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Neymar e o retrato de um Brasil dividido
Antes, vestir a camisa amarela unificava o país. Hoje, a Seleção Brasileira espelha nossa fragmentação política

A divulgação da lista de convocados da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo sempre provocou debates. É natural que assim seja: trata-se de um momento único em que expectativas esportivas, preferências pessoais e avaliações técnicas se encontram. O que chama atenção neste ano, porém, é que a discussão extrapolou os limites das quatro linhas.
Com Neymar confirmado entre os representantes do Brasil, o debate em torno de seu nome não se encerra. Ao contrário, revela uma transformação mais profunda na sociedade brasileira. Para o torcedor, já não basta apenas saber se o jogador reúne condições técnicas para disputar mais um Mundial. O que está em jogo é o significado atribuído a ele.
Tenho observado que a polarização política no país ultrapassou o ambiente tradicional das disputas eleitorais e começou a entrar em espaços que, historicamente, funcionavam como pontos de convergência nacional. A Seleção Brasileira é, talvez, o exemplo mais emblemático desse processo.
Durante décadas, vestir a camisa amarela foi um gesto que unificava o país. Diferenças políticas, sociais, regionais e até religiosas eram momentaneamente suspensas em prol de um sentimento coletivo. Hoje, esse espaço simbólico também ficou tensionado.
O caso de Neymar é ilustrativo. A partir de seu posicionamento político público, especialmente nos últimos anos, o atleta virou um símbolo associado a determinado campo ideológico. Ou seja, a imagem de jogador ganhou também interpretações políticas além do gramado.
Esse fenômeno não diz respeito somente ao Camisa 10. Ele reflete uma mudança mais ampla: atletas, artistas e outras figuras públicas já são enquadrados automaticamente em espectros ideológicos, independentemente do contexto em que atuam. A consequência é a dificuldade crescente de dissociar a pessoa de suas posições, reais ou até mesmo presumidas.
Portanto a discordância não é mais exclusiva do debate público. Hoje, tornou-se praticamente um marcador de identidade. Isso significa que se aproximar ou se distanciar de um nome como o de Neymar, em muitos casos, é uma forma de afirmar o próprio posicionamento (e pertencimento) político.
Isso ajuda a explicar por que uma decisão que deveria ser essencialmente técnica (a convocação de um jogador, por exemplo) desperta reações tão intensas e, muitas vezes, previsíveis. A avaliação esportiva trocou de lugar com uma leitura ideológica.
O problema, a meu ver, não está em o futebol dialogar com a sociedade. Esse diálogo sempre existiu. O que se observa agora, contudo, é a dificuldade de preservar espaços comuns em um cenário de crescente fragmentação.
A Seleção Brasileira, que por tanto tempo simbolizou um raro encontro entre diferentes, já reflete as mesmas divisões que marcam o restante da vida pública. E isso não é trivial. Quando até mesmo os símbolos nacionais se tornam objeto de disputa identitária, algo relevante mudou na forma como nos relacionamos enquanto sociedade.
*Christian Lohbauer é mestre e doutor em Ciências Políticas pela USP e professor universitário desde 1998, e autor do livro “Fala, professor! Política para a nova geração”.
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