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As máscaras dos velhos carnavais
O escritor argentino Ernesto Sábato, em seu livro “Heterodoxia”, dizia que falar mal da filosofia é, inevitavelmente, também fazer filosofia. Mas má filosofia. Também podemos afirmar que ficar tecendo mil e um elogios à filosofia, e à vida intelectual, não é, nem de longe, uma atitude digna de um postulante a filósofo.
Esses dois personagens, de certa forma, são figuras típicas do nosso tempo, onde todos nós vivemos atolados até os gorgomilos com informações de toda ordem e dos mais variados níveis de credibilidade e valia.
O primeiro, de um modo geral, se ufana de ser uma pessoa prática, formatada pela rotina, devidamente esquadrinhada pelas expectativas que são apresentadas pela sociedade e estimuladas pela grande mídia e pelos círculos de escarnecedores digitais.
O segundo, por sua vez, é muitíssimo semelhante ao primeiro, porém, não quer, de jeito-maneira, se sentir semelhante a ele. Nada disso. O abençoado quer parecer melhor, sem o sê-lo; quer porque quer exalar ares de sabedoria, sem nunca ter aspirado ascender a ela; quer transparecer profundidade, sem nunca ter almejado deixar de lado as platitudes nossas de cada dia.
No fundo (e não é tão fundo assim), os dois personagens são muito semelhantes e, ambos, cada um ao seu modo, são o reflexo daquilo que convencionou-se chamar de espírito burguês que, como bem nos lembra Gustavo Corção, é a elevação do materialismo oco, do hedonismo raso e do egocentrismo tacanho a condição de colunas de sustentação de uma vida desprovida de sentido.
Dito de outro modo: o indivíduo de índole nobre, como nos lembra o escritor colombiano Nicolás Gómez Dávila, seria aquele que está satisfeito com aquilo que ele tem (pouco importando quanto seja), porém, sempre está insatisfeito com a pessoa que ele é; já o sujeito de índole burguesa é o tipinho que está muito satisfeito com a pessoinha que é, porém, nunca está contente com aquilo que tem.
Nesse sentido, as pessoas avessas a filosofia, ou que dissimulam interesse por ela, tem uma estreiteza de horizonte similar, tendo a mesma perspectiva existencial, as mesmas preocupações e interesses, tendo apenas uma sutil distinção: os primeiros são soberbos e inconstantes; os segundos, levianos e dissimulados.
Enfim, duas máscaras tristes para encobrir a torpe alienação que os aproxima.
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