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Para que a alma não venha a gangrenar
O escritor Osman Lins, em seu livro “Do ideal e da Glória – problemas inculturais brasileiros”, nos ensina que a escrita, com sua humildade e discrição, acaba sendo colocada no espírito do homem contemporâneo numa posição de inferioridade, devido à presença privilegiada que outros meios de comunicação acabam tendo na atualidade.
Tal situação, por certo e por óbvio, acaba por afetar a forma como nós pensamos o mundo e, é claro, o modo como encaramos a vida, tendo em vista que é inegável que o desdém pela leitura modifica, de forma tragicômica, a nossa capacidade de reflexão e ponderação.
E não adianta ficarmos dizendo que isso afeta apenas e tão somente as tenras gerações. Nada disso cara pálida. Como bem nos lembra Umberto Eco, eu, você, todos nós, em alguma medida, temos o nosso horizonte de compreensão ferido pelas velhas e novíssimas mídias.
Como filhos do nosso tempo, paridos e misturados a tudo que nele há, sem nos darmos conta, acabamos sofrendo a corrosão que é por ele propiciada.
Se não, reflitamos: quantas horas por dia, em média, nós ficamos ziguezagueando de uma rede social para outra? Diariamente, quanto tempo nós ficamos com os olhos pregados na tela de uma televisão? Quanto tempo conseguimos ficar sem o nosso celular, sem utilizá-lo? Quantos livros por mês, em média, nós lemos? Quantas vezes nós procuramos ficar em silêncio para simplesmente nos desconectar do mundo e nos religar à vida? Pois é. Foi o que eu imaginei.
Ora, se cremos que os jovens estão perdidos, podemos dizer com enfado que nós, pessoas crescidas, estamos sem rumo, por negligenciarmos o nosso futuro e ignorarmos o nosso passado.
Nossa disponibilidade interior para reflexão é condicionada pela forma instável e ansiolítica de nos relacionar com as mídias digitais; por isso, a cada dia que passa, somos mais apressados em nossos juízos, mais inconstantes em nossos pensamentos; por essa razão nossas emoções são mais instáveis e, não é à toa, nem por acaso, que toda e qualquer reflexão, mais séria e profunda, acaba sempre sendo um inenarrável suplício sem fim.
Enfim, é hora de pararmos para pensar, com serenidade, sobre os efeitos das mídias digitais em nossa vida, antes que esses efeitos se tornem irreversíveis e acabem gangrenando de vez o que há de mais elevado em nossa alma.
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