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Toda taça deveria ser poesia, não veneno
Ainda como aluno Marista, aprendi que o etanol era um líquido transparente, de perfume enganoso, tão parecido com o álcool comum que podia iludir até os sentidos mais atentos, usado na indústria, disfarçado em solvente, combustível, tinta e plástico, mas nunca, jamais, alimento para o corpo humano, pois bastava um gole para transformar a vida em ausência.
Naquele tempo, era apenas ciência, hoje, tornou-se metáfora e dor, quando vejo, estarrecido, que a maldade do homem não tem limites: há quem dissolva o veneno na taça da alegria, há quem troque a pureza do brinde pela sombra da morte, há quem transforme a sede de festa em silêncio de luto.
Mal sabia que, anos depois, esse mesmo fantasma, o metanol, retornaria pelas manchetes, transparente como a mentira bem contada, revelando a escuridão de certas almas, que buscam o lucro sobrepondo-se à ética, a ganância disfarçada de comércio, não matando apenas corpos, mas ferindo famílias, destruindo memórias, abalando a confiança no gesto mais humano de todos, o de partilhar um copo.
Para tristeza, constata-se o homem, em sua sede cega de lucro, misturar a morte ao momento de alegria do semelhante, envenenando indiscriminadamente e, no mesmo gesto, ferindo também a confiança, a partilha, a inocência de um brinde, fazendo o comércio sofrer, parentes chorarem, e a maldade se revelando em sua forma mais nua.
Recordo das aulas de química, ministradas pelo professor Fernando Gameleira, com fórmulas riscadas no quadro, o cheiro de giz, e hoje entendo ser a lição que parecia remota, não era apenas conhecimento, era prenúncio de uma realidade amarga da vida: tudo o que aprendemos como teoria pode, pela mão criminosa de alguns, tornar-se dor concreta.
E assim, lembro da lição aprendida ainda menino, ela não era apenas química, mas sim aviso: há substâncias que não se bebem, escolhas que não se fazem, pessoas que não se deve aproximar e nem confiar, e há crimes que embora invisíveis como o metanol, trazem consigo a marca indelével da crueldade.
No fim, o que resta é o pensamento: toda taça deveria ser poesia, nunca veneno; celebração, nunca crime; vida, nunca ausência.
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