Alagoas

Braskem e antiga Salgema sabiam de riscos de afundamento em Maceió desde a década de 1980, diz jornalista

Documentos obtidos pela PF revelam que alertas técnicos sobre colapso do subsolo foram ignorados por mais de 30 anos; empresa e 13 pessoas viraram rés após Justiça derrubar sigilo

Redação 18/06/2026
Braskem e antiga Salgema sabiam de riscos de afundamento em Maceió desde a década de 1980, diz jornalista
Mineradora Braskem e sua predecessora, a Salgema, tinhamconhecimento técnico dos riscos de afundamento do solo em Maceió desde pelo menos 1986 - Foto: Arquivo

A mineradora Braskem e sua predecessora, a Salgema, tinham pleno conhecimento técnico dos riscos de afundamento do solo em Maceió desde pelo menos 1986. É o que apontam documentos inéditos da Polícia Federal anexados à denúncia do Ministério Público Federal (MPF), cujos detalhes vieram a público após a Justiça Federal de Alagoas derrubar o sigilo do processo da Operação Lágrimas de Sal.

Com o avanço do caso, a Justiça aceitou a denúncia no último dia 12 de junho, tornando a Braskem e outras 13 pessoas rés por crimes ambientais e correlatos ligados ao desastre geológico que destruiu bairros inteiros na capital alagoana. As informações foram reveladas pelo colunista Carlos Madeiro, do portal UOL.

Três décadas de alertas ignorados

De acordo com a acusação do MPF, o histórico de negligência começou há 40 anos. Estudos técnicos encomendados e produtos em 1986 já diagnosticavam severas falhas na exploração de sal-gema e recomendavam ações emergenciais para conter a subsidência — o esvaziamento e afundamento paulatino do terreno. Dois anos mais tarde, em 1988, novos pareceres internos identificaram que as camadas rochosas estavam instáveis e sob grave ameaça de colapso subterrâneo.

O cenário de tragédia urbana ficou desenhado de vez em 1989, quando consultores alertaram expressamente para a iminente formação de uma macroárea de afundamento na superfície e o surgimento de crateras provocadas pelo desabamento das cavernas de extração. Mesmo ciente dos prognósticos, a mineradora optou por ampliar a atividade industrial na região nas décadas seguintes, engavetando relatórios que reiteravam o perigo e pediam o fechamento de poços críticos.

Omissão deliberada de dados aos órgãos públicos

Para assegurar a continuidade do negócio milionário, a petroquímica teria montado uma engrenagem de ocultação de dados, sustenta o Ministério Público. Pelo menos 30 documentos oficiais remetidos a órgãos de fiscalização e proteção ambiental omitiram os laudos alarmantes gerados internamente.

A peça acusatória pontua que, enquanto relatórios secretos da companhia atestavam a evolução do afundamento, as manifestações enviadas ao antigo Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) e ao Instituto do Meio Ambiente de Alagoas (IMA) classificavam a mineração em Maceió como uma atividade "100% segura". Ao todo, a Justiça Federal aceitou 26 acusações criminais voltadas exclusivamente para essas supostas fraudes e omissões informacionais.

Bastidores pós-tremor de 2018

A investigação expõe ainda a reação interna da Braskem logo após o tremor de terra de março de 2018, o marco visível que fez saltar os primeiros rachados nas paredes e ruas dos bairros atingidos. Trocas de e-mails interceptadas pela PF expõem o pânico de técnicos.

Em uma das mensagens, um engenheiro do alto escalão aponta a necessidade premente de paralisar as operações em poços específicos e adverte os colegas sobre vulnerabilidades que seriam "difíceis de justificar no futuro" perante as autoridades e a opinião pública.

Para os procuradores federais, o acervo probatório deixa claro que funcionários e diretores decidiram deliberadamente ignorar a segurança da população local por ganância corporativa. O desastre socioambiental resultante da extração mineral forçou a expulsão compulsória de cerca de 60 mil moradores de suas residências, transformando áreas vibrantes de Maceió em bairros fantasma e consolidando o episódio como um dos maiores deslocamentos urbanos forçados da história recente do Brasil.

Procurada para se manifestar sobre o teor da denúncia e as revelações dos documentos antigos, a Braskem declarou ao UOL que não emitiria comentários sobre o caso.