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O carnaval era assim

Eu nasci num ensolarado domingo de carnaval. Aos cinco anos, fantasiado de pierrô com lança-perfume na mão, frequentava o baile infantil do Clube Fênix. Aos dez, moleque, acompanhava o carnaval de rua, atrás dos blocos. Durante a juventude aguardava o carnaval chegar acontecendo as pré carnavalescas: Baile do Hawaii, Preto de Branco, o chiquérrimo Baile de Máscaras onde a alegre e bonita burguesia em fantasia ou smoking caía no passo. Amanhecia o dia dançando na areia da praia, banho de mar na praia da Avenida da Paz.
Quinze dias antes do carnaval a COC, Comissão Organizadora do Carnaval, realizava, todas as noites, na Rua do Comércio, a Maratona Carnavalesca, Além do corso, fila de carros rodeando o centro da cidade; nas esquinas uma orquestra tocava frevança. Caíamos no passo junto às meninas virtuosas, soldados, empregadas, prostitutas, o povão se misturando na alegria do frevo, sem diferenças e preconceitos, apenas sorrisos, remelexo do corpo e a alegria de traçar uma tesoura nos passos de um frevo.
Domingo anterior ao carnaval acontecia o animadíssimo Banho de Mar à Fantasia. Desfile e concurso de troças, escolas de samba, fantasias e bloco carnavalesco. A turma de Ruben Camelo, Bráulio Leite, Pitão, Santa Rita, Alipão, os irmãos Moura, exibia as críticas, bem humoradas, à política, aos costumes, aos acontecimentos da época. Eles eram os arautos da animação, brincavam nas ruas, nos clubes e biroscas da cidade.
Outros foliões fantasiavam-se com irreverência: Fusco, Tarzan, Lincoln, concorriam aos prêmios. Eu e amigos ficávamos apreciando a passagem dos desfiles diante à Comissão Julgadora aguardando uma tradição: todos os Blocos de Frevo: Vulcão, Cavaleiros do Monte, Vou Botar Fora, Tudo ou Nada, Bomba Atômica, Pitanguinha Vai à Lua, Sai da Frente, entre outros, depois do desfile na Avenida, dirigiam-se à casa do Coronel Mário Lima. Meu pai aguardava a tropa do frevo com dois caldeirões de "laco-paco" de maracujá, cerveja gelada, cachaça e tira-gosto. Os músicos adoravam, tocavam três a quatro frevos, a moçada caía no passo no enorme terraço da casa onde nasci. Havia organização, um bloco de cada vez, se revezando. O domingo terminava tarde, minha casa entulhada de amigos, convidados, penetras, o povo. Acompanhávamos o último bloco até desaparecer em Jaraguá ao anoitecer.
O Carnaval iniciava à noite do sábado de Zé Pereira. Primeiro, a juventude brincava na Rua do Comércio, no corso em cima de um jipe, vestido de macacão, maizena na mão, meladeira entre os amigos, costume herdada dos entrudos nos primeiros carnavais no Brasil. Em toda esquina da Rua do Comércio uma orquestra de frevo animava o povão, dançando, cantando; amores surgindo, amores fugindo. É carnaval, tudo valia, amor de carnaval desaparece na fumaça. Meia-noite ao chegar em casa tomava um banho reativante rumo ao baile do Zé Pereira no Tênis Clube. A orquestra tocava marchinhas românticas, sambas e frevos até o dia amanhecer.
Domingo de Carnaval por volta das dez horas da manhã, a moçada já fazia fila para entrar na matinal do Clube Fênix, o calor retumbava com a música quente no Ginásio de Esportes, os foliões alegres bebiam de mesa em mesa, lança-perfume no ar e nos lenços. Todos conhecidos como se fosse uma imensa família, moças bonitas, barriguinha de fora, dançavam em cima das cadeiras ao som das grandes orquestras e bateria de Escola de Samba. À noite depois do corso, mais festa, mais baile. Inexoravelmente vinham a segunda e a terça-feira. "Um pé pra frente, dois prá trás, é hoje só, amanhã não tem mais".. "Oh! quarta-feira ingrata chega tão depressa só pra contrariar". No final da última noite, a Orquestra do Maestro Passinha, no Clube Fênix, dava as últimas voltas no salão, finalmente, descia à praia, o sol nascendo, os foliões dançando o Vassourinhas na areia branca, terminava num mergulho no mar azul esverdeado.
Cansados, molhados, sentados nos bancos da Avenida da Paz, namorados abraçados, ainda com fôlego de beijos agarrados, alegres, outros descansavam deitados na grama. Finalmente alguns amigos me acompanhavam a um café em casa. Abraçados, caminhando e cantando pela Avenida, bonitas canções: "Acabou nosso carnaval, ninguém ouve cantar canções. Ninguém passa mais, brincando, feliz, e nos corações saudades e cinzas foi o que restou.”
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