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Zinga bar
Robertinho dirigia feliz da vida seu Gordini vermelho numa noite de sexta-feira. Solteiro, boêmio, 27 anos, iniciava mais um fim-de-semana de alegria. Percorria a estrada do Litoral Norte rumo ao Zinga Bar, de repente sentiu o carro “morrer”, parou no acostamento, abriu o capô, olhou com ajuda de uma lanterna se alguma peça estava solta, não entendia de motor; trancou o carro, travou-o, dia seguinte viria com um mecânico. Ficou na estrada pedindo carona. Por sorte parou uma Kombi, eram amigos, tinham o mesmo destino.
O Zinga Bar era o ponto da juventude bonita de Maceió. Empreendimento arrojado de Cláudio Brabosa, a construção se estendia à praia de Riacho Doce, o grande sucesso da cidade dos anos 60. Aliás, revolucionário para aquela geração que mudou o mundo. As moças casadouras daquela época só saiam à noite acompanhadas dos pais para festas em casa de famílias ou clubes. Depois do Zinga Bar a mulherada não foi mais a mesma, deu um grito de liberdade frequentando aquele Bar-Restaurante-Boate e outros recantos aprazíveis. Foi quando apareceu a pílula. Dava-se início a revolução sexual das jovens. A virgindade deixou de ser tabu. É bom registrar esse marco histórico nos costumes da cidade.
Ao chegar no Zinga Bar tomaram uma mesa ao ar livre, podia-se conversar melhor e ver a lua tremeluzindo o mar de Riacho Doce. Mesa cheia: três amigos, duas belas jovens e uma coroa, risonha, solteirona, quarentona, tia de uma das jovens. Conversa divertida, maior alegria quando a banda iniciou os acordes, “Love is a many splendore thing”. Yolanda, a coroa, convidou Robertinho para dançar. No dancing, bela vista para o mar, juntaram-se o corpo dançando com leveza ao som do sax e clarinete. Ela puxou Robertinho, arrochou, rosto e corpo colocados, mudos, o carinho da mão na nuca, a rigidez nas pernas falava mais que qualquer palavra. A orquestra parou para descanso, o casal retornou à mesa. Bom uísque, tira-gosto, muita conversa, a coroa com os pés descalços por baixo da mesa alisava Robertinho. Certa hora a Banda animou, “Olha pro céu meu amor, veja como ele está lindo, olha pra que balão multicor, como no céu vai sumindo...” Todos levantaram dançando feito quadrilha ao som de músicas juninas de Gonzaga. Cada vez mais Robertinho e Yolanda se atraiam, deu-se o desejo imenso e ânsia louca de beijo na boca.
Ao retornar à mesa, Robertinho cochichou no ouvido do amigo, pediu a Kombi emprestada, voltava logo. O casal se escafedeu, um quilometro a mais, Robertinho encostou a Kombi embaixo de uma árvore, à meia luz de uma lua maravilhosamente prateada tiveram momentos de amor no banco traseiro como apenas os grandes amantes conseguem.
Retornaram com aquele sorriso maroto dos bem amados satisfeitos, de bem com a vida. Os companheiros de mesa perceberam, não houve uma piada, uma recriminação, a juventude mudava o comportamento, fazer amor é necessidade natural como beber um copo d’água para matar a sede. Dançaram, rodaram, beberam até o dia amanhecer, os boêmios desceram à praia foram cumprimentar o dia nascendo, dançando ciranda, pegando o Sol com a mão.
Dia seguinte Robertinho acordou-se por volta de meio dia, telefonou para um amigo, mecânico de automóvel, foram em busca do Gordini quebrado. A grande surpresa, o carro arriado no chão, a jante no asfalto do acostamento, levaram os quatro pneus, no vidro traseiro escrito em batom: “Obrigada pelo presente, um beijo de sua Odete”. O jeito foi arranjar quatro pneus velhos numa borracharia, levar o Gordini para casa. Na segunda-feira nosso boêmio recebeu um telefonema anônimo informando, os quatro pneus “roubados” estavam guardados com o vigia do Zinga Bar. Assim eram as brincadeiras, meio pesadas, da juventude dourada e bem humorada.
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