada e ansiosa. As pessoas estão mais sensíveis, mais aceleradas e, muitas vezes, menos preparadas emocionalmente para lidar com frustração, espera, conflito e desconforto. Ao mesmo tempo, as empresas também estão tentando aprender a equilibrar alta performance com ambientes mais saudáveis. E talvez esse seja um dos maiores desafios da liderança moderna. Nesse cenário, inteligência emocional deixou de ser soft skill e se tornou competência crítica de sobrevivência profissional e humana.
O futuro provavelmente pertencerá menos aos profissionais que sabem tudo (ou que acreditava saber) e mais àqueles que conseguem unir competência técnica com inteligência emocional, flexibilidade, maturidade relacional e equilíbrio humano. E talvez aqui esteja um ponto fundamental: inteligência emocional não significa ausência de dor, medo, ansiedade ou frustração. Significa desenvolver a capacidade de atravessar essas emoções sem permitir que elas dominem completamente sua vida, suas decisões e suas relações, o que exige protagonismo, afinal, existe uma decisão profundamente individual que ninguém pode tomar por você: qual preço você quer pagar pela vida que está construindo?
Saúde mental não é apenas sobre reduzir o estresse no trabalho, mas sobre construir uma vida que você consiga sustentar emocionalmente sem precisar desaparecer de si mesmo no processo. Afinal, de que adianta conquistar reconhecimento e sucesso profissional se, no caminho, você perde a própria paz e a capacidade de aproveitar a vida que tanto lutou para construir?
David Braga – CEO, board advisor e headhunter da Prime Talent Executive Search, empresa de busca e seleção de executivos, presente em 30 países e 50 escritórios pela Agilium Group. Presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH-MG); É conselheiro de Administração e professor pela Fundação Dom Cabral e Presidente do Conselho de Administração da ONG ChildFund Brasil. Instagrams: @davidbraga | www.davidbraga.com.br
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