Alagoas

Cirurgiã plástica do HGE orienta sobre primeiros socorros em casos de queimaduras no São João

Referência em Alagoas, Centro de Tratamento de Queimados alerta para riscos com fogueiras e fogos de artifício durante os festejos juninos

Agência Alagoas 23/06/2026
Cirurgiã plástica do HGE orienta sobre primeiros socorros em casos de queimaduras no São João
Cirurgiã plástica do HGE orienta cuidados em casos de queimaduras no São João - Foto: Thallysson Alves / Ascom HGE

Todo ano, à medida que o cheiro de milho e a fumaça das fogueiras tomam conta do Nordeste, as unidades de saúde de Alagoas se preparam para atender vítimas de queimaduras. No Hospital Geral do Estado (HGE), única unidade estadual com Centro de Tratamento de Queimados (CTQ), a equipe conhece bem esse cenário. A cirurgiã plástica Anna Lima, coordenadora do serviço, faz um alerta direto a quem vai celebrar o São João: o fogo não perdoa.

Segundo a especialista, mesmo com todos os cuidados, acidentes podem acontecer. Nesses casos, a primeira atitude pode fazer a diferença entre uma recuperação mais rápida e sequelas graves. Por isso, Anna Lima orienta o que deve — e o que definitivamente não deve — ser feito nos primeiros minutos após uma queimadura.

De acordo com a médica, em caso de acidente, a melhor medida inicial é irrigar a área atingida com água corrente limpa, em temperatura ambiente.

“Resfrie imediatamente a área atingida com água corrente limpa, em temperatura ambiente, por 15 a 20 minutos. Esse é o único tratamento recomendado antes do atendimento médico. Cubra a área com gaze limpa ou pano limpo e úmido para protegê-la até chegar ao hospital”, orientou a especialista.

Em caso de queimadura nos olhos, a recomendação é cobri-los com gaze limpa, não lavá-los e levar a vítima com urgência para atendimento oftalmológico. Quando as queimaduras forem extensas ou profundas, o paciente pode receber o primeiro atendimento pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) ou procurar a unidade de emergência mais próxima.

“Jamais aplique manteiga, pasta de dente, pó de café, teia de aranha, óleo, clara de ovo nem qualquer ‘receita caseira’ sobre a queimadura. Esses produtos aumentam o risco de infecção e pioram a lesão. Não use gelo ou água gelada, pois podem agravar o dano tecidual. Não estoure bolhas, porque elas protegem a ferida aberta. Não aplique pomadas, cremes ou medicamentos sem orientação médica. E não tente retirar pedaços de roupa grudados na pele queimada”, enumerou Anna Lima.

Em Alagoas, o CTQ do HGE é referência para casos de queimaduras de média e alta complexidade. Situações mais leves devem ser atendidas na unidade de urgência e emergência mais próxima, como as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs). Havendo necessidade de internação especializada, a transferência é regulada pela Secretaria de Estado da Saúde (Sesau).

Prevenção

Anna Lima reforça que a melhor alternativa é sempre prevenir acidentes, evitando o uso de álcool ou de substâncias inflamáveis para acender fogo e fogueiras. Os números explicam a preocupação. Segundo dados da Sociedade Brasileira de Queimaduras (SBQ), cerca de 10 mil pessoas são atendidas por ano no Brasil em decorrência de acidentes com queimaduras durante o mês de junho.

No próprio HGE, os registros são expressivos: entre janeiro e maio de 2026, a unidade atendeu 127 vítimas de queimaduras, o mesmo número observado no mesmo período de 2025. No ano passado, foram 288 admissões por queimadura; em 2024, foram 307.

“Os fogos de artifício, se manuseados de forma incorreta, podem causar queimaduras, além de mutilações nos dedos e lesões graves nos olhos. Além das mãos e dos dedos, rosto e olhos estão entre as regiões mais afetadas, podendo resultar em sequelas permanentes, incluindo perda parcial ou total da visão”, alertou Anna Lima.

Crianças são as vítimas mais vulneráveis

Estudos brasileiros mostram que crianças menores de cinco anos estão entre as mais expostas ao risco, devido à curiosidade natural e à dificuldade de reconhecer situações de perigo. Dados do Ministério da Saúde apontam que aproximadamente 400 mil crianças de até cinco anos sofrem queimaduras por ano no Brasil, e 30 mil delas precisam de internação hospitalar.

Se a tradição for mantida, saiba como reduzir os riscos

O HGE reconhece o peso cultural do São João no Nordeste. Por isso, além do alerta, a orientação da cirurgiã plástica também é prática: se a decisão for manter a fogueira acesa ou soltar fogos de artifício, que seja com o máximo de cuidado possível.

“Use roupas de algodão, pois tecidos sintéticos derretem e grudam na pele; mantenha distância segura das chamas e nunca vire as costas para o fogo; tenha sempre por perto baldes com água ou extintores; nunca use álcool, gasolina ou qualquer inflamável para avivar a fogueira; não deixe crianças, idosos ou pessoas embriagadas próximos às chamas sem supervisão; e certifique-se de que a fogueira está completamente apagada ao final da festa”, orientou Anna Lima.

A especialista também recomenda que as pessoas nunca manuseiem fogos de artifício sob efeito de álcool; usem apenas produtos com certificação do Inmetro, comprados em locais autorizados; sigam rigorosamente as instruções do fabricante; soltem fogos somente em áreas abertas, longe de pessoas, fiações elétricas e construções; nunca direcionem fogos para o próprio corpo ou para outras pessoas; não tentem reacender ou reutilizar artefatos que falharam; e mantenham crianças e adolescentes sempre afastados e sob supervisão de adultos.

“Além do tratamento imediato, muitos pacientes necessitam de acompanhamento prolongado, procedimentos cirúrgicos, curativos especializados e reabilitação física e emocional. Dependendo da gravidade, as sequelas podem impactar a mobilidade, a autoestima, a convivência social e a qualidade de vida”, destacou Anna Lima, reforçando que prevenir é sempre a melhor opção.