Artigos
Sem flores. Com força.
Neste mês de março não trago flores nem celebrações. Trago inquietação. O Brasil levou dois séculos para reconhecer direitos básicos das mulheres — e mesmo assim cada conquista chegou atrasada, como se a história estivesse sempre tentando alcançar algo que já era óbvio.
Há cerca de 200 anos conquistamos o direito de estudar. Em 1932 começamos a votar. Só em 1962 a lei permitiu que uma mulher trabalhasse sem autorização do marido. Em 1977 veio o divórcio. A Constituição de 1988 reconheceu nossa igualdade perante a lei.
Mesmo assim, distorções persistiram por décadas. Até 2002 um homem podia anular o casamento ao descobrir que a esposa não era virgem. Até 2005 um estuprador podia escapar da punição casando com a vítima. Em 2006 a Lei Maria da Penha finalmente enfrentou a violência doméstica. O feminicídio passou a ser tipificado em 2015 e recentemente tornou-se crime autônomo, com penas mais severas.
Cada uma dessas conquistas hoje parece lógica. Mas todas custaram décadas de luta.
O feminismo que importa é o que garante liberdade. Ser livre é poder escolher: estudar, trabalhar ou não, casar ou não, ter filhos ou não, viajar sozinha, construir relações como quisermos e viver conforme nossos próprios acordos.
Assumir o papel de mulher no mundo deveria significar simplesmente poder ser o que quisermos. Como escreveu Mary Wollstonecraft há mais de dois séculos: “Não desejo que as mulheres tenham poder sobre os homens, mas sobre si mesmas.”
Talvez seja exatamente essa liberdade que ainda provoque reação violenta. Em 2024 o Brasil registrou 1.492 feminicídios e cerca de 87 mil estupros — números que revelam uma sociedade que ainda reage com violência quando mulheres exercem autonomia.
Por isso hoje não celebro. Trago sororidade, força e esperança de que um dia o óbvio finalmente se torne realidade: homens e mulheres vivendo com igual liberdade e responsabilidade.
Bia Willcox é advogada, empresária e jornalista. Professora e aluna. Filha, mãe e avó. Desde sempre curiosa, é atenta e tenta ser forte sempre.
Mais lidas
-
1CAMPEONATO BRASILEIRO
Grêmio empata com Red Bull Bragantino e desperdiça chance de entrar no G-4
-
2TELEVISÃO • NOVELA DAS 6
A nobreza do amor, nova novela das 6 da Globo, destaca aristocracia africana na TV
-
3SEGURANÇA
PM de Alagoas desmantela ponto de desmanche de motos na Cidade Universitária
-
4FUTEBOL
Coruripe perde o jogo e a invencibilidade para o CRB, em São Miguel dos Campos
-
5SAÚDE
Anvisa aprova medicamento inovador que retarda avanço do diabetes tipo 1