quinta-feira, 02 de dezembro de 2021

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Melhor que o mar

Por Léo Rosa de Andrade

– É insuportável viver assim… Desculpa, estou mal. Só me resta desvontade, desgosto, desilusão. Ele está fazendo isso comigo, eu não faço nada.

– Ele está fazendo!? Estás sob constrangimento? Alguma chantagem que te poderia atingir? A mim me parece tão simples… Tens todas as condições de sair daí, o mundo te espera de braços abertos.

– Mas, como? Como vou sair?

– Que tal começar deixando de responsabilizá-lo pela tua permanência? Que me dizes de um pequeno apartamento? Em seguida faz as malas, busca a porta, abre-a e a ultrapassa… A vida cá fora te receberá calorosamente, ou, pelo menos, com mais calor do que tens aí.

– Ah, parece tão fácil. Não tenho coragem. Não sou forte. Nunca me acostumei a tomar decisões.

– Interessante o teu pretexto para ficar: fraqueza. Não é fraqueza. Tudo em ti é vontade de ficar. Queres os prazeres do teu desprazer.

– Tens razão… Fazendo o jogo do contente.

– Olha… Os interesses de ficar são teus…

– Tenho que ter atitude, ainda há tempo de ser feliz, de sentir o sabor da liberdade.
– Pieguice!

– Mas não me cobras atitude?

– Não, não; não cobro. Contesto-te quando responsabilizas a outro pelo que deixas de fazer. E não te falta atitude. Tomas a atitude de ficar. Ficar onde estás é atitude tua, não de alguém sobre ti.

– Ai! Vou, sim, vou dar um basta nessa vida medíocre, falsificada, infeliz que vivo.

– É mesmo? Quando?

– Segredo: já andei por imobiliárias… Sabes? Minha advogada disse: ele só precisa de quem se preste a ser uma serviçal, para ficar bem… Uma gerente da casa e dos interesses dele.

– Imobiliária!? Advogada!? Andas tateando outras circunstâncias, então? Olha, a serviçal da existência do outro: muitos queremos uma, alguns conseguem e não se constrangem em desfrutá-la. E há quem goze no se prestar ao triste papel. E sem remuneração, rs.

– Rsrs. Não. É que não é mesmo simples. E o apartamento…

– Há inúmeros pela cidade.

– Rsrs. Mas eu quero um lugar certinho, pronto, me esperando. Não quero qualquer coisa.

– Claro, entendo: queres algo difícil de encontrar. Desenhaste um apartamento improvável. Assim, bem, enquanto não o achas, vais ficando, e com um “justo motivo” para ficar.

– Mas, estou procurando, já é alguma coisa, não?

– Se te convences… Se o procurar te justifica o ficar…

– Ai! Vou te contar: já achei, preenchi papéis, inclusive com fiador…

– Mas isso é um passo libertário, ainda que retrocedido.

– Não era bem o que eu queria…

– Tu bem podes criar o teu lugar, se não o achaste à tua imagem e semelhança.

– Eu sei, eu sei, só não quero ficar em um lugar ruim.

– Eu imaginava que só não querias ficar onde estás.

– É… Liberdade não tem preço, tenho que ir, bater a porta e pronto.

– Em verdade, liberdade tem preço, e muita gente se engana atrasando o pagamento. Mas… Lembras o Sartre? “Viver é ficar se equilibrando entre as escolhas e as consequências”. E as consequências, ainda bem, têm custo.

– Ai que coisa difícil para mim.

– Para todo mundo, não te ponhas como vítima, como se o mundo te tivesse enredado em uma dificuldade particular.

– Mas, não… Só não consigo dar o passo decisivo.

– Só!? Olha, não dar o passo decisivo é dar o passo decisivo no sentido de tudo ficar como está.

– Pensando nisso, as consequências…

– Não há garantias de serem melhores ou piores. Quero dizer: ficar também tem consequências. Se não largas o que tens, não pegarás outra coisa. Não cabe tudo, não é? Estás a repetir tuas exculpações de permanência.

– Mas são mesmo tantas coisas.

– São? Pois está: faz a lista.

– Rsrs…

– Viste? Olha, se tens prazer na vida que chamas de medíocre, assume, fica nela. Não serás a única nesse conflito entre o ir e o ficar.

– Fui deixando o tempo passar, sem me dar conta. Fico com raiva de mim, agora. Mas é tarde para mudar, pelo menos por enquanto…

– Por enquanto é tarde? Mais tarde será adequado? Não cabe mitigar tua permanência ao “por enquanto”.

– Não te preocupes, vou fazer tudo certo.

– Já, isso, sinto muito, não é possível.

– Como assim?

– Não é possível fazer tudo certo. Não há exatidão no futuro.

– É que já sei o que quero.

– E o que isso muda? Se não for feito valer, será nada, como é. E se for feito valer, não será tudo. Nunca é tudo.

– Quero ir para a praia, agora, nua. Quero o carinho do mar.

– Esperas que o mar te espere, suponho.

– Água muito fria. Frio… Vou esperar o calor.

– O agora, o nua… Desejos… Talvez intensos, urgentes… É o mundo: sempre incerto, mas sempre quente e querendo calor…

– Rsrs.

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