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O petróleo não quebra empresas; a dependência do crédito reativo, sim
A recente decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de elevar a Selic para 14,75% ao ano não é apenas um dado estatístico; é a confirmação de um cenário que já vínhamos antecipando: o custo do dinheiro no Brasil permanecerá proibitivo por muito mais tempo. Parte dessa pressão é importada. A escalada das tensões geopolíticas globais em março de 2026 reacendeu a volatilidade das commodities, com o petróleo Brent contaminando cadeias produtivas e elevando custos logísticos de forma sistêmica.
O efeito é um dominó perverso: a inflação sobe, o espaço para cortes de juros desaparece e o ambiente financeiro torna-se restritivo. Mas o debate morre no lugar errado. Não é o petróleo, isoladamente, que trava o crescimento das empresas brasileiras. O que sufoca o setor produtivo é a estrutura de um crédito caro, concentrado e, acima de tudo, reativo.
No Brasil, ainda predomina uma cultura financeira perigosa: a empresa cresce sem estruturar sua estratégia de capital e só recorre ao crédito quando o problema já está instalado. É nesse momento de vulnerabilidade que ela encontra as piores taxas e o menor apetite de risco das instituições tradicionais. O resultado é visível em níveis recordes de inadimplência. O crédito não pode ser um botão de emergência; ele precisa ser parte da engenharia do negócio desde o primeiro dia. Enquanto as empresas dependerem exclusivamente de um sistema financeiro concentrado, qualquer choque externo terá um impacto desproporcional sobre sua sobrevivência.
A Estratégia dos Mini Bancos e a "FIDC-ização"
A boa notícia é que uma virada estrutural está em curso. Empresas começaram a entender que a autonomia financeira é a melhor defesa contra a volatilidade, impulsionando o movimento que chamamos de "FIDC-ização" do balanço. Com o mercado de FIDCs projetado para atingir a marca histórica de R$ 1 trilhão ainda em 2026, as companhias estão deixando de ser meras consumidoras de crédito para se tornarem gestoras de suas próprias plataformas de financiamento por meio da estruturação de Mini Bancos.
Ao assumir essa postura, a empresa deixa de ser refém das oscilações de humor dos grandes bancos e passa a financiar o seu próprio ecossistema. Na prática, o Mini Banco permite que a organização utilize recursos próprios ou de investidores para prover crédito a clientes e fornecedores, capturando margens financeiras que antes ficavam retidas no sistema bancário. Essa estrutura vai além do ganho financeiro imediato: ela gera uma eficiência tributária vital para empresas no regime de Lucro Real e oferece uma resposta automática aos desafios da reforma tributária, como o split payment, integrando a retenção de impostos diretamente ao fluxo de caixa. Ao transformar recebíveis em ativos estratégicos, o empresário ganha a previsibilidade necessária para atravessar ciclos de liquidez sistêmica sem paralisar sua operação.
Em um cenário de juros a 14,75%, o domínio do próprio crédito não é mais um diferencial competitivo; é sobrevivência. Episódios recentes de instabilidade no sistema bancário tradicional elevaram o rigor dos investidores, que agora buscam estruturas com lastro claro e governança robusta. Modelos descentralizados de crédito oferecem exatamente essa transparência, permitindo que o médio empresário sustente seu crescimento mesmo quando as torneiras do mercado tradicional se fecham.
O próximo choque econômico não é uma possibilidade; é uma certeza. A diferença entre as empresas que continuarão de pé e as que ficarão pelo caminho será decidida por quem tomou as rédeas da sua estratégia financeira antes da tempestade chegar. No Brasil de 2026, quem domina o próprio crédito, domina o seu destino.
*Thiago Eik é fundador da fintech Bankme
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