Artigos
Ratos vivos são os ladrões; ratos mortos são as pestes
Os ratos espalhados no ambiente solene e pretensamente imaculado da Câmara dos Deputados, onde está funcionando a CPI da Petrobras, possuem muitos significados. Cuidarei de dois deles. O primeiro nos diz que ratos vivos retratam os ladrões do país. Quando engravatados e detentores do poder, são cleptocratas (porque cleptocracia é o Estado governado por ladrões). Desde a edição do livro A arte de furtar (livro publicado no século XVII e atribuído ao Padre Manuel da Costa) se sabe que o Brasil é “um covil de ladrões”; muita gente aqui vive de rapinas; as criaturas racionais, de qualquer modo, são as piores de todas, porque lhes sobeja a malícia.
Na dedicatória ao Rei D. João IV, o autor do livro (em 1652) já dizia: “V.M. deve pôr cuidado grande nesta empresa [de combater os ladrões], porque a fazenda de V. M. [o Brasil] é a mais combatida destes inimigos que, por serem muitos, só com um braço tão alentado, como o de V. M., poderão ser reprimidos e castigados”. A maior dificuldade está no conhecimento deles, porque, como o ofício é infame e reprovado pelas regras, não querem ser tidos por tais e, por isso, andam todos disfarçados [de deputados, de políticos, de empresários, de banqueiros, de juízes, de financistas, de diretores de empresas etc.].
Quando mortos em série e em grande quantidade, os ratos representam outra coisa: a peste (veja A. Camus, A peste). No nosso caso, são as pestes da desigualdade extrema, da violência epidêmica e da corrupção endêmica. Cada episódio que retrata nossa desigualdade extrema (na educação, na saúde, no transporte, na renda, na riqueza, das capacidades cognitivas, nas habilidades profissionais, nas estruturas emocionais, nas capacidades verbais etc.), nossa violência epidêmica (29 assassinatos para cada 100 mil pessoas; 12º país mais violento do planeta; das 50 cidades mais violentas, 19 estão aqui) bem como nossa corrupção endêmica (Petrobras, Carf, mensalão, HSBC, metrolão, trensalão etc.) constitui mais um rato morto.
Os donos do poder (econômico, financeiro e político) não estão percebendo ou estão fechando os olhos para a realidade cruel vivida pelo Brasil que se esgarça. Praticando a política do avestruz (que enfia a cabeça na terra para não ver a realidade), sofrem da síndrome de inapetência de Maria Antonieta (anestesia mental), que muito contribuiu para a eclosão, em 14/7/1789, da Revolução Francesa e a queda da Bastilha. O povo está perplexo e aterrorizado. Não suporta mais os discursos de transferência de responsabilidade (um joga a culpa no outro).
A questão é que tudo podemos esperar das massas desnorteadas, rebeladas, impregnadas da sensação de impotência. Mais de 70% querem mudanças. Mais de 50% não votariam, se o voto fosse facultativo (Ibope). Da impotência as massas costumam passar para a ação direta (potência) e desta para a prepotência (fascista e violenta). A luz amarela está acesa há tempos (conforme mostraram as manifestações de junho/13 e de 15 de março). Mas já começam a acender as luzes vermelhas. A presença de vários ratos na CPI da Petrobras conta com uma simbologia pressagiadora de mais tragédias, a começar pela própria fraude e embuste que os resultados dessa CPI podem significar para todos os brasileiros. Se ainda não quebraram os sigilos fiscais e bancários das empresas investigadas, que financiaram suas campanhas eleitorais, boa coisa não de pode esperar.
Mais lidas
-
1RECONHECIMENTO
"Quando eu nasci, tudo isso era um só território, era Palmeira dos Índios", diz Dr. Wanderley ao receber título de Cidadão Honorário de Estrela de Alagoas
-
2ECONOMIA
6 estratégias para humanizar a gestão e acelerar os resultados de vendas
-
3SEGURANÇA PÚBLICA
Dois homens são baleados por policial de folga durante 'brincadeira' de falso assalto em SP
-
4IMIGRAÇÃO
Agentes de imigração dos EUA matam motorista colombiano de 26 anos
-
5BILHETAGEM ELETRÔNICA
Modernização do VLT reforça agenda de investimentos garantidos por Arthur Lira e faz mobilidade avançar em Maceió