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Edson Gomes - Guerreiro do Terceiro Mundo em Terras Arapiraquenses

*Caio Dyogo Melo 05/02/2026
Edson Gomes - Guerreiro do Terceiro Mundo em Terras Arapiraquenses
Caio Dyogo Melo - Foto: Arquivo Pessoal

Trago em minhas memórias aqueles tempos de infância dos anos 2000 's. A música de Edson, mesmo sendo de décadas passadas, ainda ecoava em toda periferia do Nordeste e do Brasil. Todo vizinho que tivesse seu aparelho de som colocava pra tocar (geralmente aos fins de semana) clássicos como "Malandrinha", "Campo de Batalha" ou "Criminalidade". 

Canções essas, repletas de uma lírica contestadora, de revolta, que ataca de frente àqueles que determinamos como os inimigos da classe. Porém, diferente de outras sensibilidades musicais, a música de Edson, sendo ela tão instigante, causava outro tipo de sentimento no povo: Alegria e conforto.

Sensações essas derivadas de anos, com a cultura do Reggae já presente no Brasil e outros países; trazia consigo aspectos até mesmo contraditórios em sua percepção. Tínhamos o punk e o rap, que tinham formalizado em nosso imaginário a revolta contra as mazelas sociais; a necessidade do pensamento crítico; a organização do coletivo e outras causas da luta social. O reggae também traz isso consigo, entretanto, vai além. Colidindo frente a esse terreno áspero e contido das classes mais baixas, carrega uma musicalidade bem ornamentada, dançante, repetitiva - que não significa simplicidade ou falta de técnica. Pelo contrário, cada detalhe em sua construção é justamente pensado, organizado, que possa contribuir com cada sentimento que o ouvinte venha a ter. Fisga-lo para dança, e depois, para o pensamento crítico - como disse uma vez o próprio Edson, no documentário "Reggae Resistência".

Estigmatizado durante anos por seus posicionamentos e livre absorção da cultura Rastafari, Edson representava um dos núcleos da manifestação artística independente da cultura brasileira. Longe dos holofotes da mídia, construiu toda sua base a partir de lutas e dedicação no gênero que tinha o propósito de dar sua mensagem ao mundo. Sendo boicotado pelas gravadoras por manter suas decisões artísticas de performance e som, teve pouco apoio da grande indústria, entretanto, o povo lhe deu o reconhecimento como um dos maiores transgressores do gênero e representantes da cena em terras nacionais.

Edson Gomes esteve na cidade de Arapiraca no dia 31 de janeiro. Pude contemplar o grande espetáculo de seu show, acompanhado da banda Cão de Raça. Com tamanho sentimento, não há vocábulos que me permitam organizar a beleza de estar ali presente, acompanhando aquele que foi um dos primeiros grandes músicos e pensadores que tive contato em minha formação como ser. Análises de sua performance ficam a critério dos especialistas.

Uma criança oriunda da periferia esteve realizada naquela quebra de espaço-tempo, e pôde gritar, então, pela liberdade.

Mesmo que o rádio não toque, mesmo que a tv não mostre, aqui vamos nós, cantando reggae.

Aleluia Jah.

*Caio Dyogo Melo é graduando em Letras (Língua Portuguesa) pela Universidade Federal de Alagoas e faz parte da equipe de Redação do Jornal Tribuna do Sertão .

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