Alagoas
Estudante de Computação se destaca nas pesquisas voltadas à educação pública
Com foco em impacto social, Davi Vieira acumula conquistas acadêmicas e representará a universidade em evento realizado nos Estados Unidos
O estudante do Instituto de Computação (IC) da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Davi Vieira, é um daqueles exemplos que enxergam na educação e na Universidade não apenas uma oportunidade de aprendizado, mas um caminho de transformação. Ainda no sexto período do curso, aos 19 anos, ele já acumula conquistas acadêmicas importantes com produções que vêm chamando a atenção de pesquisadores nacionais e internacionais.
Recém-chegado de um estágio na Universidade de São Paulo (USP), Davi já tem um novo destino: os Estados Unidos, onde apresentará seu trabalho na 27th Annual International Conference on Digital Government Research, uma das principais conferências acadêmicas do mundo na área de Governo Digital.
Com a pesquisa Towards a Context-Aware Enrollment Forecasting Framework Based on Brazilian School Clusters (“Em direção a um modelo de previsão de matrículas sensível ao contexto baseado em agrupamentos de escolas brasileiras”), o estudante alcança novos voos e fará, em junho deste ano, sua primeira apresentação internacional. Para ele, o desafio vem acompanhado do orgulho de representar a Ufal em um evento de alcance mundial.
“Além da responsabilidade de apresentar o trabalho em inglês, existe também o desafio de representar uma pesquisa desenvolvida ainda durante a graduação. Estou me preparando bastante para isso. Mais do que uma conquista pessoal, acho que é uma oportunidade de mostrar que é possível chegar longe independentemente de onde você veio. A universidade, com toda certeza, foi um agente transformador na minha vida, tanto em termos de formação quanto de oportunidades”, comemora.
Primeiros passos, primeiros êxitos
Com foco em gerar impacto social, Davi direciona seus projetos para políticas públicas voltadas à melhoria da educação. Desde que ingressou na universidade, o estudante sabia que não queria construir uma trajetória acadêmica sem propósito.
Ao longo da graduação, o futuro cientista da computação vem construindo uma trajetória de destaque. Já atuou como monitor de disciplina, participou de ações de extensão, produziu artigos científicos e tem se destacado com pesquisas que ultrapassaram os muros da universidade.
Logo em seu primeiro artigo acadêmico, em novembro de 2025, Davi teve um trabalho selecionado para apresentação na The 15th International Conference on Education, Research and Innovation, conferência internacional realizada na Espanha e voltada para pesquisa, inovação e educação.
Desenvolvido no âmbito da universidade, o estudo utiliza técnicas de machine learning, subcampo da Inteligência Artificial que permite aos computadores aprenderem a partir de dados e identificarem padrões de forma autônoma, para analisar informações educacionais. A pesquisa aplicou uma técnica chamada clustering para identificar padrões em dados relacionados à previsão de matrículas escolares.
“O problema que tentamos resolver com essas técnicas é a predição de matrícula para a política pública do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD). Para que toda a logística funcione, o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) precisa ter uma estimativa segura de quantos alunos vão estar matriculados do Brasil no ano seguinte, para que os recursos cheguem no tempo certo e de forma assertiva. A ideia da pesquisa foi agrupar escolas com características semelhantes e analisar padrões entre elas, pensando em abordagens específicas para cada grupo. Nesse primeiro trabalho, conseguimos separar dois grandes grupos de escolas e identificar diferenças nos padrões das variáveis utilizadas na previsão”, detalhou.
Para Davi, a conquista foi marcante não apenas pelo reconhecimento internacional, mas também por reforçar sua convicção de que a educação pode transformar realidades. “Acho importante destacar que você não precisa ser um gênio, não precisa vir de uma família rica ou ter grandes referências acadêmicas para fazer um trabalho relevante e gerar impacto. No fim das contas, o importante é que aquilo chegue na ponta e possa ajudar as pessoas”, afirmou.
E não parou por aí. Vinculado ao Núcleo de Excelência em Tecnologias Sociais (Nees/Ufal), Davi também foi um dos dez selecionados, entre 105 submissões de todo o país, para a próxima fase do Concurso de Trabalhos de Iniciação Científica (CTIC), realizado durante o Congresso da Sociedade Brasileira de Computação (CSBC), considerado o maior evento científico da área de Computação da América Latina.
O segundo trabalho expande a pesquisa apresentada no evento realizado na Espanha e aprofunda a análise desenvolvida anteriormente, trazendo um novo nível de especificidade para o estudo.
“Antes a gente fazia previsões considerando todas as escolas de maneira geral. Agora, passamos a analisar grupos específicos de escolas, considerando as diferenças estruturais entre elas. Na prática, conseguimos manter a mesma performance dos modelos de previsão reduzindo significativamente o consumo de recursos computacionais. Ou seja, mostramos que é possível otimizar os modelos sem perder precisão”, explica o estudante.
Para conquistar a participação, Davi concorreu com estudantes de algumas das principais instituições de ensino do país, e o avanço do trabalho reforçou a qualidade das pesquisas desenvolvidas na Ufal. “Foi uma honra muito grande. É uma confirmação de que estamos fazendo um bom trabalho e de que temos potencial para contribuir cada vez mais”, diz.
Orgulhando quem orgulha
Filho da dona Meire, doméstica desde os 12 anos de idade, vinda do interior para a capital em busca de uma vida melhor apenas com o ensino médio, Davi aprendeu com a história de sua a mais importante lição: sem estudos, nada muda. Foi nessa perspectiva que Davi definiu que sua formação Ufal seria com foco no desenvolvimento da educação.
“Na minha família, fui a primeira pessoa a ingressar no ensino superior em uma instituição federal. Quando cheguei aqui, obviamente achei que era um meio completamente novo. Eu tinha a sensação de estar muitos passos atrás dos meus colegas de turma, porque estudei em escola estadual desde o ensino fundamental até o ensino médio. E é até por isso que esses resultados me marcam tanto, porque esses trabalhos visam melhorar políticas públicas e fazem parte da minha própria formação”, reforça.
A vida acadêmica exige abdicações, esforços, noites sem dormir e o desafio de encarar o novo, mas para Davi, esses percalços são a comprovação de uma nova realidade e de uma conquista coletiva.
“Quando penso nas dificuldades que enfrento hoje, vejo que muitos desses desafios são “problemas bons”. São coisas a que me proponho para conseguir um bom currículo e criar oportunidades. Nada se compara ao esforço dela. É muito marcante para mim poder dar esse retorno para ela. Acho que tudo isso não representa apenas uma conquista minha, mas também o esforço dela, da Universidade e de todas as pessoas que fizeram parte desse caminho”, finaliza.
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