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Biografia: apenas um relato?

Cristina Seixas 02/03/2026
Biografia: apenas um relato?
Biografia: apenas um relato?

Com o alfaiate Vittorio Ficara, tive a oportunidade de entrar no mundo biográfico e embarcar em uma viagem fantástica, ao acompanhar suas lembranças e suas experiências, relatadas com firmeza e escoradas por uma lucidez incrível, apesar de sua idade avançada. Por ser pesquisadora, investiguei cada fato relatado, por entender que uma biografia permite compartilhar e tornar acessíveis as experiências vividas por uma pessoa. É, assim, um documento histórico e uma contribuição para a preservação da memória social, especialmente quando a narrativa pessoal se entrelaça ao contexto político e social de uma época.

Resiliência, otimismo e perseverança são as grandes características de Vittorio que, juntas, o ajudaram a enfrentar e superar situações das mais complexas e que talvez poucos conseguiriam vencer. Nasceu no Cairo em 1918, filho de italianos que emigraram para o Egito. Teve uma infância tranquila, frequentou bons colégios e sonhava “em ser alguém”. Mas, em virtude do acidente sofrido pelo pai e à consequente mudança de emprego, Vittorio enfrentou seus primeiros dissabores.

Por motivos econômicos foi transferido para o Istituto Don Bosco, em Alexandria, em sistema de internato, um misto de escola, arte e ensino profissionalizante, no caso a alfaiataria, que, segundo o pai, lhe proporcionaria sempre a oportunidade de trabalhar. Aos 15 anos, devido à piora econômica familiar, teve que suspender os estudos e retornar ao Cairo. Foi o único dos quatro filho a ajudar em casa. Ingressou, assim, em uma alfaiataria. Com a base sólida adquirida no instituto, somada ao seu ótimo desempenho, começou a dominar a arte da alfaiataria.

Aos 23 anos, o destino aprontou um novo golpe. Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, por ser italiano e o Egito um protetorado inglês, foi preso e enviado a um campo de detenção, no meio do deserto, onde passou 4 anos enfrentando situações das mais adversas, superadas com a sua forma de ser e de agir.

Em 1945 voltou para casa e recomeçou a vida exercendo o ofício que já dominava. Nessa época se deparou com Teresa, adolescente, sua futura companheira de toda a vida. Porém, mais um revés do destino o surpreendeu: a família dela se mudou para o Brasil. Vittorio, já um exímio alfaiate, trabalhou bastante e, em 1947, viajou rumo às terras brasileiras.

Com o poder de adaptação, a confiança em si e o conhecimento de 5 idiomas (italiano, francês, grego, árabe e inglês), rapidamente assimilou o português e se sentiu em “casa”. Já no Rio de Janeiro, devido a um anúncio da Casa Canadá, que procurava um alfaiate com experiência, apresentou-se, sem saber que era o ponto máximo da elegância do país. Só percebeu, ao chegar, que era um centro de moda feminina de luxo.

Mas sua determinação e sua segurança o impulsionaram a seguir em frente. Ousado e confiante em si, pediu uma semana para “resolver problemas” e retornaria para assumir o posto. Em casa, concentrou-se no estudo das diferenças entre modelagens femininas e masculinas, caimentos, estruturas e volumes. Afinal, tinha estudado o corpo humano, no Istituto Don Bosco! Varou noites e dias sem parar. Seu conhecimento profundo da arte da costura, somado à autoconfiança, lhe garantiu o desejado, tornando-se chefe da alfaiataria daquele estabelecimento!

Escrever este livro me fez perceber a importância que a biografia tem para a preservação da memória social, ao transformar relatos de vida e experiências pessoais, mesmo de pessoas comuns, em fontes de conhecimento, e ajudar a entender contextos de uma época. A história de Vittorio, não é apenas um relato pessoal, porque transporta o leitor a fatos e costumes diversos, em uma verdadeira viagem cultural e social.

*Cristina Seixas é jornalista, tradutora, produtora de eventos de moda, estilista e autora do livro "Rabena Karib: Jornada entre o deserto e o mar"