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A mulher da capa preta

Carlito Peixoto Lima 20/03/2026
A mulher da capa preta
Carlito Peixoto Lima - Foto: Arquivo

Adalberon cursava a Faculdade de Direito no Recife nos anos 50. Orgulhava-se de ser universitário, vestia-se bem, adorava se exibir. Fazia sucesso entre as garotas quando chegava a Maceió.

No último ano do curso, ele aproveitou as férias juninas. Foi convidado para uma festa de 18 anos muito badalada na sociedade alagoana. O pai da moça, um rico fazendeiro, morava numa bela casa na praia de Pajuçara. Decoração suntuosa, mesas espalhadas no quintal, muita bebida e comida. A Orquestra animava o aniversário de Margarida.

Os jovens dançavam no salão iluminado por um vistoso lustre. Adalberon bem vestido em seu terno; como chovia, ele levou sua capa preta longa, deixou-a pendurada no cabide na entrada.

Cumprimentou os donos da casa, a aniversariante, bebeu, comeu. A orquestra tocava uma bonita música quando Adalberon avistou uma jovem loura no canto da sala com olhares insistentes para ele. Num impulso caminhou em direção à bela moça de vestido cor de rosa. Aproximou-se; antes de ele convidá-la para dançar, a moça abriu os braços dizendo que já o esperava. Rodopiando o salão com um abraço, dançaram. Os dois se olhavam como se uma paixão momentânea houvesse surgido.

Ela se chamava Carolina, a melhor amiga de Margarida, a aniversariante. Ele se apresentou dizendo que no final do ano se formava em Direito no Recife. Carolina respondeu apertando a mão de Adalberon com sua mão fria. - “Eu já sabia!”.

O Rapaz ficou impressionado com a beleza pálida da jovem. Contou suas histórias e fanfarronice na Faculdade. Ela mostrou-se bastante interessada, juntou seu corpo, e assim ficaram dançando por muito tempo, mudos, apenas se afastando algumas vezes para se olharem. Caso de paixão fulminante. Certa hora, Carolina falou que devia ir para casa, tinha prometido chegar antes da meia-noite. Ele se ofereceu para levá-la. Na saída da casa apanhou a capa pendurada. Como a chuva era intensa, num gesto elegante, Adalberon cobriu sua companheira com a capa protegendo-a da chuva, correram em direção ao ponto de ônibus.

Tomaram o ônibus “Pajuçara–Trapiche da Barra”, estava quase vazio. Sentaram-se num banco do fundo, conversaram como se conhecessem há muitos anos. De repente Adalberon puxou o rosto de Carolina e deu um beijo ardente em seus frios lábios, percebeu que ela chorava. Continuaram aos beijos e abraços durante o resto do percurso.

Perto da Praça Afrânio Jorge, ela tocou a campainha, o ônibus parou, eles desceram. A jovem pediu para não acompanhá-la, morava perto, no dia seguinte devolveria a capa.

Adalberon seguiu-a com olhar até ela desaparecer na escuridão da rua, no oitão do Cemitério Nossa Senhora da Piedade.

Pela manhã o rapaz acordou-se com a figura de Carolina gravada na cabeça e no coração. Passou o dia pensando na jovem. Lembrou-se que não havia marcado hora com Carolina. Às sete horas da noite Adalberon estava na Praça olhando os passantes em busca de um vulto parecido com sua amada. Deu voltas no quarteirão, passou dezenas de vezes na rua em que ela desapareceu. Perguntou a algumas pessoas se conhecia Carolina. Até que uma senhora se assustou-se quando indagada, informou que ela havia morado naquela casa, apontando para um bangalô.

Adalberon encheu-se de coragem, bateu à porta. Atendeu uma senhora com aparência triste. Ficou trêmula e assustada quando o rapaz perguntou se Carolina estava em casa.

A velha mulher sentou-se numa cadeira da varanda e perguntou quem era o rapaz. Ele disse ser amigo de sua filha, contou como havia conhecido, não havia marcada encontro com ela, por isso estava procurando a jovem.

Adalberon arrepiou-se do dedo do pé aos cabelos da cabeça quando a triste senhora respondeu que no dia anterior tinha completado um ano de sua morte num desastre de carro. O marido da triste senhora ao ouvir a história, desmaiou na cadeira.

Quando acalmaram-se, os três resolveram ir ao cemitério. Entraram pela alameda principal até à capela, havia um velório noturno, uma família chorava seu morto. Desviaram para direita onde estava a sepultura de Carolina. Ao se aproximarem deu-se o inesperado assombro: a capa preta cobria o túmulo de Carolina. Os três emocionados ficaram no cemitério até mais tarde quando Adalberon retirou-se para casa. Só conseguiu dormir ao tomar oito doses de uísque conversando com o pai.

Contam no bairro que uma misteriosa mulher com vestido rosa perambula pelos arredores do cemitério depois da meia-noite. Muitos moradores do Prado e do Trapiche juram ter visto a mulher à noite circulando pelas ruas.

Anos se passaram desse acontecimento, o Doutor Adalberon todos os anos, cumpre a obrigação em colocar um buquê de rosas brancas e rezar no túmulo de Carolina, onde alguém colocou uma capa de mármore preto por cima da cruz.

A lenda se alastrou na cidade.

O boêmio e carnavalesco, Marcos Catende, morador da região organizou um bloco carnavalesco. Durante o Carnaval o “Bloco da Mulher da Capa Preta” desfila pela cidade, arrastando multidão, com dispersão em frente ao Cemitério.